2016 acabou ficando caracterizado como um dos anos mais difíceis dos últimos tempos, principalmente tendo-se o olhar da conjuntura geopolítica nacional e internacional. Em tempos difíceis para a sociedade, normalmente se recorre ao escapismo artístico, seja por meio do cinema, da música, da literatura ou até mesmo da teledramaturgia. Nesse momento, as artes são obrigadas a se reinventarem para acomodar um público que busca alcançar novos voos e ser levado a universos muito distantes do triste cotidiano que ele tem vivido.

 

Infelizmente, em 2016 o cinema não mostrou ter essa capacidade. Foi um ano pouco crítico e inventivo, onde a criatividade cedeu ao lugar-comum e ao comodismo; um ano onde até mesmo grandes diretores não foram capazes de realizar grandes feitos e o cinema independente não surpreendeu.

 

Mas, como em tudo na vida, houve exceções e, delas, tiramos os filmes de que mais gostei de assistir no ano. Vamos a eles:

 

10. O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

 

 

Se a lista fosse sobre os filmes mais criativos do ano, certamente O Lagosta repousaria tranquilamente em primeiro lugar. Mesmo o ano da crise de criatividade hollywoodiana, não impediu o diretor grego de realizar o filme onde solteiros que resolvem se hospedar em um determinado hotel, para encontrar suas “cara-metades”, são transformados em animais caso não as encontrem. Embora perca um pouco de fôlego na metade de sua segunda parte, o roteiro assinado pelo próprio diretor e por Efhtimis Filippou e a competência do elenco fazem com que permaneçamos imersos numa realidade muito mais amedrontadora e insana do que a de muita série de streaming por aí.

 

09. A Qualquer Custo, de David Mackenzie

 

 

A princípio uma versão mais leve de Onde os Fracos Não Tem Vez, o “western moderno” de David Mackenzie ganha profundidade à medida que se olha cada vez mais para a análise histórico-cultural que ele se propõe a fazer do povo americano e principalmente de um de seus estados mais conservadores, o Texas. A Qualquer Custo, com atuações marcantes de Jeff Bridges, Chris Pine e Gill Birmingham, mostra como um retrocesso político e histórico pode deixar marcas profundas, principalmente no que diz respeito à tolerância, ao crime e à concepção de família.

 

08. Procurando Dory, de Andrew Stanton

 

 

Com um histórico que conta com Carros 2 e Universidade Monstros – dois filmes que, mesmo não sendo medíocres, também estão longe de ser grandes exemplos de cinema -, é de se ficar com um pé atrás com a capacidade da Disney/Pixar de produzir sequências verdadeiramente boas. Procurando Dory, porém, é um acerto e tanto. Com um visual ainda mais aprimorado e estonteante que o seu antecessor e um humor sutil ao mesmo tempo que inteligente (com base principalmente na deficiência da protagonista), o conto da busca da incomum amiga de Nemo por seus pais é uma amostra de como a clássica produtora de animações ainda é capaz de acertar em seus criativos roteiros e na criação de personagens vivos, representativos e carismáticos, sempre brilhantemente construídos.

 

07. A Chegada, de Dennis Villeneuve

 

 

A quebra de paradigmas sempre influenciou de forma definitiva a história do Cinema. É preciso entender que os gêneros não são construções fechadas, mas que devem ser explorados em todas as suas dimensões, não devendo se prender única e estritamente aos clichês consolidados pela máquina da indústria cultural. Assim aconteceu com a ficção científica quando Stanley Kubrick apresentou o embate deus ex machina em 2001 – Uma Odisseia no Espaço, quando os sentimentos mais amedrontadores do ser humano se viram expandidos no amplo e ao mesmo tempo claustrofóbico espaço do Alien – O Oitavo Passageiro de Ridley Scott ou até mesmo quando Steven Spielberg apresentou a importância da construção do processo cultural em Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Esta forma de rompimento nunca foi uma novidade na carreira do canadense Denis Villeneuve, por isso não nos surpreende sua escolha por, ao invés de retratar um sangrento e barulhento conflito entre seres humanos e alienígenas em A Chegada, buscar demonstrar – com muita maestria – quão falha ou simplória pode ser a nossa percepção de tempo e a nossa memória afetiva através da bela história da linguista que confronta a morte da própria filha ao ser escolhida para “traduzir” uma língua extraterrestre para o Exército americano.

 

06. O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson

 

 

A história do menino criado em um universo lúdico pela mãe enquanto crescia mantido em cativeiro e sua dificuldade em desconstruir o próprio imaginário gerou, de longe, O Quarto de Jack é o melhor exemplar do cinema independente estadounidense de 2016, em uma trama inteligente e emocionante. Só é de se lamentar que a brilhante atuação de Jacob Tremblay, com apenas 9 anos na época de lançamento do filme, não tenha tido o mesmo alarde da participação de sua mãe fictícia, a vencedora do Oscar de Melhor Atriz Brie Larson.

 

05. Cinco Graças, de Deniz Gamze Erguven

 

 

Em tempos de avanço da extrema-direita e de rápida proliferação dos discursos de ódio e desrespeito aos direitos humanos, é de se destacar o filme que tratou sobre como o fundamentalismo pode mudar definitivamente a vida dos cidadãos de um país e como ele afeta principalmente as minorias historicamente oprimidas. Ambientado sob o verniz progressista da nova Turquia, Cinco Graças contou a triste história de como cinco irmãs têm as suas juventudes destruídas pelo machismo proveniente do extremismo religioso que permanece reinando no país, e passa a reinar, infelizmente, cada vez mais ao redor do mundo.

 

04. Steve Jobs, de Danny Boyle

 

 

Numa das cinebiografias menos tradicionais dos últimos anos, a direção dinâmica e autoral de Danny Boyle encontrou a história de um dos gênios mais controversos e influentes da contemporaneidade, Steve Jobs, em uma combinação perfeita. Sincero e sensível, o filme optou pelo enfoque pouco tradicional nas noites de lançamento dos principais produtos da Apple, que aparecem aqui como que para realizar um grande panorama da vida de seu criador em um agridoce espetáculo teatral. Protagonizado por atuações inspiradas de Michael Fassbender e Kate Winslet, Steve Jobs possui, para mim, aquela que também é a grande cena de 2016 justamente na bela sequência que encerra a obra. Um encerramento à altura da intensidade da personalidade de seu biografado, que encerrou a sua obra recentemente de forma não menos definitiva.

 

03. Aquarius, de Kléber Mendonça Filho

 

 

Com Aquarius, Kléber Mendonça Filho se consolidou como o diretor de cinema que melhor consegue transportar a realidade político-social brasileira para as telas, sempre com o fundamental pé na História. Aqui, na revisitação de um tema já presente em O Som Ao Redor, há a luta de uma moradora contra a especulação e a corrupção imobiliária. De plano de fundo, os dramas pessoais de uma mulher de meia-idade que encontrou na Arte uma fuga para a estigmatização que criou em cima do sexo e do seu próprio corpo após um câncer de mama. Ao fim, a maior catarse cinematográfica de 2016.

 

02. A Grande Aposta, de Adam McKay

 

 

No ano da vitória de Trump, Dória e Crivella, do Brexit e da ascensão golpista de Michel Temer ao poder, o capitalismo não poderia ter dado sinais maiores de sua crise. Mas se não foram suficientes, Adam McKay bem que já havia nos avisado lá no comecinho do ano, e pra isso usara contra o antro capitalista do mundo todas as suas maiores marcas: a fragilidade de valores da indústria cultural, o lamaçal ético do mercado de valores e a superficialidade do sistema escondida no american way of life sustentado pelo mercado imobiliário. Na sua proposta de subversão de valores, A Grande Aposta até faria valer o ditado “seria cômico se não fosse trágico” se a saga de desilusão de seus protagonistas com o capitalismo não fosse tão engraçada.

 

01. Elle, de Paul Verhoeven

 

 

A carreira do grande Paul Verhoeven pode ser dividida principalmente em dois tipos de filmes: as ficções científicas, onde a extrema violência acaba se tornando cômica e mostrando quão risível pode ser a contemporaneidade completamente dependente tecnológica, e os dramas pessoais, em que a instintividade e animalidade dos sentidos e da personalidade humana acabavam gerando verdadeiras crônicas do absurdo. Agora, em seu grande retorno para o cinema, nada mais justo do que Verhoeven optar por uma mistura de suas duas fases. Elle, assim, é uma grande crônica do absurdo que tem a violência como motor narrativo. O resultado é a melhor produção de 2016 que, para além de tudo, ainda conta com uma das maiores atuações da carreira de Isabelle Hupert. Aos 78 anos, Verhoeven prova que a autenticidade ainda é a melhor marca que se pode imprimir em um filme.

 

Também mereceram destaque: O Regresso, Zootopia, A Bigger Splash, Invocação do Mal 2, Rogue One – Uma História Star Wars, Loving e Trolls (confira a edição de 2015).

 

Um 2017 de muito cinema a todos! 🙂