Há tempos que tentam levar as obras do escritor britânico Neil Gaiman para outras mídias. Algumas até ganharam a oportunidade. Stardust – O Mistério da Estrela teve sua própria adaptação para o cinema em live action, e Coraline e o Mundo Secreto, uma animação em stop-motion, são as mais conhecidas. Apesar de certa qualidade, os filmes baseados nos livros de Gaiman careciam de caraterísticas que os tornassem facilmente identificáveis, como seu material original. A primeira temporada de Deuses Americanos surge então como a primeira a cumprir a árdua tarefa, uma experiência visual e narrativa que se destaca, primeiro por se aproximar da visão de seu criador, segundo por optar por uma abordagem que a torna diferente dos demais produtos televisivos em sua maioria.

 

 

Talvez esse triunfo nada fácil se deva, em grande parte, ao produtor Bryan Fuller, sua visão peculiar é a ferramenta que trabalhou sobre o livro sem deformá-lo. Fuller foi produtor de outras séries memoráveis como Pushing Daisies e Hannibal, duas produções que também destacaram-se por sua qualidade ímpar, mas que tiveram mortes prematuras ao serem canceladas devido ao baixo índice de audiência em suas últimas temporadas. O seu empenho em garantir que suas perspectivas tão intrínsecas sejam impressas em seus produtos já provou que preserva bons desempenhos qualitativos, mas não funciona para o público em geral. O que pode ser preocupante a longo prazo, mas deve ser reconhecido nessa primeira etapa.

 

O excêntrico de Fuller se soma ao inusual de Gaiman, numa fusão original na forma de contar a história. A trama principal é sobre Shadow Moon (Ricky Whitttle), um presidiário que está próximo de encontrar liberdade após cumprir três longos anos de reclusão. De súbito, ele é solto antecipadamente por conta da morte de sua esposa. No caminho de volta para casa ele cruza com Mr. Wednesday (Ian McShane), um homem que ele acreditar ser um malandro e o contrata como seu guarda-costas. O acordo de emprego é selado depois de muita relutância de Shadow e muita lábia de seu empregador. Há algumas restrições no pacto, ele só passa a trabalhar após enterrar sua mulher, e se ele se sentir cheio da situação toda, o trato acaba. Acontece que Wednesday é, na verdade, um deus antigo e que está recrutando outros deuses para uma guerra contra novas divindades como a Mídia e a Tecnologia. É no meio dessa pré-guerra que Shadow precisa se adaptar, mesmo que duvide daquilo que testemunha e de sua própria sanidade.

 

 

Essa proposta na obra de Gaiman de colocar em lados opostos da balança os deuses da antiguidade, e mitologias há muito esquecidas, e seus sucessores se estabelece de forma excepcional na série. É na dicotomia desses dois grandes grupos que os pontos de vistas a respeito da própria mudança cultural no mundo solidifica as bases das principais questões levantadas. A ira dos antigos deuses frente a idolatria dos novos é o que move a trama, eles querem recuperar seus lugares no imaginário e cotidiano popular, querem ser adorados novamente. A licença criativa ainda cria ótimas oportunidades para críticas aos novos padrões de vida e costumes, com espaço reservado especialmente para questões sociais que se perpetuaram através dos tempos. O racismo, a homofobia, a misoginia e a xenofobia são retratadas em metáforas bem elaboradas ao longo dos oito episódios que compõem a primeira temporada.

 

São nas cenas introdutórias de cada episódio que se concentram abordagens mais elaboradas e com maior liberdade criativa, muitos deuses e adversidades sociais são expostos aqui. Sempre se aproveitando do visual composto por cores saturadas e fotografia bem trabalhada, que serve quase que como um elemento narrativo, os capítulos são enriquecidos, um após o outro, ao apresentar novas entidades e novos componentes visuais. As sutilezas da simbologia resulta num subtexto que cria leituras mais aprofundadas dos personagens. Esse instrumento se potencializa em tela quando a violência se faz presente, o caricato dos litros exagerados de sangue desenvolvem um espetáculo. O mesmo acontece com a trilha sonora, um blues cansado, gasto e que preenche os episódios quase que como uma entidade.

 

 

E se a produção alcança altos níveis, o elenco não se distância dessa mesma qualidade. Ian McShane entrega ótimas atuações ao lado de seu guarda-costas interpretado por Ricky, que parece introspectivo, mas é mais expositivo que no próprio livro. Vale ressaltar as participações dos personagens Anansi (Orlando Jones, que rouba a cena toda vez que está presente), Laura Moon (Emily Browning, desenvolvendo muito bem uma personagem debochada que te fará odiá-la em alguns momentos), que tem um arco muito maior que no livro, Mad Sweeney (Pablo Schreiber, o expansivo leprechaun) e Mídia (Gillian Anderson, com participações icônicas e que devem render algumas indicações ao Emmy).

 

Os tratamentos dados aos deuses em suas personificações são respeitosos e inovadores. Os arquétipos dos novos deuses, principalmente da Mídia, são emblemáticos. Há a escolha de um elenco multiétnico, as divindades se aproximam de suas origens regionais e preservam características importantes de identificação. E nessa diversificada mistura de homens e seres superiores nada é exatamente aquilo que parece, muitos personagens guardam grandes surpresas.

 

 

Diante de tantos acertos, talvez o maior problema da série seja seu ritmo. Ela leva algum tempo para que a história aconteça, o desenvolvimento dos personagens e a proposta de estabelecer outros é primordial. Não chega nem a ser um problema de fato, é exatamente por conta dessa narrativa menos eufórica e mais centrada que é possível entender o que ocorre e porque acontece. Mas ela perde um pouco da força em alguns episódios, eles são interessantes mas pouco relevantes para a guerra que se aproxima.

 

Parece que esse é um começo promissor para uma grandiosa epopeia mitológica. Depois de oito episódios extraordinários, com seu último sendo aterrador, é inegável que Deuses Americanos está em ótimas mãos. Nos resta aguardar pela próxima temporada e torcer para que a sina das séries de Bryan Fuller não se repita aqui. Como Shadow, vamos acreditar!

 

 

Trailer: