Quando a Netflix assumiu a responsabilidade de continuar o legado do reflexo social de Black Mirror, eu tive medo, afinal, a série é um produto muito particular e destoa, na maioria das vezes, do que tem sido produzido atualmente. Esse espectro bizarro e futurista, mas, ao mesmo tempo, com um pé na realidade, é difícil de ser alcançado com êxito. Apesar de toda a insegurança com a nova direção da série, o que encontramos nessa terceira etapa, com mais episódios que o habitual, é de qualidade equivalente as duas primeiras temporadas, mesmo com alguns deslizes sutis.

 

 

Dentro desse universo dotado de histórias que transbordam críticas ácidas e eficientes, eis que surge a nova temporada, inserindo novos personagens e situações para o cânone. Pisando sobre ovos com o primeiro episódio, Fracassado aposta nas delimitações da série, cria um diálogo bem próximo da realidade, mas não choca ou emula a sensação colisão com o mundo real. Ele ainda conta com a participação de Bryce Dallas Howard no papel principal, vivendo uma alpinista social amadora, sobrevivendo e tentando ganhar espaço num mundo em que sua reputação é medida pelas interações em redes sociais.

 

Versão de Testes é o maior tropeço, se descola da proposta inicial do programa e se enrola para contar uma história que seja interessante ao público. O episódio, dirigido por Dan Trachtenberg, o diretor de Rua Cloverfield, 10, acompanha um mochileiro que fica sem grana para as viagens e resolve participar de uma sessão de testes de um novo jogo. Com pouco carisma, o segundo capítulo é desestimulante para a série.

 

 

Mesmo diante de um cenário duvidoso devido aos escorregões na casa nova, Cala a Boca e Dança é o episódio que redime todos os erros e arrebata de volta pra si os antigos fãs, e conquista os novos. Com a premissa simples de roubo de imagens comprometedoras e de chantagem com as vítimas, a história toma proporções inimagináveis, recheada de revelações que colocam sempre o expectador em posição de surpresa. Os plot twists reservados pro fim são elementos chaves pra eleger esse capítulo como o melhor do novo ano.

 

Aqui, no quarto episódio, temos um marco para a série como um todo: uma história de amor que se sustenta, de forma muito bonita, entre as bizarrices da realidade do seriado. San Junipero surge sem grandes explicações e vai revelando aos poucos o contexto por trás dos pequenos segredos inseridos na trama. A ambientação oitentista e o casal de garotas, vividas por Mackenzie Davies e Gugu Mbatha-Raw, embalados por uma trilha sonora bem selecionada, ajudam a tornar este episódio memorável.

 

 

Engenharia Reversa é o caso da crítica, que se desloca da série e repousa sobre as questões sociais mais presentes nos últimos anos, funcionando em sua totalidade e acenando para os xenófobos. É um drama de guerra civil, que coloca em perspectiva as questões ligadas a etnia, nacionalidade e classe social. As reviravoltas, distribuídas durante todo o episódio, dão o ar de reflexo de nosso mundo nem tão distante assim daquele em tela.

 

E por último, um episódio de uma hora e meia, que faz homenagem às tramas policiais e conspirações políticas, e ainda encontra uma brecha para se apoiar nas terras-quase-sem-lei da internet. Odiados pela Nação é tenso e carregado de acontecimentos tragicamente perturbadores e que serão investigados pela dupla de detetives Karin Park (Kelly MacDonald) e Chloe Blue (Faye Marsay). Transpirando suspense, o encerramento desse ciclo ganha contornos familiares e concluí a investida dentro da nova plataforma de modo satisfatório.

 

 

Em altos e baixos, a Netflix entrega uma ótima contribuição à mitologia de Black Mirror, invocando velhas sensações, apresentando novas e sempre buscando se manter no caminho mais próximo da ideia original da série. Fica mais fácil esperar pela próxima temporada com o coração aberto aos contos que ainda virão.

 

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Trailer: