Dunkirk é o Mad Max – Estrada da Fúria deste ano. Cheio de efeitos práticos, trilha sonora ensurdecente e uma experiência que deve ser vivida no cinema. Gravado em 65mm IMAX, o novo filme de Christopher Nolan é uma ode a superação, à sobrevivência. Dividido em três áreas de combate e noções de tempo: terra (uma semana), água (um dia) e ar (uma hora), o longa conta a história de Dunkirk, que aconteceu em plena Segunda Guerra Mundial quando o exército britânico e aliados – praticamente 400 mil homens – ficou preso em uma praia na espera do resgate, enquanto era cercado pelo exército alemão.

 

 

Nessa corrida contra o tempo, Nolan aproveita cada segundo de projeção. Não há background para os personagens. Não há momentos de ternura em que os soldados mostram fotografias dos entes queridos. Não há cenas heróicas ou bandeiras a serem erguidas. O único objetivo é sobreviver. A única opção é adiar a morte certa. O sufoco que os soldados passam, tendo como síntese o personagem Tommy (Fionn Whitehead), já é o bastante para criar qualquer tipo de empatia.

 

Nolan vendeu o filme ao estúdio quando disse que criaria uma realidade virtual em IMAX. O diretor de O Grande Truque e A Origem sabia do que tinha em mãos. A sua câmera incansável não desgruda da ação, entregando uma imersão profunda ao caos de Dunkirk. Se em Interestelar essa aproximação tirou a beleza do Universo, aqui é responsável por minutos claustrofóbicos que parecem horas, além de por o público dentro de um cockpit. Me senti um verdadeiro piloto de caça quando Farrier (Tom Hardy novamente de máscara) rasga os céus perseguindo os inimigos.

 

 

É claro que essa imersão não seria a mesma sem o trabalho incrível da equipe de som e a trilha sonora de Hans Zimmer. A trilha mais perturbadora e tensa deste Batman – O Cavaleiro das Trevas. O tic-tac do relógio define o nível de angústia e preocupação pelos personagens. Em relação ao som, a sua importância fica evidente logo nos primeiros minutos, em que um portão de madeira é estraçalhado por uma metralhadora e cada tiro soa como um trovão. É verdade que esse exagero no som, sem um trabalho minucioso de mixagem, dificulta a compreensão de certos diálogos, especialmente na hora que são abafados por uma máscara e disputam espaço com o barulho do avião. Um problema minúsculo, pois a história está longe de depender das conversas. Uma resposta às críticas (merecidas) do cinema didático do diretor.

 

Dunkirk é som e fúria do começo ao fim. Uma explosão me fez pular da cadeira. Pensei que iria me afogar em uma cena. Me senti acuado em outra com medo de levar um tiro. A atmosfera sufocante que Nolan desenvolveu é o verdadeiro protagonista. A falta de rostos conhecidos – além de Hardy, Mark Rylance e Cillian Murphy são os mais famosos – ajuda na pegada realista do filme que, vale lembrar, foi gravado na própria praia de Dunkirk. Nolan é um fã da fidelidade. O dinheiro da produção foi bem usado na construção de aviões e navios da época, usando apenas o necessário de CGI. Em tempos que os efeitos visuais estão cada vez mais à beira da perfeição, não há como discutir a importância e qualidade dos efeitos práticos. Fazem uma enorme diferença.

 

 

Vindo de projetos complexos e ambiciosos, Christopher Nolan se reinventa com uma história simples, direta e intensa. Em que questões existenciais dão lugar a gritos, desespero e esperança. Dunkirk vale cada segundo do seu tempo.

 

 

Trailer: