Black Mirror chegou em um nível de relevância que é quase impossível não ter altas expectativas com uma nova temporada, esperando sempre o melhor da série criada por Charlie Brooker. É claro que o “sempre o melhor” vira “tem que ser a melhor série de todos os tempos” na cabeça de alguns fãs, criando uma exigência desnecessária que pode afetar até a própria experiência com a série.

 

 

No entanto, a quarta temporada de Black Mirror peca por não apresentar ideias novas em relação às tecnologias, reciclando algumas que já foram vistas em anos anteriores. Porém isso não significa que as tramas também foram recicladas. Vi muita gente reclamando dos clichês e como os episódios estão previsíveis – se isso fosse tão importante, não assistia 80% das produções hollywoodianas -, e esquecendo da discussão que propõem, algo que penso ser a essência da série. E, nesta parte, Black Mirror continua mandando muito bem.

 

O primeiro episódio USS Callister é um disfarce paródico de Star Trek para mostrar a toxicidade existente em comunidades de jogos online, além de um estudo de personagem desses “machões” que infestam a rede. As vítimas do mundo real transformam-se nos monstros do mundo virtual. Um ciclo de ódio sem fim. Seguindo a típica pegada pessimista, Arkangel acompanha uma mãe superprotetora que, com o medo de perder a filha, autoriza um implante na menina que possibilita a monitoração dela 24 horas por dia. Embora escorregue em algumas forçações de Brooker – a mãe flagando a filha justo em momentos que iriam provocar um conflito entre as duas são dignos de novela -, o episódio dirigido por Jodie Foster consegue transmitir, da maneira mais angustiante possível, a mensagem que o nosso desenvolvimento como ser humano depende muito das nossas experiências, não importa se são más ou boas.

 

 

Agora, sem seguir a ordem correta dos episódios, já vou emendar os dois mais fracos. Ou, ao menos, os dois “OKs”. Crocodile é praticamente um Fargo. A protagonista cai em uma situação sem nenhum controle, e vê isso se tornar uma bola de neve até a sua provável autodestruição. A história não sai muito disso, porém é bacana ver uma tecnologia mais rústica como o leitor de memórias que lembra algo dos anos 80. Ah… o conceito de pista e recompensa deste roteiro garante uma sacada brihante no final. Sobre Metalhead, Charlie Brooker mata a vontade de fazer um Exterminador do Futuro para chamar de seu. Sem muitos segredos, e com um visual incrível em preto e branco, o episódio prende por sua tensão e o lado emocional.

 

Hora de falar dos dois melhores: Hang the DJ e Black Museum. O primeiro é uma continuação espiritual de San Junipero, também deixando aquele aperto no coração, pois é difícil se despedir de uma história tão linda. Brooker consegue criar um belo romance usando os aplicativos de namoro tão presentes no cotidiano. Já o segundo é ao mesmo tempo uma chuva de referências a própria série e um retorno às origens para deixar qualquer um agoniado. Com uma estrutura narrativa semelhante a White Christmas, em que histórias pequenas ajudam a desenvolver uma maior, o episódio é uma exposição da natureza humana em seu pior estado. Realmente o problema nunca estará na tecnologia e sim em nós mesmos.

 

 

Com o saldo positivo ainda em alta, Charlie Brooker experimenta, deixa a tecnologia em segundo plano para focar em seus personagens – em todos os episódios com protagonistas femininas – e continua com o delicioso pessimismo em relação ao futuro da humanidade nesta quarta temporada de Black Mirror. Definitivamente o robô do cansaço ainda não alcançou a série.

 

 

Trailer: