O que é ser homossexual? O que é ser negro? O que é viver à margem da sociedade? São perguntas que não encontram respostas simples, e quando encontram são somente reproduções reducionistas de universos muito maiores. Diante de um diretor que sabe falar com seu público e que compreende a mensagem que deseja passar, Moonlight – Sob a Luz do Luar é dessas obras que nasce com propósito, que dialoga com o autorreconhecimento, a solidão e a severidade da vida dentro dessas perspectivas.

 

 

Dividido em três capítulos, acompanhamos, da infância à vida adulta, Chiron, garoto negro e morador da periferia que não entende muito sobre si. Perseguido por ser diferente, sua orientação sexual é rechaçada pelos outros desde a infância, vindo de uma família pouco estruturada, sua mãe é dependente química, e convivendo com a bruta realidade de crescer no gueto; é sob essas influências que tem o condicionamento de seu caráter.

 

Barry Jenkins, diretor do pouco conhecido Medicine For Melancholy, entende e traduz para o espectador as dores, os receios e todas as características que permeiam esse mundo. Hábil e sutil com sua câmera, ele sabe como conduzir a história sem excessos, opta por uma narrativa suave, não há pressa para apresentar personagens ou situações, trabalhando sempre em prol da busca por extrair de seus atores as mais sinceras performances. É uma escolha acertada, funciona, é exatamente por respeitar essas necessidades que sua direção é tão poderosa aqui. “Sob a luz do luar, garotos negros ficam azul” pode ser ouvido num diálogo, e Jenkins faz questão de contaminar todo o filme com tons de azul, seja nas paredes, nas roupas ou na iluminação, como se tentasse pintar da cor primária os caminhos para seus personagens, como se assim os clareasse com a lua e seu brilho. Um carinho que não se encontra em todos os diretores.

 

 

O primeiro capítulo é sobre a infância de Chiron (Alex R. Hibbert, sempre acuado, introspectivo) apelidado de Little pelos colegas. Quase sempre sozinho e frágil diante dos garotos da sua idade, ele admite que não sabe ser durão, só pode contar com a amizade de Kevin (Jaden Piner), que responde prontamente que os outros não precisam saber disso. É nesse período que o garoto encontra Juan (Mahershala Ali, numa entrega extraordinária a seu personagem), traficante e figura paterna em sua vida, e sua namorada Teresa (Janelle Monáe).

 

É fácil notar o quanto há de intervenção daquele meio perante as crianças, elas reproduzem ideias e estigmas que nem mesmo entendem ainda. Em contrapartida, Juan acolhe Little sem questioná-lo ou julgá-lo, numa ação que vai contra todo aquele ambiente. É do traficante que virão as lições fundamentais para o menino, “chega um ponto da vida em que você precisa decidir quem você é” e “você pode ser gay, mas não pode deixar que os outros te chamem de bicha” são alguns dos momentos tocantes entre os dois. É com Teresa e Juan que Little encontra o que falta em casa, a mãe (Naomie Harris), viciada, divide sua relação com o filho em desarmonia, ora parece atenciosa, ora é negligente e cruel.

 

 

Chiron cresce (vivido agora por Ashton Sanders, sempre desconfortável e deslocado nos ambientes) e tem de conviver com as dificuldades ampliadas na escola, as perseguições são mais violentas agora e há a repressão de sua sexualidade. Kevin (Jharrel Jerome), o amigo de infância, ainda é a relação mais próxima que pode conservar.

 

Esse segundo capítulo explora ainda mais intimamente a vida de Chiron e suas experiências, a complexidade de lidar com aquilo que ressente, com a mãe cada vez mais envolvida com drogas e como se manter firme na atmosfera hostil de bullying contínuo. Depois de ter sua primeira relação, estágio curto de felicidade, se vê numa situação de causa e efeito determinante para seu amadurecimento, ainda que de forma triste. Somos então transportados para o último capítulo, ponto de convergência das experiências e realizações de Chiron (Trevante Rhodes, diferente, mas ainda o mesmo em essência), um breve período de retorno e reencontro, tanto para ele quanto para Kevin (André Holland), espaço dedicado para discussão do quanto somos obrigados pela vida a mudar, nos adaptar.

 

 

Moonlight – Sob a Luz do Luar é um trabalho completo, principalmente porque a dedicação ao filme é intrínseca de todos os elementos e indivíduos que colaboraram, uma produção em que o ponto determinante está no trabalho em conjunto. Fotografia, trilha sonora, atuações e direção parecem ter o mesmo propósito, sem que um dos lados se sobressaia sobre o outro. Grandioso, uma produção que abraça uma vida e ensina tantas outras merece todo o reconhecimento possível.

 

 

Trailer: