Um ruído incessante e incômodo. Sons que parecem vir ecoando de longe. Um velho acordando. E sua fragilidade diante do enfrentamento de situações cotidianas. Sentar na cama, tirar a fralda, levantar da cama. Um corpo envelhecido e nu percorrendo a casa com dificuldades. O ritual do banho: tomar remédios, escovar os dentes, fazer a barba, tirar a roupa, entrar no chuveiro. Se vestir sozinho, e por fim, colocar o aparelho auditivo. Vemos, ouvimos e sentimos na perspectiva do personagem. Um homem de 92 anos. Tudo retratado com extrema delicadeza.  Esses são os quinze minutos iniciais de A Despedida. Minutos que acompanham o tempo do personagem.

 

O filme de 2014, dirigido por Marcelo Galvão é baseado em fatos reais e narra a história de Renato Oliveira Galvão, mais conhecido como Almirante, um homem de 92 anos de idade, impecavelmente interpretado por Nelson Xavier. Os noventa minutos de duração são divididos em duas partes: a relação de Almirante com o mundo e a relação com sua amante, uma mulher muito mais jovem, interpretada por Juliana Paes. Os atores principais, o diretor e a fotografia foram premiados no Festival de Gramado em 2014.

 

 

Definitivamente, esse é um filme sobre o tempo em suas diversas facetas. É um retrato doce e, ao mesmo tempo, cruel, sobre a invisibilidade da velhice. Logo no início, a família de Almirante é surpreendida quando ele decide ir tomar um café na rua. Sozinho. Algo que já não fazia há um bom tempo. E, apesar de certa relutância, consegue concretizar esse desejo. Nos momentos seguintes essa invisibilidade se torna visível. São cenas que nos mostram como não estamos e nem queremos estar preparados para a velhice. As ruas, o trânsito, as pessoas, enfim, a vida não quer saber do velho. E, nesse sentido, Almirante representa a resistência, que apesar de todos os obstáculos almeja por sua autonomia e seu espaço no mundo.

 

Um tempo que se sobrepõe. Lembranças surgem a todo momento e denunciam a desarmonia entre fragilidade do corpo e a força da mente. Há uma cena que Almirante diz a sua amante que não queria ter a lucidez de entender a sua realidade. Em outra cena, que conversa com o taxista, esse lhe recita um poema: “De todos os animais domésticos, o mais perigoso é o relógio de parede. Aquele ali, disfarçado de mobília, já devorou três gerações da minha própria família”.  Relógio que aparece constantemente durante o filme, se constituindo como personagem essencial e representando justamente a passagem do tempo. Que pode ser cruel ou bondosa.

 

 

Almirante paga suas dívidas, acerta suas contas e não deixa nenhuma pendência. Recupera sua própria autonomia ao voltar para sua casa e preparar seu próprio café. E satisfaz seus desejos ao encontrar a amante. Porque existe desejo sexual na velhice. E ele precisa ser retratado. Afinal, os corpos velhos também sentem.

 

A Despedida é um filme corajoso e sensível, que retrata tabus como velhice, sexualidade na velhice e relações com extrema diferença de idade, mostrando que o tempo passa para todo mundo e envelhecer é um privilégio.

 

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