Foi fora de seu país natal que Ifemelu, passou a pensar em si mesma como “uma pessoa negra”. A maneira como Ifemelu encara o seu estabelecimento da Nigéria para os EUA e os sentimentos que vão acumulando na personagem não são nenhum pouco simplistas, e isso faz com que a narrativa seja muito próxima de uma história real (o que chamamos de verossimilhança). À primeira vista, Ifemelu não achou que a vida no estrangeiro seria tão difícil, e entre ela e Obinze, seu primeiro amor, fica a promessa de um reencontro o mais rápido possível. Perdida numa cultura diferente e sem conseguir emprego, a personagem sucumbe a uma depressão e cessa totalmente os contatos com Obinze.

 

Ifemelu se fortalece após conseguir um emprego de babá e se destacar na Universidade e. é a partir daí, que ela consegue observar como é formado os meandros de uma sociedade divida racialmente. O cerne do livro é o preconceito racial, mas ao longo da narrativa são apontados, de forma real e sútil, outros tipos de preconceito e discriminação. São curiosas as observações e questionamentos que alguns estadunidenses fazem aos personagens africanos. Perguntas como “tem muita AIDS no seu país?” não são incomuns.

 

 

Os contatos mais próximos que Ifemelu tem nos EUA são uma tia e um primo. Na Nigéria, a tia, dona de si, mesmo dependente financeiramente de um homem casado, desperta o interesse e a admiração da sobrinha. Nos EUA, se torna uma mulher distante e submissa a uma sociedade hostil a cor de sua pele e a sua nacionalidade. O que explica, talvez, a tristeza silenciosa que Dike, seu filho (e primo de Ifemelu) acumulará durante a adolescência.

 

A protagonista tem dois relacionamentos nos anos que se passam nos Estados Unidos. O primeiro com Curt, homem branco e rico, que consegue enxergar somente algumas das nuances dos problemas de raça. “Nem falamos com nosso namorado branco sobre as pequenas coisas que nos irritam e as coisas que queríamos que ele entendesse melhor, pois temos medo de que ele diga que estamos exagerando ou que nos ofendemos com facilidade demais”. O segundo namoro é com Blaine, um professor negro de Yale, extremamente envolvido com o ativismo negro. Sua exigência em torno do assunto sufoca a namorada.

 

 

Todas as observações que Ifemelu vai fazendo acerca do que acontece no país passam a ser escritas no blog Raceteenth ou Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Conhecidos como Crioulos) Feitas por uma Negra Não Americana. Geralmente, alguns dos posts do blog são transcritos nos finais dos capítulos.

 

Uma grande parte da narrativa é dedicada a Obinze, o grande amor de Ifemelu. Obinze é daqueles personagens que despertam admiração imediata pelos leitores. A honestidade e humildade do personagem são comoventes e é difícil não imaginar Obinze e Ifemelu juntos, uma vez que sem ser piegas, existe uma completude na união. A escrita de Chimamanda é simples e forte. Convidativa e amarga. Nenhuma leitura pode ser feita de apenas uma maneira, mas todas as possíveis após Americanah, se você não for cínico ou superficial, te levam a compreender a sociedade ainda racista que acha-se nos EUA (e também no Brasil – a ponte é fácil).

 

O mais importante desse livro é como Chimamanda enfia o dedo na ferida para dizer que racismo não é mais “seu preto macaco, saí que aqui é meu lugar”. Isso é postura de uma pequeníssima parcela de racistas. A outra, a maior, acha que não é racista e perpetua pequenas ações e pensamentos (provavelmente você se enxergará em alguns deles) que fundamentam uma sociedade hipocritamente democrática.

 

 

É curioso que a leitura desse livro foi feita por mim em meio a um período de acaloradas discussão sobre apropriação cultural, lugar de fala e etc. É importante que as discussões continuem, e somente com o exercício da razão se chegará a um ponto comum. Chimamanda fez desse romance um exercício extremamente engenhoso com um pouco de cada ponto importante a ser discutido sobre assuntos raciais. Me arrisco a dizer que se eu fosse você, não entraria em nenhuma dessas discussões sem antes ler Americanah.

 

Nos Estados Unidos, o racismo existe, mas os racistas desapareceram. Os racistas pertencem ao passado. Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis. Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com família que o amam, pessoas normais que pagam impostos. Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda.