Hollywood é uma máquina incontrolável de gerar franquias, alteram-se os gêneros, as fórmulas nem tanto, e a busca continua a mesma: criar produtos que se sustentem sob um mesmo título e gerem uma boa renda. O Contador é consequência dessa obsessão da Indústria, nasce com potencial para gerar uma série de filmes, mesmo que escorregue em alguns pontos da trama.

 

Christian Wolff (Ben Affleck) é o contador. Autista, compensa sua inabilidade social, decorrente do distúrbio psicológico, com uma incrível habilidade de se relacionar com somas numéricas. Filho de um militar, recebeu treinamento em artes marciais, além de manuseio de armas. O seu dom é utilizado para trabalhar com grandes nomes do crime, a contabilidade dos negócios ilícitos é um de seus empregos, o que o coloca em perigo quando investiga os desvios de verba de uma empresa. O tom de mistério empregado pelo diretor Gavin O’Connor é peça chave para o desenvolvimento da trama, revelando aos poucos as lacunas que cercam a vida de Wolff; como o protagonista em determinado momento, ele vai encaixando as peças do quebra-cabeças.

 

Ben Affleck parece somente reprisar seu papel de Batman, sem o charme habitual de Bruce Wayne. Existe um embate com seus próprios demônios, até mesmo os traumas dos personagens se assemelham em certo ponto. A abordagem mais realista se perde dentro de alguns conceitos, ora temos um homem com falhas, problemas reais; ora sua deficiência cognitiva parece lhe conferir poderes sobre-humanos. Ainda assim, é fácil simpatizar com o personagem, sua dificuldade em lidar com as pessoas, em especial com Danna (Anna Kendrick), é parte de seu apelo para com o público, mesmo que algumas situações soem embaraçosas.

 

A história segue bem até próxima ao final do filme, existe um anticlímax deslocado que coloca em risco o elemento surpresa do filme, junto com a dosagem entre ação e suspense. Por falar em ação, O’Connor administra cenas de violência sem muito pudor, os embates corporais são sempre muito secos e os tiroteios não usam de artifícios muito elaborados. Paralelamente ao desenvolvimento de Christian, temos uma segundo trama que serve para revelar os desdobramentos a respeito dos flashbacks introduzidos durante a projeção. Os personagens de Jon Bernthal e J.K. Simmons são algumas das pontas soltas que dão indícios de que o filme pode se desdobrar em mais alguns episódios.

 

Seguindo as velhas fórmulas já usadas em outras franquias, O Contador não traz nada de novo, mas apresenta um resultado bom o suficiente para estabelecer um universo que se sustenta e tirar o melhor proveito de seu gênero. Resta saber se a Warner Bros. investirá em outra franquia sem a certeza de um retorno financeiro.

 


Taika Waititi, que já havia provado sua veia humorística na direção do mocumentário O Que Fazemos Nas Sombras, reafirma seu desempenho com comédias em Hunt For The Wilderpeople, ou como foi traduzido aqui no Brasil, A Incrível Aventura de Rick Baker.

 

Rick Baker (Julian Dennison) é o adolescente órfão com sérios problemas de conduta que está indo para sua última tentativa de adoção com o casal Faulkner. A chegada do garoto ao novo lar o levará a uma aventura sem precedentes, floresta a dentro junto do ranzinza patriarca da família, Hector (Sam Neill). Com uma direção muito simples, Waititi consegue extrair de seu elenco e das situações o melhor desempenho possível, a ação nonsense, na maioria das vezes, funciona exatamente por essa abordagem. Por falar nas cenas cômicas exageradas, elas também camuflam os conflitos e dramas do jovem Baker e de seu “Tio Hec”. A pegada aventuresca lembra os filmes oitentistas como Os Goonies e Conta Comigo, bebendo de ótimas fontes e criando algo novo para essa década.

 

A fotografia aproveita as belas paisagens da Nova Zelândia e a câmera ágil contribui com a dinâmica que os momentos de perseguição precisam. Os dois personagens passam a maior parte do filme em fuga e complicando ainda mais a situação, cada vez que encontram pessoas pela mata. Vale destacar o desempenho de Sam Neill, é meio bizarro que Hollywood tenha mostrado tão pouco interesse em utilizá-lo em outros trabalhos, mas quem realmente rouba a cena é Juilian Dennison, o garoto parece muito à vontade em seu papel e é ali que estão as melhores performances.

 

Com uma narrativa que pode remeter a um cartoon, Taika Waititi trouxe seu melhor filme até agora, esse resultado gera uma ansiedade imensa para descobrir o que ele fará com o Asgardiano e o Gigante Esmeralda em Thor Ragnarok ainda esse ano. Talvez seja esse o ponto em que a Marvel pode se superar mais uma vez.

 


Em mais uma investida em animação stop-motion, o estúdio Laika oferece um filme diferenciado do que tem sido feito em grandes estúdios. Mantendo o padrão de contar boas histórias, Kubo e as Cordas Mágicas marca pela autenticidade as quais as grandes fábulas são lembradas até hoje.

 

A história trata da vida de Kubo (Art Parkinson), o garoto que pode dar vida aos origamis com sua música e que tem de cuidar da mãe adoecida após salvar aos dois das mãos do Rei Lua, seu avô. Mesmo conseguindo escapar, eles devem continuar escondidos, Kubo jamais deve sair da caverna onde mora durante a noite. Num ato descuidado, o garoto é descoberto e deve partir em busca da armadura de seu falecido pai para derrotar o avô.

 

Digno de um grande épico, o roteiro trabalha com um enredo que mescla a fábula com elementos de uma odisseia, uma aposta que agrada o público adulto e leva o infantil ao encontro de algo não convencional para as animações contemporâneas. O diretor estreante Travis Knight, que já havia produzido outros filmes para o estúdio como Boxtrolls, Coraline e o Mundo Secreto e Paranorman, parece confortável com a nova posição, ele encontra aqui espaço para explorar sua abordagem menos clichê, evitando subestimar a capacidade dos espectadores.

 

O longa nos reserva algumas ótimas surpresas, há pontos de revelação não esperados que garantem um desfecho imprevisível. Outro destaque é a fluidez com que tudo é executado, o trabalho minucioso com o stop-motion parece proporcionar uma carga de realidade que a animação convencional não consegue alcançar, os personagens parecem mesmo donos de suas vidas naquele universo. O elenco de dubladores também ajudam a entregar um material ímpar, Charlize Theron, Ralph Fiennes, Matthew McConaughey são parte das vozes por trás dos personagens.

 

Kubo e as Cordas Mágicas destaca-se pelo trabalho visual e ganha um espaço isolado das outras animações, tanto da casa quanto dos outros estúdios, por sua direção autoral alinhada ao roteiro menos apelativo e mais coerente com as propostas de sua história. Com um material autêntico, inova em algumas fórmulas há tempos utilizadas na Indústria, e respeitando os elementos da cultura oriental, essa pode ser talvez a obra mais completa da Laika Entertainment.

 


Adaptação do livro Holograma Para o Rei, Negócio das Arábias é uma dessas comédias que você assiste, mas vai esquecer em pouco tempo. Tom Tykwer, diretor de Corra, Lola, Corra, perde o foco e esquece ao que se propõe o filme.

 

Alan Clay, vivido por Tom Hanks, é um homem falido e tenta encontrar um recomeço para sua vida financeira na Arábia Saudita. Ele busca vender sua ideia ao monarca que pretende construir um complexo no meio do deserto. Clay vive sob pressão, se sente oprimido pelas decisões do passado que o levaram à atual situação, o fim do casamento e as dificuldades da filha em pagar a faculdade também são outros problemas que o assombram.

 

O filme tem bons momentos, na maior parte do tempo é durante os choques culturais, quando Alan e Yousef, o motorista de táxi vivido por Alexander Black, estão em cena. Mas o longa não pode ser sustentado somente dentro dessa relação. Numa tentativa de reproduzir uma daquelas comédias medianas de erros, o roteiro toma algumas decisões que levam o material final para outro ponto muito diferente.

 

O fato de Clay encontrar uma chance de recomeço em um outro relacionamento dá um outro tom ao filme, distante daquele que podíamos notar no início. A exploração dos cenários muitas vezes absurdos e contraditórios, temos luxosos apartamentos localizados em edifícios em processo de construção muito precários, numa contraposição de duas realidades que coexistem sem se anularem, também causa uma outra impressão sobre a proposta da comédia. Nessas investidas em mais de um subgênero, parece que Negócio das Arábias não sabe exatamente o que quer dizer, nem a que ponto pretende levar seus personagens.

 

Mesmo com a defasagem na proposta, o filme consegue entregar uma diversão momentânea, não mais que algumas boas risadas durante a projeção, mas que, como disse antes, serão esquecidas ao fim.

 


Encontrar equilíbrio para um filme exige muito de seu autor. Fugir das armadilhas da visão unilateral e dos tropeços sob o discurso fácil é uma tarefa constante durante sua elaboração. Em Capitão Fantástico temos o balanço ideal para não ser apenas mais um discurso panfletário, um exercício de autoafirmação e descolado da autocrítica.

 

O longa, muito bem dirigido e escrito por Matt Ross, trata da família que vive fora do sistema capitalista, organizados numa comunidade com seus próprios costumes, no meio da floresta, distantes das influências do mundo neoliberal. O ponto de ruptura, mote para o filme, é o suicídio da mãe. Ela sofria de bipolaridade e estava internada há meses numa clínica; a família então tem de deslocar-se para dentro da sociedade a fim de honrar seus desejos em testamento.

 

Nessa sociedade “fora da república de Platão”, as crianças são estimuladas ao pensamento crítico, todos entram em contato com literatura, estudo das línguas, combate corpo a corpo, meditação, escalada, uso das flechas e armas, uma série extensa de hábitos pouco comuns à nossa forma de organização social. O pai, Viggo Mortensen em excelente desempenho, é o responsável por todos os costumes evocados dentro da família, ele passa parte de seu tempo testando e provocando as habilidades e conhecimento dos filhos. A vida regrada e vivida de maneira menos superficial confere algumas características incomuns aos membros, isso fica evidente quando eles tem de interagir com outras pessoas. As cenas de maior choque cultural ocorrem durante o jantar com os parentes, a contraposição da vida fora do mundo globalizado pelo consumo gera situações conflitantes, o supérfluo e o essencial disputam espaço físico em tela e nos discursos.

 

É raro encontrar na indústria um filme que trabalhe tão bem com apontamentos necessários aos problemas constantes em vida em sociedade e todas as consequências do atual sistema vigente. As críticas, bem colocadas em todos os momentos, vão costurando o enredo e, em dado momento, se torna autocrítica. Mesmo a vida levada ao oposto do que manda o capital tem suas falhas, principalmente quando se leva em consideração que trata-se de uma resistência solitária diante do resto do mundo. A abordagem utópica dá lugar para um olhar mais realista da situação. Ross nos leva do cômico contraste entre dois mundos distintos às lágrimas, quando as estruturas familiares parecem abaladas. É uma experiência emocional bastante diversificada, acompanhar a evolução dos personagens tão de perto às vezes é doloroso, mas necessário. A fotografia e o trabalho de todo o elenco de atores, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, e o trabalho em tela são componentes que tornam o longa um produto singular, é difícil não se comover com a relação entre eles e o pai, ou até mesmo com a homenagem à mãe.

 

Capitão Fantástico se destaca como uma das maiores surpresas do ano de 2016; é uma obra que deve ser revisitada sempre que possível. Vamos torcer para que Matt Ross ainda repita o trabalho excepcional em produções futuras.

 


As distopias são parte fundamental das críticas aos modelos de organização social, elas atingem o cerne das questões mais presentes na sociedade e deixam em evidência o que muitas vezes é negligenciado. Taylor Sheridan, responsável pelo roteiro, e David Mackenzie, o cara por trás da direção, são a combinação perfeita para o retrato distópico da América do Norte.

 

O empobrecido Texas é palco para os assaltos orquestrados pelos irmãos Tobey (Chris Pine) e Tarner (Ben Foster), numa tentativa de resolver o problema financeiro que assola a família. No entanto, o patrulheiro Marcus Hamilton (Jeff Bridges), prestes a se aposentar, vai fazer de tudo pra frustrar os planos dos dois.

 

A morte do “sonho americano” é um fato concretizado em A Qualquer Custo, o american way of life é vítima das suas próprias circunstâncias: a comercialização do sonho no berço do capitalismo faz todo o sentido. O longa toma pra si a tarefa de apresentar a realidade pouco esperançosa na potência mundial, as dívidas com a hipoteca, somadas ao pouco assistencialismo aos veteranos de guerra, é parte do retrato do filme. A falta de perspectivas de mudanças flerta com o clima árido da região, não há como acreditar que algo crescerá ali, tudo parece desfavorável.

 

Pine interpreta o homem ressentido com a situação, em parte é vítima das circunstâncias, ele está nos assaltos para saldar os custos do imóvel onde vive e garantir uma vida menos miserável para os filhos; mesmo sendo pouco presente na vida dos garotos, sabe de suas responsabilidades e pretende cumpri-las por qualquer meio necessário. Ben Foster é o irmão inconsequente que acabou de sair da prisão e participa dos delitos em auxílio ao irmão, mas por motivos bem menos nobres, pois já não conhece mais outra maneira de viver. Os dois sabem que não há uma maneira de escapar disso ilesos, afinal não existem crimes perfeitos, mas levam seu cronograma de assalto às últimas consequências. Bridges faz o papel de americano médio, aceitando sua realidade: o mundo é injusto no fim das contas, mas faz parte. Seu personagem exala intolerância, não perde a oportunidade de fazer piadas sobre seu parceiro que tem descendência indígena. Dentro de um olhar mais amplo, os três personagens e as tramas de suas vidas são resultados de sua sociedade, é o sistema quem os produz.

 

A crítica, bem incisiva e explícita em outdoors, que comercializam e financiam, e nas pichações em muros, com questões reflexivas sobre a atual situação, são o guia para construir os argumentos que sustentam o filme. Não existem vilões e mocinhos, não há espaço para essa dicotomia. Nesse trabalho de reconhecimento das próprias falhas, cabe ao expectador entender o que está nas entrelinhas, um ponto positivo ao não subestimar a capacidade de seu público.