A figura do monstro no cinema é usada, em sua maioria, como o vilão a ser derrotado pelo herói. Mas nem sempre os realizadores compartilham desta mesma perspectiva. Guillermo del Toro é um apaixonado por essas criaturas que podem representar muito mais do que um obstáculo ao mocinho, e sim um entendimento de nosso mundo e de nossos próprios sentimentos. Mesmo quando o monstro é antagonista em seus filmes, como em Mutação, Blade 2 e Círculo de Fogo, o diretor demonstra um respeito admirável na retratação dele. Em outros casos, o monstro pode ter sim uma certa humanidade dentro de si, compreendendo e sentindo emoções dignas de um herói clássico. Desta maneira, após flertar com este conceito em Hellboy, del Toro entrega seu romance monstruoso definitivo com A Forma da Água.

 

 

Escrito pelo próprio del Toro e Vanessa Taylor, A Forma da Água é uma ode ao amor acima dos preconceitos. É o máximo das frases “as aparências enganam”, “quem vê capa não vê conteúdo” e assim vai, discursando sobre a beleza interior de cada um. Por isso, nada mais natural, de que os personagens façam parte de minorias tão julgadas por uma sociedade retrógrada e carregada de ódio, principalmente em tempos em que o mundo está tornando-se cada vez mais conscientizado de seus conceitos antigos e isso desperta a ira das “pessoas de bem” que carregam uma ideia prejudicial de moralidade.

 

Um tipo de sociedade muito bem representada no vilão vivido por Michael Shannon. A sua caricata atuação é intencional para não sobrar dúvidas do mal que representa. Repare como sua família parece ter saído de um comercial de margarina ou uma propaganda do American Way of Life. A sua obsessão por controle e status quo são apenas um reflexo do egocentrismo tão presente atualmente. Enquanto do outro lado da moeda, se tem representações dos deficientes, negros, gays e, como os mesmos também são vistos, monstros. Com esta dualidade definida, del Toro foca muito mais nas alegorias do que tentar desenvolver uma complexidade aos indivíduos. Não que isso signifique que os personagens sejam rasos ou desinteressantes, porém, neste caso, o que representam é mais importante do que são.

 

 

No entanto, a crítica social é apenas uma das camadas de A Forma da Água que, através de uma história de amor contada de uma maneira fabulesca como em O Labirinto do Fauno, impressiona por seus aspectos técnicos e emociona pela entrega dos atores. Sally Hawkins incorpora a muda Elisa Esposito de uma maneira tão verdadeira que é difícil não torcer pelo sucesso da moça. Elisa está presa dentro de uma rotina que se resume ao serviço de casa, um bate-papo com o vizinho Giles (Richard Jenkins) e o trabalho à noite com a amiga Fuller (Octavia Spencer). Sua vida só encontra um sentido quando conhece uma estranha criatura (Doug Jones), meio peixe meio homem, que embora tenha um visual assustador, compartilha semelhanças com ela que só o coração pode sentir. Além, óbvio, a relação de ambos com a água.

 

Para acolher este romance, a produção, principalmente o departamento de arte, entende perfeitamente o mundo fantástico que se passa na mente de del Toro. A fotografia esverdeada de Dan Laustsen consegue transmitir uma sensação ambígua de melancolia e esperança que dominam aqueles personagens, deixando ainda mais encantador os cenários e figurinos dos anos 50. Tudo isso, é claro, com uma trilha sonora sensível de Alexandre Desplat. O visual do monstro é um verdadeiro show de efeitos práticos, um trabalho excepcional já esperado em um filme do mexicano. A pele fluorescente é a cereja do bolo.

 

 

A direção de del Toro retorna às origens sem ter a preocupação com a censura de blockbusters. O diretor é habilidoso o bastante para saber tirar o máximo de cenas sensíveis – a declaração de amor de Elisa é um dos pontos altos, e uma das muitas homenagens ao Cinema – e impactar com uma violência gráfica inesperada, pegando o público pela ferida. O clímax sintetiza estes dois momentos tão opostos de uma maneira equilibrada, sendo o ápice de um trabalho apaixonado por detalhes.

 

A Forma da Água traz uma bela mensagem de empatia ao próximo e esperança de dias melhores. Dias em que os peixes fora d’água enfim possam encontrar seu verdadeiro habitat, sem julgamentos e envoltos de amor.

 

 

Trailer: