Inspirado na história do boxeador Vinny Pazienza, o filme narra os momentos decisivos que o trouxeram de volta aos ringues depois de um acidente que quase acabou com sua carreira.

 

Vinny (Miles Teller) é um atleta que leva uma vida pouco regrada e tem arriscado sua reputação de lutador. Depois de perder mais uma vez, ele encontra no treinador Kevin Rooney (Aaron Eckhart) um meio de levar mais a sério sua carreira. Mas um acidente de carro compromete suas vértebras e Pazienza tem de ir até o seu limite para se recuperar e voltar a competir. Uma história pesada, mas contada com bom humor e acompanhada de uma ótima trilha sonora, que conta com bandas como AC/DC e Bad Company, a narrativa ganha embalo ao se guiar por um caminho não tão sério. O primeiro ato tem ótimos momentos de descontração e que diluem-se nos atos seguintes de acordo com a gravidade que pede a história.

 

Miles Teller entrega ao seu personagem uma interpretação que vai do despojado e autoconfiante boxeador ao fragilizado homem pós-acidente. Teller prova em mais um trabalho sua competência, sem soar artificial ou raso. Ekchart, com alguns quilos acima do que estamos acostumados a ver, e uma bela careca, também garante um ótimo desempenho. Ciáran Hinds faz o papel do pai do lutador, enquanto Katey Sagal interpreta a mãe.

 

A trama se desenvolve de forma dinâmica, a personalidade divertida de Vinny possibilita bons momentos de descontração, mesmo quando o personagem está passando por maus bocados. Mas quando os desdobramentos das situações pedem por abordagens delicadas também são atendidos. É entre esses tratamentos da história que são desenvolvidos os relacionamentos da trama, sempre honesto em suas representações, mas sem perder o bom humor.

 

Ainda que o filme apresente uma boa construção do enredo e consiga tirar um bom desempenho de seu elenco, o diretor e roteirista Ben Younger perde boas oportunidades dentro do ringue. Enquanto o personagem principal se arrisca nas lutas mesmo depois do risco de paralisia, parece que Younger tem medo e coloca sua câmera em posições que desfavorecem a ação dos confrontos, muitas vezes apelando demais para as emoções dos espectadores na plateia e em casa. Esse distanciamento de momentos importantes tira o fôlego acumulado durante a preparação de Vinny e compromete a emoção colocada em tela pelos atores. Nós vemos a energia acumulada para vencer as limitações, mas seu resultado é negligenciado, numa resolução frustrante da luta.

 

A história se sustenta por uma narrativa acertada ao optar pelo relato sóbrio, mas sem ser sério em excesso, mas joga fora boas chances de explorar elementos importantes para construção do personagem e sua evolução. Contando com a produção-executiva de Martin Scorsese, Sangue Pela Glória resulta em uma boa biografia, mas se distancia dos grandes filmes de boxe. Um filme sobre um homem corajoso, mas um diretor mais conformado.

 


O cinema indie tem procurado novas abordagens para tratar dos mais diversos assuntos. Os melhores resultados têm surgido em pontos incomuns, sempre se guiando pelo absurdo ou subvertendo conceitos e fórmulas dos filmes de grandes orçamentos. Colossal segue essa direção ao unir questões do cotidiano do cidadão comum aos épicos embates de monstros gigantes.

 

Com roteiro e direção de Nacho Vigalondo, que também dirigiu Crimes Temporais e V/H/S – Viral, somos apresentados a vida de Glória (Anne Hathaway), uma mulher desempregada, com problemas de alcoolismo e que tem de voltar à cidade natal depois de seu ex-namorado (Dan Stevens) a despejar do apartamento que dividiam. Vivendo em uma casa praticamente vazia, trabalhando no bar de Oscar (Jason Sudeikis), um colega de infância, e tentando se manter sóbria, ela ainda terá de lidar com uma situação ainda mais delicada ao descobrir que possui uma bizarra ligação com um monstro gigante que tem aterrorizado Seul, na Coreia do Sul.

 

Entre destinar tempo de tela para que os “colossais” possam quebrar tudo, num espetáculo meramente visual, e trabalhar os dramas dos personagens, ainda que sejam corriqueiros, Vigalondo opta pelo segundo. É nas dificuldades banais do ser comum que estão as forças para mover a trama. As câmeras estão voltadas para a retomada de Glória na nova vida na antiga cidade. E mesmo apresentando alguns clichês usuais das comédias românticas (o encontro com um velho conhecido da cidade e as insinuações de uma possível relação, os amigos do bar que os acompanham), a trama se guia por outras propostas, levando o filme para uma construção de expectativa seguido de sua quebra de forma positiva.

 

Mas se existe um espaço menor para os monstros, parece até irônico, ao menos ele é utilizado com a finalidade de divertir. Glória descobre sua conexão e, para mostrar aos amigos a surpresa surreal, apresenta uma dancinha nada elegante com sua contraparte imensa. As aparições bem-humoradas dos gigantes servem como paralelo e metáfora, os problemas pequenos do dia a dia não são assim tão minúsculos quando observados mais de perto.

 

Entre os temas tratados estão as dificuldades com dependência ao álcool e cocaína, a possessividade dentro dos relacionamentos abusivos e a emancipação feminina. Sem cair num tom sério demais e que desalinhe a proposta inicial, formulando boas sacadas cômicas, mas sem desvalorizar os assuntos tratados, o filme patina em profundidade. São boas as reflexões que surgem em momentos pontuais do filme, mas também são rasas. Alguns personagens são subaproveitados e unidimensionais. Há boas oportunidades de abordar os dilemas cotidianos de maneira menos banal e mais original, mas que são desperdiçadas por resoluções ora simplistas, ora desinteressadas. Ainda que o elenco tenha condições de desenvolver melhor seus personagens, Nacho prefere o superficial.

 

Com uma boa premissa e tramas que ajudam a enriquecer o roteiro, Colossal é um filme sobre problemas gigantes, mas que se apequena, seja por falta de interesse ou coragem de explorar melhor seus dramas.

 


Em um retrato honesto sobre a maneira como o Estado presta assistência aos cidadãos e as relações humanas que acompanham tais processos, o novo longa do diretor britânico Ken Loach se apoia na necessidade de empatia.

 

Daniel Blake (Dave Johns), quem acabara de sofrer um ataque cardíaco, está procurando ajuda por meio de programas de assistência do Governo, mas encontra muitos obstáculos na burocracia do sistema. É em uma de suas idas ao departamento que cuida dos auxílios que conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira e desempregada que está tentando se estabelecer na nova cidade e também encontra dificuldades em conseguir ajuda. Em solidariedade, Daniel presta ajuda à família enquanto tenta encontrar formas de se manter.

 

Se tratando de um assunto tão delicado, as chances da história esvaziar-se e encontrar muletas em um drama pesaroso são muitas. Entretanto, Loach usa sua experiência para dar ao enredo uma abordagem sincera, dosando de forma coerente momentos de ternura, presente nas relações dos personagens, com as adversidades cotidianas. Apesar de um personagem central, a trama tem ramificações que ajudam a dar mais veracidade aos obstáculos impostos por um sistema e seus procedimentos burocráticos.

 

Blake sofre ao tentar se enquadrar dentro de normas que não condizem com sua realidade, mesmo sendo bem claras suas limitações, sejam elas por conta da idade ou por não estar incluso na era digital, lhe falta assistência mais humanizada. Seu vizinho, apelidado de China (Kema Sikazwe), trabalha muito e recebe menos do que merece, encontra na venda de produtos importados da China (daí seu apelido) uma forma de ganhar dinheiro. Katie tem dificuldades de achar trabalho, com duas crianças pequenas para cuidar, a situação passa a ficar desesperadora quando há complicações até mesmo para levar comida para mesa.

 

É nesses núcleos que se concentra a humanização. O que olhando de forma mais ampla leva apenas em consideração números, nesse recorte mais aproximado se encontram pessoas. Pessoas com suas dívidas, responsabilidades, sonhos, limitações, medos e tudo aquilo que a constitui como ser humano. O desenvolvimento do enredo e dos personagens, partindo do princípio menos romantizado e mais transparente ao contar a história, é sólido porque conquista por seus personagens de fácil identificação e pelo envolvimento que nos leva ao lugar-comum de cada um deles.

 

Com ótimas atuações, a direção se torna fluída e garante uma experiência emocionante. Eu, Daniel Blake é o reflexo social não de uma comunidade distante, mas talvez da forma como o mundo se organiza. Ao mesmo tempo é uma crítica às normas desprovidas do elemento humano e um pedido para uma mudança.

 


Jogos são divertidos às vezes”, são as palavras de Lola (Imoogen Potts) ao seu companheiro Frank (Michael Shannon) logo no início do filme. É a frase que traduz a essência dos 87 minutos de projeção, em uma narrativa enevoada que conquista pelos detalhes.

 

Frank é um chef de cozinha habilidoso e está num período de transição no trabalho. Lola é a estilista recém-formada e à procura de emprego. Os dois vivem um romance recente que muda após Lola revelar uma situação que incia um efeito dominó na vida do casal. Como num verdadeiro jogo, Frank tem de lidar com as descobertas sobre a parceira sem saber ao certo com o que está lidando.

 

Cercado por uma atmosfera noir, a maior parte das cenas é composta durante a noite e inundada pelas luzes do ambiente, a trama se desenvolve a partir da perspectiva de Frank. Sabemos tanto quanto ele e somos atingidos pelos novos elementos da história da mesma maneira que o personagem. Ciente do poder que tal ponto de vista proporciona, é fácil compreender o ciúme, a curiosidade, a raiva e até mesmo a culpa do chef. O diretor e roteirista Matthew Ross coloca o expectador sempre a disposição do roteiro que se valoriza com boas reviravoltas. Ross é conhecido por seus curtas, sem longas-metragens na carreira, sabe manter o equilíbrio numa produção mais extensa sem recorrer a clichês.

 

São as pistas que tornam o filme tão preciso em seu tom, é aos poucos que os vários mistérios que envolvem a relação dos personagens são revelados. Cada informação, mesmo que pequena, leva a uma resposta grande e que impacta a vida a dois. Shannon e Potts entregam personagens verossímeis, o primeiro sisudo, em um tom sério que se mistura ao carisma apaixonante de sua companheira. A química entre os dois funciona muito bem e ajuda a comprometer o público com a relação do casal que, como um pêndulo, balança do início ao final do filme suspensa sob incertezas e novos fatos de um passado que inspira pouca confiança. Justin Long, Rosanna Arquette e Michael Nyqvist completam o elenco com boas atuações, todos são peças que contribuem para que o grande jogo do enredo se mantenha suficientemente interessante.

 

Sem grandes inovações, mas com uma direção sóbria e cativante, Frank & Lola é resultado de um conjunto de elementos que funcionam em sintonia, dentro de um processo fílmico em que se organiza a partir do que não se sabe, mas se descobre.

 


Dentro dos grandes gêneros do cinema, o terror tem sofrido para apresentar bons resultados no circuito dos blockbusters. Repetindo fórmulas e apelando, com frequência nada moderada, aos fáceis jump scare, as boas histórias ficaram restritas ao setor com menor investimento e mais liberdade criativa. Corra! é um desses casos, o filme de baixo orçamento conseguiu faturar muito e render uma ótima história, elevando o gênero.

 

O longa conta a história de Chris (Daneil Kaluuya), jovem negro que vai conhecer a família da sua namorada Rose (Alison Williams). Na casa dos pais da moça, a aparente família acolhedora esconde algo sinistro que vai além da tensão racial. Marcado por sua composição tênue, as fotografias em preto e branco, vestimentas de cores que realçam a diferenciação de raças, metáforas sobre a posição do negro na sociedade e a utilização de contraposição simétrica, o filme se presta a função de entreter e ao mesmo tempo criticar relações institucionalizadas.

 

O roteiro e a direção são de responsabilidade de Jordan Peele, o primeiro diretor negro a alcançar a marca de 100 milhões em sua estreia na direção. Peele merece os créditos por seu excelente trabalho, ele consegue criar um sentimento de inquietação nas interações com os membros da casa, somado aos receios que, mais tarde, se consolidam em medo. Os pais da garota até parecem legais, mas de maneira forçada; os empregados da casa agem de maneira estranha, na presença dos patrões ou sozinhos, essa atmosfera bizarra vem numa crescente que toma conta da narrativa. Mas seu principal triunfo é tratar de um tema sério como o racismo inserido nesse ambiente, no discurso direto e de maneira sutil, suas cenas são cheias de referências e composições pontuais que fortalecem a linguagem visual empregada.

 

Kalluya, que ganhou notoriedade após estrelar um episódio de Black Mirror, desenvolve um ótimo trabalho, a cena em que chora com os olhos abertos sem piscar é marcante. Allison Williams convence do início ao fim, ela sabe como dosar as camadas de sua personagem. O elenco ainda tem Bradley Whitford e Catherine Keener como os pais de Rose, Caleb Lendry Jones interpretando o irmão e Lil Rel Howery, dando vida ao amigo de Chris, Rod. É neste último que se concentram os momentos de alívio cômico, em dado período em excesso, mas nada que comprometa a gravidade que o filme exige.

 

Com seu terror embasado no mistério e se alimentando um bocado da realidade, Corra! surge como um excelente filme de gênero e atesta que bons cifrões não garantem qualidade ou apelo do público, é preciso ir além.