Viver é um retrato honesto da vida. É um exercício de reflexão sobre o tempo que destinamos às atividades que consideramos relevantes. Trata-se de um grande estudo acerca da essência das relações humanas, com uma função provocativa e de impacto direto e imediato na vida do público. A forma mais sincera de te perguntar: você está realmente vivo aí?

 

O filme é um dos grandes trabalhos de Akira Kurosawa, mestre da sétima arte e que tornou-se pilar referencial da forma de fazer cinema para o mundo. Kurosawa é dono de uma vasta filmografia que se renovou em forma e conteúdo a cada nova produção. Aqui, é sua narrativa lenta, bem trabalhada e cuidadosa que se sobressai e garante um resultado tão único e espontâneo.

 

 

Nesse trabalho, em que assume roteiro e direção, acompanhamos o viúvo e chefe de uma repartição pública Kanji Watanabi (Takashi Shimura), homem de meia idade que tem um histórico de trabalho impecável. Desligado das pessoas que o cercam por conta das ocupações do emprego, sua vida muda quando descobre que é portador de um câncer de estômago e tem pouco tempo de vida. Com sua condição revelada, ele passa a lembrar momentos importantes de seu passado e buscar um sentido para sua vida.

 

Por que é que só na eminência de nossa morte é que buscamos viver de forma plena? Watanabi trabalhou de forma ininterrupta durante 30 anos, acumulou um bom dinheiro, mas abriu mão de partes fundamentais do viver. Ele existiu durante esse período de tempo, mas não viveu. Com a perda de sua esposa bem cedo, ele dedicou boa parte de seus esforços para criar seu filho, rejeitando a possibilidade de encontrar uma nova companheira. Ainda assim, os laços entre pai e filho são superficiais, não existe diálogo verdadeiro entre os familiares, o que torna quase impossível dividir as angústias e problemas numa relação como essa. E isso é ainda mais inconsistente no ambiente de trabalho, por mais que passe boa parte do dia ali. Como num ciclo vicioso, os vínculos são frágeis mesmo entre os demais colegas de repartição, e ainda mais débeis com a população que depende das decisões ali tomadas.

 

 

Ainda que o câncer seja sua morte certa, é seu coração que mais dói e incomoda. Aquilo que não fez durante sua vida é o que mais o perturba, as possibilidades desperdiçadas povoam sua mente. Ele parte para viver os prazeres da noite, abandonando a velha rotina e acompanhado de um escritor com quem fez amizade. Entre bebedeiras e encontros com mulheres, ele não consegue atingir seu objetivo. A melancolia toma conta de Watanabi, em uma cena embalada por uma canção que celebra o efervescente viver de maneira saudosista. É a imagem deprimida de Shimura, num primeiro plano prolongado, acompanhada de seus olhos marejados, expressando sua tristeza e desconsolo, que contamina nossas emoções. É difícil não se comover e solidarizar, o tempo é curto e as incertezas são muitas.

 

De volta à sua casa, é por acaso que encontra a colega de trabalho Toyo (Miki Odagiri) e dela que surgirão novos pontos de vistas para auxiliar em sua jornada de autoconhecimento. Toyo é extrovertida, deseja viver sua vida da forma mais plena possível e está prestes a pedir demissão para encontrar um novo emprego que a satisfaça. É com a presença da moça que ele pode entender que deve aceitar as consequências de suas escolhas sem encontrar muletas para justificá-las. E nos poucos momentos que eles dividirão que estão os ingredientes que lhe darão combustível o suficiente para que busque aquilo que lhe satisfará.

 

 

E ainda que seja algo tão simples, ao mesmo tempo é o que ignoramos durante boa parte de nossas vidas. O que Watanabi finalmente encontra como resposta não é mágico, surreal ou inovador: o sentido para sua vida está naquilo que pode fazer para o próximo. Dinheiro, seu trabalho, sua casa, nada disso realmente lhe pertence e nem ao menos servirá para que mantenha sua memória viva. O que sobra é seu legado de boas ações, o que está a seu alcance para que o seu próximo possa viver de maneira mais digna. É exatamente nesse ponto que se encontra a chave para o equilíbrio.

 

A trama ainda conta com alguns momentos emocionantes e boas doses de reflexão, mas que devem ser desfrutadas e pensadas pelo público sem grandes interferências. Resta dizer que Viver é uma obra indispensável, não somente para a sétima arte, mas para a sociedade em si. É uma grande oportunidade de analisar o quanto estamos vivendo e o quanto estamos apenas existindo.

 

Trailer: