10 anos. 10 anos desde Apocalypto que Mel Gibson não sentava na cadeira de diretor. Durante essa década, Gibson envolveu-se em diversas polêmicas, sendo uma persona non grata em Hollywood. Porém, o diretor foi retornando aos poucos na atuação de filmes menores para, como uma fênix, ressurgir das cinzas com o impactante – adjetivo familiar às obras dele – Até o Último Homem. Um épico de guerra que faz jus ao nível de qualidade dos clássicos noventistas, e une as paixões de Gibson tão conhecidas pelo público: violência e religião.

 

 

Com um roteiro da dupla Robert Schenkkan e Andrew Knight, o longa adapta a história real do soldado norte-americano Desmond Doss (vivido de uma maneira apaixonante por Andrew Garfield) que, durante a Segunda Guerra Mundial, recusou-se a portar um rifle no campo de batalha e, mesmo assim, conseguiu salvar 75 soldados após um massacre dos japoneses.

 

Schenkkan e Knight dedicam boa parte da história ao relacionamento de Doss com os outros personagens. Um tempo necessário para conhecer seus traumas – principalmente com o pai (Hugo Weaving) -, seus amores e, o mais importante, seus princípios. Embora o romance de Doss com a belíssima Dorothy Schutte (Teresa Palmer) seja apressado, o treinamento no exército flui naturalmente, com Gibson dando uma aula de como marcar cada personagem. Em poucos minutos, o público já está familiarizado com cada um: quem é Hollywood (Luke Pegler)? É o peladão. E Smitty Ryker (Luke Bracey)? O cara com a faca fincada no pé. A cena de apresentação deles é bem elaborada, usando o humor para criar simpatia. Um feito que Peter Jackson, por exemplo, falhou com anões em O Hobbit.

 

 

O humor domina o clima do filme até os valores de Doss começarem a incomodar seus superiores, interpretados por Vince VaughnSam Worthington. Os dois atores fogem do clichê de militares cruéis que, apesar de serem durões, demonstram se preocupar com os comandados. Ao ver o protagonista se recusar a segurar em uma arma, não veem aquilo como uma afronta à pátria, mas algo que pode prejudicar seu batalhão, inclusive Doss.

 

Os princípios de Doss não são banalizados. Ele não quer matar por causa da religião. Sim, ser religioso é uma das influências, porém a maioria dos soldados também são e, mesmo assim, acreditam que estão fazendo o certo ao meter uma bala na cabeça do inimigo. A principal razão vem da relação com o pai, e como ele aprendeu, das piores maneiras possíveis, que a violência só traz sofrimento. Enquanto os outros estão ali para tirar vidas, ele quer simplesmente salvá-las. Um princípio, ou uma teimosia, que poderia afastar o personagem de um público mais impaciente, mas que através de uma história comovente e o carisma de Garfield,  se torna compreensível.

 

 

Durante o conflito com os superiores e os colegas, não há mais espaço para o humor. Quando a guerra começa, a violência explode o humor com C4. Para quem estava com saudade da violência realista de Coração Valente e Paixão de Cristo, o diretor não decepciona. Ele usa o mínimo de CGI (ainda bem, porque quando há, incomoda bastante), e abusa da equipe de maquiagem e efeitos especiais no melhor estilo old school. As cenas de batalha são intensas, cruas e sanguinárias, mas nunca confusas. O clímax é ainda enaltecido pela trilha sonora marcante de Rupert Gregson-Williams, além da entrega emocional e física de Garfield. Ele carregando cada soldado, não importa como, é de um momento heróico que o cinema faz tão bem.

 

Até o Último Homem é o retorno triunfal de Gibson como diretor. Sabendo perfeitamente do que um épico precisa, entrega uma jornada de valores em meio à lama e sangue. Uma emocionante história de fé na humanidade.

 

 

Trailer: