Em 2000, Wolverine ganhava vida no cinema em X-Men – O Filme. O ator escolhido foi o ainda desconhecido Hugh Jackman, que já tinha uma carreira consolidada no teatro. Após 17 anos na pele do mutante, passando por sucessos e fracassos (poucos, mas notáveis), chegou a hora de deixar as garras de lado. Em uma emocional despedida, Jackman encerra seu trabalho com o icônico personagem não como herói, mas como ser humano. E o nome dele é Logan.

 

 

Como um presente ao ator, a 20th Century Fox deu carta branca ao diretor James Mangold, o livrando das influências do estúdio, o que nitidamente aconteceu nos dois filmes solos do personagem. Um exemplo é o terceiro ato desastroso de Wolverine – Imortal. Desta forma, Mangold, que trabalha melhor com produções introspectivas como Garota, Interrompida, Cop Land e Johnny e June, sentiu-se livre para entregar o melhor e definitivo longa do mutante, tendo o clássico Os Brutos Também Amam como principal inspiração.

 

Logan não é um filme de super-herói, e nem precisava ser. Batman – O Cavaleiro das Trevas é um drama policial e, mesmo assim, é considerado uma das melhores adaptações dos quadrinhos até hoje e, tranquilamente, coloco Logan na mesma categoria. Escrito pelo próprio Mangold, com a colaboração de Scott Frank e Michael Green, Logan é um árido e pesado western/road movie. O tom da produção é definido logo na cena inicial, em que se vê um protagonista cansado, doente e autodestrutivo que, quando provocado, não hesita em decepar membros dos inimigos. Então não espere momentos heróicos ou um certo uniforme clássico, não há espaço para fantasia aqui. Até demorei um pouco para acostumar vê-lo falando palavrões e, finalmente, cortando cabeças.

 

 

O trabalho de fotografia de John Mathieson é de tirar o fôlego, de tão moribunda que é a atmosfera deste futuro quase sem mutantes. Um dos restantes, o protagonista passa seus dias dirigindo sua limusine, bebendo, cuidando de um delibitado professor X (Patrick Stewart), bebendo, discutindo com Caliban (Stephen Merchant) e… bebendo. No entanto, sua vida ganha um novo sentido quando precisa proteger, a contragosto, uma menina que está sendo perseguida pelos antagonistas Pierce (Boyd Holbrook) e Dr. Rice (Richard E. Grant). Vilões que servem o próposito de criar obstáculos, mas não comparam-se ao verdadeiro vilão do filme que é o próprio Logan e seu conflito interno.

 

Munido de uma violência gore – obrigado Deadpool -, Mangold solta a fera que estava presa todos esses anos. Sem um número excessivo de cortes e as coreografias dos filmes de super-herói, as lutas são cruas, agressivas e gráficas. Não me lembro qual foi a última vez que me mexi tanto de agonia no cinema. Longe de ser gratuita, a violência em Logan sempre cobra um preço, seja físico ou psicológico. As mortes são irreversíveis, e com certeza vão marcar os fãs por muito tempo.

 

 

Se o corpo do filme é a violência, a alma é o trio principal: Logan, Charles e a expressiva Laura (Dafne Keen). Carregada de drama e humor, a relação dos três não é fácil, como toda família. Enquanto Logan e Charles são assombrados pelo passado, a pequena Laura precisa lidar com um futuro nada promissor. Stewart destrói como um personagem que, apesar de instável e doente, mantém sua compaixão pelo próximo. Laura, uma criança de poucas palavras, consegue transmitir toda as emoções usando apenas o olhar. Por fim, o dono do filme, Jackman entrega sua melhor perfomance como Logan. Com um andar lento, tosse constante, olhos vermelhos e a habilidade de cura comprometida, ele só espera pelo dia da sua morte, mas não antes de cumprir sua última missão. Uma missão que pode, enfim, trazer paz à sua vida.

 

Melhor tarde do que nunca, Logan é o filme que o personagem e Hugh Jackman mereciam, e os fãs também. Traz surpresas impactantes, faz homenagens pontuais à franquia X-Men e encerra com maestria o arco de Wolverine. Até um certo “documentário” surreal que poderia enfraquecer a qualidade da produção, não é o bastante para fazê-lo. Pois, sem tropeços não há rendenção. Melhor ainda se a rendenção vir banhada com litros de sangue.

 

 

Trailer: