Eis que entro no cinema incrédulo se Viva – A Vida é Uma Festa teria a magia da Pixar de fazer qualquer marmanjo chorar, ou seria apenas um caça-níquel da empresa. Bom, independente desta desconfiança tola, só sei que quase não consegui assistir o clímax devido a cachoeira de lágrimas que caía dos meus olhos.

 

 

Dirigido pelo veterano da casa, Lee Unkrich (Procurando Nemo, Monstros S.A. e Toy Story 3 já diz muito sobre o moço), e escrito pela dupla Adrian Molina (codiretor) e Matthew Aldrich, a nova animação da Pixar é tudo o que o estúdio pode oferecer para tornar uma história atemporal. Antes de mais nada, é interessante notar como, ultimamente, os trailers da Pixar não revelam a verdadeira intenção de suas histórias, deixando para surpreender o público na telona. Desta maneira foi com Carros 3 e a troca de protagonista durante a trama.

 

Sim, o filme é ainda sobre Miguel (Anthony Gonzalez), um garoto que sonha em ser músico. Algo nada impossível se sua família não fosse contra qualquer tipo de manifestação musical. Um contratempo que não o impede de buscar o seu sonho e, para isso, ele encara uma aventura no mundo dos mortos – ou das caveiras mais descoladas do Universo – para encontrar seu tataravô, o responsável por esta “maldição” na família.

 

No entanto, esta é a história que mantém-se na superfície, divertindo as crianças, e os pais delas, com um humor leve e simples, sem o exagero ofensivo que domina o gênero. As outras camadas de Viva apresentam mensagens belas sobre família e, por que não, morte (voltarei ao assunto adiante). Também há espaço para críticas como a idolatração cega por ídolos, além de ser uma senhora resposta para o atual momento político dos E.U.A. e o discurso de ódio de seu presidente contra imigrantes, principalmente mexicanos. O filme é uma declaração de amor ao México e sua cultura, honrando o trabalho feito no também ótimo Festa no Céu. A versão em espanhol deve ser linda.

 

 

Composto por grande parte de atores latinos, o mais conhecido entre eles é Gael García Bernal que vive o carismático Hector, a produção transpira alegria e amor em todos os aspectos. A empolgante e contagiante música de Michael Giacchino embala tanto a acolhedora cidade dos vivos quanto a psicodélica cidade dos mortos que, diga-se de passagem, é uma obra de arte que pulsa. Nunca vi tantas cores manterem um equilíbrio tão perfeito, um trabalho impecável de fotografia feito pela dupla Matt AspburyDanielle Feinberg. Os guias espirituais – animas que guiam os mortos – são o auge em termos técnicos, tendo um estilo único que se diferencia do restante da animação.

 

A Pixar mais uma vez consegue, de uma maneira orgânica e certeira, tocar em vários temas sem soar clichê e planfetária. Miguel vê em seu ídolo, Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt), a pessoa mais importante de sua vida, aquela que irá fazer seu sonho se tornar realidade. Do outro lado da moeda, a família é vista como antagonista de sua jornada, quem irá fazer de tudo para que continue a tradição de ser sapateiro. Bom, na verdade ela quer mesmo.

 

Brilhantemente, a história vai mostrando aos poucos, como a vida é mais complexa do que imaginamos quando criança. E como a ilusão criada pelo egoísmo faz Miguel aprender da forma mais díficil que embora a família não o entenda, não quer dizer que ela não o ame. Só depende dos dois lados ver o quão importante é compreender os sentimentos de cada um e não ficar pedindo sacrifícios, mas apoiar e andar junto nesta estrada tortuosa que é a vida. Pois quando chegar a morte, sempre terá alguém para lembrar de você.

 

 

Viva – A Vida é Uma Festa é relevante, divertida e sensível, ou seja, mais uma animação exemplar da Pixar. Sabe as notas certas para tocar o coração de quem assistir e se deixar levar por essa harmoniosa história. Uma história para se lembrar eternamente e celebrar o amor que mantem essa festa que é viver.

 

 

Trailer: