Em 1895, ao mesmo tempo em que Freud dedicava-se aos Estudos Sobre a Histeria e ao Projeto Para Uma Psicologia Científica, os irmãos Lumierè efetuavam a primeira projeção cinematográfica que ficou conhecida como Chegada do Trem na Estação Ciotat. Mas as aproximações entre Cinema e Psicanálise, todavia, não se restringem a esta coincidência de datas. Segundo Xavier (1983), o fenômeno de recorrer à psicanálise para formular uma reflexão sobre o cinema se inicia nos anos 1960, quando marxismo, psicanálise e semiologia foram os recursos utilizados para o estudo do cinema narrativo. Já a partir da década de 1970 houve uma ruptura de pensamento que deflagrou diferentes posicionamentos à respeito do cinema. Em termos mais propriamente psicanalíticos, para Mauerhofer (1983) esse rompimento se deve ao fato de que a experiência cinematográfica difere de um indivíduo para outro devido à diversidade de nossos inconscientes. Já Sampaio (2000) afirma que a relação entre cinema e psicanálise é possível porque o primeiro está diretamente ligado ao imaginário, ao simbólico, aos mecanismos de identificação e ao desejo. Esses aspectos justificam o fato de essa relação ser tão proveitosa.

 

 

Jean-Louis Baudry, um dos grandes representantes do cinema ideológico, concebe uma aproximação entre a projeção cinematográfica e a projeção no sonho e na alucinação. Baudry oscila entre dois posicionamentos: por um lado, considera que o cinema toma a realidade como ponto de partida, mas por outro admite que cinema e sonho são equivalentes. Ademais, foi o primeiro a propor uma afinidade entre “tela e espelho”, tendo se baseado no famoso artigo de Lacan sobre o estádio do espelho. Considera que há uma identificação entre o espectador e a câmera, embora o espectador se identifique mais com aquilo que não vê do que com o próprio espetáculo, segundo ele (Guimarães, 2004). Para Rivera (2011), nas formulações de Baudry a tela serve como um espaço para a repetição da cena formadora (“constituidora”) do sujeito; quando este se reconhece no espelho, permite-se a uma identificação e à composição de um “sujeito-cinema”.

 

Christian Metz é um dos teóricos que trabalha com a interface entre cinema e psicanálise por meio da semiótica, mas atentando à impossibilidade de sobreposição dessas duas áreas e discutindo suas possíveis relações. Para Guimarães (2004), a importância do estudo desenvolvido por Metz se encontra no fato de ele ter extravasado os muros da clínica e ter desenvolvido uma discussão entre a Psicanálise e outra forma de produção cultural (no caso, o cinema). Seguindo um recorte lacaniano, Metz defende que toda observação psicanalítica do cinema seria “um esforço para resgatar o objeto-cinema ao imaginário e para conquistá-lo para o simbólico“. (1980, p. 17). O autor retoma a analogia cinema e estádio do espelho utilizada por Baudry, embora dele se oponha em alguns aspectos: ainda que possamos considerar o filme como sendo um espelho, sugere Metz, ele nunca vai refletir o corpo do espectador. E esse reflexo do próprio corpo é dispensável porque o sujeito já passou pelo estádio do espelho, sendo capaz de reconhecer a si mesmo. Por esse motivo pode compor um mundo de objetos a seu redor; sob essa perspectiva o cinema remete-se ao simbólico e, ainda que o cinema seja uma tela de projeções, ele é apenas isso, e não a própria vida.

 

 

Não é possível discutir a articulação entre cinema e psicanálise sem perpassar pelo território dos sonhos. Foi por meio deles que a psicanálise deixou de se restringir às psiconeuroses e passou a ser uma teoria do homem (Rivera, 2011). À vista disso, Metz (1980) propõe uma comparação entre o estado fílmico e o estado onírico, discutindo suas aproximações e suas divergências. A primeira diferença reside no fato de que o espectador sabe que está no cinema, enquanto o sonhador não sabe que está sonhando. Disso resulta outra diferença: no cinema temos uma percepção real, ao passo que o sonho consiste em um processo psíquico interno. No que diz respeito à “realização alucinatória do desejo”, por outro lado, o sonho é mais seguro e falha menos, já que não depende da realidade exterior. E enquanto o sonho responde mais ao principio de prazer, o filme o faria em relação ao princípio de realidade, pois, além do mais, o filme tem mais lógica e é “melhor construído” que o sonho. Não obstante, esses dois estados se aproximam porque apresentam uma história, ainda que com suas especificidades, e o filme seria o regime de vigília que estaria mais próximo do sono. Para o autor, enfim, “sair do cinema é um pouco como despertar-se…” (1980, p.145).

 

Apesar dessa proximidade, no entanto, não é possível dizer que o filme seria uma mera imitação do sonho, já que ambos retratam uma vinculação complexa entre o sujeito e a imagem. Ao representar os sonhos no cinema, como faz Buñuel em Um Cão Andaluz (1929) e Pabst em Segredos de uma Alma (1926), é possível retratar um descentramento do sujeito em relação à imagem. Além de não sermos “senhores” do nosso próprio espaço onírico, também não o somos do espaço fílmico.

 

 

Neste contexto, o psicólogo alemão Hugo Mauerhofer evidencia o conceito de situação cinema, ou seja, “a mudança psicológica da consciência que acompanha automaticamente o simples ato de ir ao cinema”. (1983, p.375). Ao concluir que o cinema tem como característica incutir um determinado regime de consciência, Mauerhofer se aproxima da tese de Metz que defende estar o cinema na fronteira entre o sono e a vigília. Tédio, imaginação intensificada, passividade do espectador e anonimato descrevem a situação cinema, que segundo Mauerhofer “leva o inconsciente a comunicar-se com a consciência em maior grau do que normalmente” (1983, p.378). Além disso, acrescenta o autor, o cinema possuiria em si uma função psicoterapêutica.

 

Referências

 

MAUERHOFER, H. A psicologia da experiência cinematográfica, in: XAVIER, I. (Org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Gerais Graal: Embrafilmes, 1983.

 

METZ, C. (org). Psicanálise e cinema. Lisboa: Livros Horizonte, 1980.

 

RIVERA, T. Cinema, Imagem e Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

 

SAMPAIO, C. P. O cinema e a potência do imaginário. In: BARTUCCI, G. (Org). Psicanálise, cinema e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

 

XAVIER, I. (org). A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.