Paterson é escrito e dirigido por Jim Jarmusch. Paterson (Adam Driver) divide o nome com a cidade onde vive. Divide seus sonhos e anseios com sua companheira Laura (Golshifteh Farahani). Ele, motorista de ônibus e escritor de poemas, nos leva a enxergar toda a beleza escondida na rotina do dia-a-dia. Ela, uma sonhadora inveterada, nos leva a enxergar toda a beleza escondida na potencialidade do não saber o que se quer e querer tudo ao mesmo tempo. Um filme sobre poesia, em forma de poesia.

 

 

Uma das maiores surpresas cinematográficas que 2017 me reservou até o momento. O diretor trata com maestria a delicadeza presente no cotidiano. Retrata, de segunda a segunda, a rotina vivida pelo casal de modo que todo detalhe seja repleto de encanto. O despertar, o café da manhã, o trabalho diário, os escritos no caderno, o passeio com o cachorro, a cerveja no bar. A repetição incansável de cenas. E uma nova descoberta a cada dia. Poesia essa, que só é possível vislumbrar se estivermos dispostos a isso. Dispostos também a enxergar a potência de vida daquilo que consideramos comum.

 

Apesar de a rotina ser retratada basicamente da mesma forma, com Paterson e Laura na cama, seguidos pela informação do dia da semana, sempre há um componente novo. As conversas no ônibus são sempre distintas, os acontecimentos no bar, seus encontros na rua, assim como seus próprios escritos. São essas pequenas variações que preenchem de beleza um cotidiano aparentemente monótono.

 

 

Não existe um grande conflito que estrutura a narrativa do filme. E nem é preciso. Ele é capaz de nos prender justamente pela banalidade do cotidiano, que poderia ser o nosso. Somos transportados ao mundo e ao ritmo de Paterson, que se relaciona de forma muito singular com as pessoas ao seu redor. Ele e Laura se completam e se equilibram. Intensidade e extroversão convivem em harmonia com passividade e tolerância e nos mostram um amor genuíno.

 

O tempo, direta e indiretamente, é um componente essencial na composição do filme. Essa obra é capaz de nos fazer refletir sobre qual relação estabelecemos com ele. Todas essas divagações me remeteram a uma passagem de um texto brilhante de Freud, chamado A Transitoriedade, em que ele diz que “valor de transitoriedade é valor de raridade no tempo. A limitação da possibilidade da fruição aumenta a sua preciosidade. É incompreensível, afirmei, que a ideia da transitoriedade do belo deva perturbar a alegria que ele nos proporciona”. Que a ideia de que as coisas são momentâneas desperte em nós a raridade do tempo. E que viver seja se encantar com as coisas mais simples.

 

 

Termino deixando um dos belos poemas recitados no filme:

 

Pumpkin

 

My little pumpkin,

I like to think about other girls sometimes,

But the truth is

If you ever left me

I’d tear my heart out

And never put it back.

There’ll never be anyone like you.

How embarrasing.

 

Abóbora

 

Minha pequena abóbora,

Gosto de pensarem outras garotas às vezes,

Mas a verdade é

Se você me deixasse um dia

Eu arrancaria meu coração

E nunca colocaria de volta.

Jamais existirá alguém como você.

Que constrangedor.

 

Trailer: