Martin Scorsese é um realizador diversificado. Popular pelo gênero de máfia, que ajudou a construir e sabe como ninguém transpor o mundo do crime para a telona, ele também se aventura em documentários, dramas, comédias, romances, suspenses e até em produções infanto-juvenis como A Invenção de Hugo Cabret. Um diretor capaz de explodir cabeças através de uma violência realista em Os Infiltrados, ou explodir a cabeça do público com o psicológico A Ilha do Medo. Enfim, uma lenda do cinema que não tem medo de arriscar.

 

 

Falando em arriscar, outro tema presente na sua carreira é a religião. Direta ou indiretamente, o tema já rendeu algumas obras interessantes, tanto controversas, como o excelente A Última Tentação de Cristo. Neste ano, Scorsese retorna à temática para dar vida ao um namoro antigo, Silêncio. Apaixonado pelo livro de Shusaku Endu deste 1990, o diretor finalmente conseguiu adaptar a obra. Uma homenagem – tanto crítica – ao trabalho dos jesuítas portugueses no Japão, mas sem esquecer as consequências dessa tentativa frustrada de estabelecer o cristianismo no país.

 

O roteiro, escrito por Scorsese e Jay Cocks, mostra dois padres jesuítas portugueses indo para o Japão feudal, em pleno séc. 17, no intuito de resgatar o mentor deles, o padre Ferreira (Liam Neeson). A trama não entrega muito contexto histórico ou político, focando mais no arco dos personagens. Uma decisão que deixa incerta a gravidade da situação na terra do sol nascente. Porém, Silêncio é muito mais do que uma história de resgate, e sim sobre a fé, e como essa palavra de apenas duas letras pode ser o único alívio em uma realidade tão cruel.

 

 

Com o budismo predominante no Japão, o cristianismo é declarado crime. As mais diversas e cruéis torturas esperam àqueles que seguem outro Deus. Dono de uma frieza calculada, Scorsese não alivia na violência: pessoas são penduras de ponta cabeça, enquanto perdem sangue lentamente; outras são amarradas em cruzes para o receber a água do mar dentro dos pulmões. Cenas que o diretor dedica o tempo necessário na intenção do público sentir o desespero e sofrimento dos torturados. Até mortes rápidas são impactantes, principalmente quando a katana entra em ação.

 

Scorsese faz jus ao nome do filme por usar o mínimo de música que não seja diegética, destacando o choro, os gritos e as preces dos personagens, tudo sem uma resposta divina (e quando finalmente responde, se torna irônico). Por ser um filme instrospectivo, pessoal, o ritmo remete ao cinema clássico. As quase três horas de duração são sentidas, e pode não agradar o público mais acostumado com um Scorsese frenético de O Lobo de Wall Street. A lentidão pode ser encarada como problema por um lado – a narração em off também se perde no terceiro ato -, mas por outro encaixa na proposta do filme, focando na descontruição psicológica e física dos personagens. Só uma pena que a descontruição do personagem de Adam Driver não seja tão natural e compreensível do que o seu colega, Andrew Garfield. O ator, que vem em um ótimo ano com Até o Último Homem, entrega uma performance a flor da pele.

 

 

Embora o foco é nos cristãos, a história não vilaniza os budistas. Não há uma religião melhor do que a outra, uma certa e outra errada, e sim um conflito de ideologias, um conflito de fé. Já não é fácil trabalhar com esse conflito, mas Scorsese vai além, e questiona o papel da fé na vida das pessoas. Os japoneses cristãos vivem em extrema pobreza, e tem na fé a esperança de uma vida melhor depois da morte. Praticamente é a única coisa que eles possuem, e estão determinados a morrer por isso. Enquanto outros usam a fé para conviver com suas fraquezas, como o personagem de Yôsuke Kubozuka que, para sobreviver, pisa na imagem de Jesus ou cospe na cruz, pois sabe que será perdoado se confessar.

 

Silêncio é um filme sem floreios, violento na medida certa e um estudo de época que discute o conflito de duas crenças. No meio de palavras e ações, Scorsese ressalta o silêncio da fé.

 

 

Trailer: