Continuações são um assunto complicado em Hollywood. Geralmente impulsionadas pelos motivos errados, resultam em produções genéricas, repetitivas e exageradas. Até quando as intenções são boas, não conseguem fugir da segurança de uma fórmula testada ou agarram-se na nostalgia dos fãs. Kingsman – O Círculo Dourado e Star Wars – O Despertar da Força podem ser considerados dois exemplos de cada perspectiva.

 

Após o anúncio de Blade Runner 2049, a apreensão e a desconfiança tomaram conta dos fãs, pois nunca houve uma grande necessidade, pelo menos monetária, de prosseguir com a história de Blade Runner – O Caçador de Andróides. O original de 1982, dirigido por Ridley Scott, sofreu nas bilheterias e na ilha de edição. No entanto, Blade Runner não tornou-se cultuado à toa. Seu visual distópico e sua história existencialista moldaram uma geração de realizadores, definindo um novo gênero no cinema. Sendo assim, como mexer em um universo tão particular e ainda assim honrá-lo em tempos que os blockbusters precisam ser cada vez mais barulhentos?

 

 

A solução responde pelo nome de Denis Villeneuve. Não há como negar o completo controle que Villeneuve tem dos seus filmes. Se 2049 vai ser um fracasso ou sucesso nas bilheterias é outra conversa, e preocupação da Warner Bros., o importante é que o diretor, por trás de Os Suspeitos, O Homem Duplicado e A Chegada, conseguiu expandir esse mundo, entregando uma história única que em nenhum momento se agarra no clássico de 82 para justificar sua presença.

 

Escrito novamente por Hampton Fancher, ao lado de Michael Green (como alguém pode estar creditado em obras tão distintas como Logan e Alien – Covenant?), 2049 se passa 30 anos após o primeiro filme. Com a mesma pegada noir, acompanhamos um novo caçador de “andróides” – “replicantes” para os mais íntimos –  que descobre um segredo capaz de moldar um novo tipo de sociedade. Falar mais da história prejudicaria a experiência de qualquer um, mesmo assim, as mensagens que transmite é muito maior do que qualquer reviravolta.

 

 

A trama carrega suas próprias ideias a serem discutidas, envolvendo as memórias e os sentimentos que são algo tão particular do ser humano. Como diferenciar uma pessoa de um replicante se ambos podem demonstrar sentimentos como ódio, medo ou amor? Ou distinguir a realidade das nossas lembranças que, com o passar do tempo, vão mudando? O principal ponto de 2049 não é discutir a humanidade dentro de cada um de nós, mas o que decidimos fazer com ela.

 

Contudo, Villeneuve sabe que a força de Blade Runner está na experiência visual, na atmosfera que cerca aquele universo. O ritmo lento, condenável em 99% dos blockbusters, é essencial para a comtemplação de cada detalhe e faz jus a personalidade do protagonista K (Ryan Gosling) que se mostra reflexivo, analítico e sempre à procura de algo, mesmo sem saber o quê. A paixão pelo ambiente que a adaptação de Ghost In The Shell não demonstrou, 2049 declara seu amor ao clima frio, solitário e sujo de uma Los Angeles destruída. A trilha sonora destoante de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer, e a fotografia hipnótica de Roger Deakins levam a direção de Villeneuve a outro nível. O lendário diretor de fotografia entrega um dos seus melhores trabalhos, cada frame é uma obra de arte.

 

 

As atuações só aumentam a já alta qualidade do longa. Gosling é um ator versátil, tem um ótimo timing cômico e carisma para certos gêneros, como também consegue viver personagens que vivem no limite de suas emoções sem cair no exagero. O retorno de Harrison Ford como Rick Deckard só fez bem ao ator, que honra a profissão em momentos pontuais. A dupla formada por Joi de Ana de Armas e a incansável Luv de Sylvia Hoeks são a cereja deste psicodélico bolo.

 

Blade Runner 2049 é o resultado de quando Hollywood não pensa com a carteira. É a celebração de um clássico e um possível nascimento de outro. Uma produção rara, se for pensar no grande investimento visto na grandeza dos cenários e nas impactantes cenas de ação, que merece aplausos por sua coragem, consistência e respeito pelo original. Uma memória que sempre ficará gravada na cabeça.

 

 

Trailer: