Criada para os quadrinhos em 1942 por William Moulton Marston e HG Peter, Mulher-Maravilha enfim ganhou uma adaptação cinematográfica, após vários anos de séries animadas e em live-action protagonizada por Lynda Carter. Porém, o cenário atual da parceria Warner Bros. e DC Comics não poderia estar mais bagunçado. Tentando emplacar seu próprio universo nos cinemas, as primeiras apostas das empresas, se não dividiram opiniões, foram alvos de críticas negativas, e com razão, como no caso de Esquadrão Suicida.

 

 

Sem o peso da responsabilidade pela continuidade da DCEU (DC Extended Universe), Mulher-Maravilha ameniza a desconfiança do público e entrega esperança para dias melhores na casa da Liga da Justiça. Patty Jenkins, diretora do sombrio Monster – Desejo Assassino, fez a lição de casa, seguindo a fórmula dos filmes de origem para resgatar o heroísmo clássico visto em Superman – O Filme.

 

O filme conta a história por trás da fotografia mostrada em Batman vs Superman – A Origem da Justiça, ou seja, como Diana Prince (vivida por uma carismática e vibrante Gal Gadot) tornou-se a heroína dos tempos atuais. A melhor parte do roteiro, escrito por Allan Heinberg, são os dois primeiros atos. O primeiro mostra o treinamento da princesa e sua relação com as outras amazonas, criando a empatia do público com a protagonista, para no segundo ato desenvolver o amadurecimento da personagem através da descoberta de um novo mundo em plena Primeira Guerra Mundial.

 

 

Então, no meio desse contexto histórico turbulento, mas sem a suavizada de Capitão América – O Primeiro Vingador, Diana é retratada como uma clássica heroína da DC Comics: um exemplo de moralidade e otimista diante as mais desanimadoras situações. Ela é forte sem precisar ser masculinizada. Ela é inocente sem precisar ser estúpida. Mesmo quando Steve Trevor (Chris Pine) insisti em protegê-la, ela sabe a hora de agir e tomar a liderança. É um filme que valoriza o poder feminino de uma forma natural e nada panfletário.

 

Contudo, a produção tem problemas. Em uma tentativa de manter a identidade do universo, as cenas de luta perdem autencidade por serem cópias do estilo Zack Snyder de dirigir. Muita câmera lenta gratuita prejudica o ritmo das sequências e descaracteriza a direção de Jenkins. Algo que é facilmente ignorado nos acertos. Quando Diana assume o manto de Mulher-Maravilha e corre de frente contra o excército alemão na Terra de Ninguém, protegendo-se contra as balas e inspirando os soldados a segui-la, ao som da trilha sonora épica de Rupert Gregson-Williams, é de encher os olhos de orgulho. A última vez que um herói me emocionou tanto com uma ação foi no final de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

 

 

Outro tropeço, e esse de tão exarcebado é complicado ignorar, se chama terceiro ato. Se as cenas em slow motion são uma cópia de Snyder, o clímax é um xerox de Batman vs Superman. Só tiraram na pós-produção os dois heróis e trocaram o vilão genérico por outro. Não há resistência sobre a escolha de Gadot para o papel da protagonista, mas não pode se dizer o mesmo do antagonista que, quando revelado, soa cômico e deslocado. Além do mais, o final enaltece os efeitos visuais mal acabados, ajudando a destruir a suspensão de descrença e, assim, resultando em um clímax que falha em provocar qualquer tipo de sentimento. Toda atmosfera alá Indiana Jones vai por água abaixo. Em compensação, o humor acha seu espaço no contraste entre a personalidade de Diana e os valores dos anos 20.

 

Em resumo, Mulher-Maravilha coloca o trem da Warner/DC de volta aos trilhos, e ainda o reforça para que chegue inteiro até Novembro. O filme retrata a complexidade da guerra, sem qualquer tipo de dualidade, e constrói uma heroína relevante para inspirar uma nova geração de super heroínas no cinema. Que venha a Capitã Marvel.

 

 

Trailer: