A raiva é um sentimento essencial ao ser humano tanto quanto a alegria ou a tristeza. A raiva pode ser útil como um elemento de autodefesa ou até mesmo uma forma de extravasar o que nos sufoca. No entanto, esta emoção, como qualquer outra, pode tornar-se perigosa quando intensa, sem controle, transformando-se no ódio. E o ódio é um dos caminhos mais fáceis para a destruição de si mesmo ou de outros. Algo facilmente encontrado em qualquer livro de História e que, com o mundo conectado de hoje, se pode encontra-lo nas redes sociais afora com discursos inflamados contra o outro por simplesmente não pensar da mesma maneira, por ser diferente e/ou pelo simples fato de achar um alvo para descontar seus próprios problemas.

 

 

O diretor e roteirista Martin McDonagh, do excelente Na Mira do Chefe, desenvolve esta questão em Três Anúncios Para Um Crime. A história começa quando Mildred (a expressiva Frances McDormand) aluga três outdoors para provocar o xerife local Willoughby (Woody Harrelson), na tentativa de fazê-lo ter mais empenho na investigação do estupro e assassinato de sua filha. Porém, esta atitude inicia uma bola de neve de ressentimento que envolve a população de Ebbing, levando a diversos acontecimentos que só piora a vida de todos.

 

Não há vilões e mocinhos em Três Anúncios, apenas seres humanos que não sabem lidar com seus sentimentos, ou que só conhecem uma maneira de demonstrá-los. Mildred está dominada pela frustração de não achar o culpado pelo crime, e direciona o ódio em todos que forem contra sua sede de justiça, não importando suas ações: seja um discurso agressivo contra o padre – quase bati palmas nesta cena -, agressões contra adolescentes ou até mesmo queimar um departamento de polícia. Um furacão que precisa destruir algo para se acalmar, gerando efeitos colaterais como o policial Dixon (Sam Rockwell), que só precisava de um empurrão para aumentar esta tempestade.

 

 

A dupla formada por McDormand e Rockwell leva o filme ao um nível altíssimo de atuações. McDormand parece uma rocha inquebrável pronta para arrebentar os obstáculos, mas revela momentos de fragilidade quando se permite sofrer, principalmente em relação à sua perturbada família. Enquanto Rockwell desenvolve uma complexidade admirável com um personagem que, no primeiro ato, seria impensável para ele. Para completar o trio que deve dominar as premiações este ano, Harrelson é a contrabalança deles. O xerife de longe tem uma vida mais “fácil”, a diferença é como ele decide encarar as porradas que recebe. O diálogo e a empatia ao próximo são suas armas para combater o ódio compreensível, mas não justificável, de Mildred.

 

O diretor deixa bem claro que a única maneira de, ao menos, diminuir o ódio é através do amor. Da empatia. Embora as cenas de violência são impactantes o bastante para marcar, as duas sequências envolvendo Dixon (curiosamente como agressor e vítima em cada situação) deixam qualquer um roendo as unhas de tensão, McDonagh separa singelos instantes de carinho, como o café da manhã entre Mildred e o filho (Lucas Hedges) e uma lição de vida para os personagens tirada de cartas póstumas. O humor negro de McDonagh só ajuda a tornar esta história ainda mais saborosa de assistir. Quem nunca quis uma vingança contra aquele dentista que te faz sofrer através daquela maquininha infernal?

 

 

Três Anúncios Para Um Crime é intenso como o ódio incessante de Mildred, porém nunca desiste de seus personagens acreditando até o fim que possam encontrar a paz interior tão desejada. Se não for a paz, no mínimo uma melhor compreensão do que nos faz diferentes de animais selvagens em busca de uma presa.

 

 

Trailer: