O cinema nacional acertou; o cinema sul-coreano acertou; o cinema norte americano acerta com a direção de um uruguaio; a aposta com mais cara de Hollywood errou e feio. São as quatro críticas que você confere logo abaixo:

 

aquariusNum ano conturbado no campo da política e das questões sociais, eis que o cinema brasileiro cumpre seu papel de espelho, refletindo e criando paralelos com os conflitos diários da sociedade. Tal trabalho vem de Kleber Mendonça Filho, que já havia exposto outras divergências em seu O Som ao Redor e repete de forma excelente a contribuição.

 

Aquarius é uma história de direito à resistência, história que se personifica em Clara (Sônia Braga), a jornalista aposentada, última residente do edifício que dá nome ao filme, e que tem de persistir em sua posição de recusa às propostas de compra de seu apartamento pela construtora Bonfim, nome bem irônico. É nessa obstinada odisseia que configuram-se os antagonismos sociais.

 

Clara é o brasileiro médio, é quem preza e tem zelo por sua história e todas as memórias que materializam-se nos discos, nos livros, nas fotografias e no próprio prédio. Apesar do sentimentalismo material, a vida da protagonista não gira em torno do saudosismo, ela vive de forma ativa, mas mantém acesa as miudezas que fizeram parte da sua história. A construtora e seus donos surgem então como os agentes opressores, eles insistem na imposição do novo, do moderno e ignoram os valores que não são apenas monetários. É nesses dois sujeitos que se divide as forças sociais presentes no filme e na sociedade.

 

É impressionante o que se diz que falta educação, e sempre se refere a gente pobre. Mas falta de educação não tá em gente pobre não, tá em gente rica e abastada como você. Gente de elite, que se fala de elite, que se acha privilegiada, que não pega fila. Gente como você que fez curso de Business mas não tem formação humana, não criou caráter”, diz Clara em dado momento se referindo a Diego (Humberto Carrão), neto do dono da construtora, o principal articulador das investidas, e que se sente afrontado quando não pode comprar o que não tem preço.

 

Kleber, que assina roteiro e direção, traduz a vida de Clara na fotografia que se utiliza da luz natural, na música que compõe as cenas e ajudam a contar as histórias de sua vida e nos detalhes que evocam o amor da personagem pelas particularidades.

 

Poucos são os filmes que dialogam tão naturalmente com a realidade na qual inspiram-se, menores são as chances disso acontecer sem pender para o pedantismo. Aquarius cumpre essa função e se torna um marco pro cinema nacional. Uma pena que esteja fora da corrida pelo Oscar, merecia pelo menos a indicação.

 

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buzanO nome genérico, vítima da tradução nacional, pode enganar; talvez fosse o tipo de filme que, numa locadora de verdade, fosse passar desapercebido. Temos aqui o exemplo de que os filmes com zumbis ainda podem render ótimas histórias nas telonas, do tipo que deixaria George Romero orgulhoso pra caralho.

 

O filme se passa quase todo dentro de um trem, daí o nome original Train To Busan que poderia ser adaptado literalmente aqui no Brasil. O homem de negócios Seok Woo (Yoo Gong) viaja com a filha (Soo-an Kim) para comemorar o aniversário dela com a mãe. O surto zumbi começa logo após o embarque dos dois e, por azar, temos uma infectada dentro do trem e que desencadeará a infestação da doença pelos vagões.

 

Aí temos as peças chaves do filme: os personagens. O longa não fica usando os zumbis como muletas para aplicar algum susto ou simplesmente empurrar as pessoas do vagão 9 para o 13, eles servem pra fortalecer as relações humanas, de maneiras muito diversificadas. Os acontecimentos dentro do trem servem de catalisador para evolução dos sentimentos. O trabalho todo do filme se concentra na construção de personagens com quem você simpatiza e torce para não morrer. Ele vai muito além da história dos protagonistas e deixa espaço para que os coadjuvantes também sejam bem desenvolvidos. As mortes são sentidas de verdade e você vai ficar com muita raiva de uma ou outra pessoa ali dentro.

 

As cenas de ação, mesmo que às vezes soem um pouco absurdas como personagens que dão muita porrada na galera do thriller e uma grávida que poderia correr a maratona, cativam e empolgam. O uso da câmera para acompanhar a ação e recursos como slow motion dão dinâmica no resultado final.

 

O uso de efeitos especiais não é o ponto forte do filme, mas não vai atrapalhar em nada sua experiência durante os 118 minutos. As situações desesperadoras e as características próprias dos mortos-vivos são particularidades que dão combustível pro filme prender sua atenção quando precisa. Sang-ho Yeon, que tem dez anos de carreira como diretor, um período relativamente curto, mostra que experiência nem sempre é o mais importante e acerta tom e o ritmo do longa; talvez estejamos diante de um clássico do gênero.

 

O cinema sul-coreano apresenta, mais uma vez, um resultado memorável. Invasão Zumbi é a aposta numa temática que parecia desgastada, mas que surpreende por inovar sem perder o foco.

 

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breatheO que acontece quando os Três Porquinhos resolvem invadir a casa do Lobo Mau para roubar seu dinheiro? A resposta está em O Homem Nas Trevas, novo filme do diretor uruguaio Fede Alvarez, autor de A Morte do Demônio de 2013.

 

O trabalho é fácil: há um veterano de guerra, cego e que tem muito dinheiro da indenização da morte da filha. O trio, que já cometia pequenos delitos, vai tentar a sorte grande com esse roubo, mas o que parecia ser a jogada da vida, se torna um caminho sem volta. Os três jovens, Alex (Dylan Minnette), Money (Daniel Zovatto) e Rocky (Jane Levy) precisam esconder-se, e correr quando possível, como numa brincadeira de gato e rato com o velho cego (Stephen Lang).

 

A tensão dentro da casa, depois que o assalto começa a dar errado, e o sentimento de impotência diante do cego que domina tão bem aquele ambiente, são os componentes que equilibram o filme e constroem a narrativa. As tentativas frustradas de fuga, somadas aos elementos surpresa do longa, são os pilares que projetam a produção como um sopro de ar novo para o gênero. O diretor não cai nas armadilhas de repetição de clichês conhecidos nesse tipo de terreno, ele se inspira em referências de seus antecessores, mas inova pela abordagem.

 

Vale ressaltar o uso de elementos simples, mas que fazem toda a diferença no resultado final. A atmosfera de suspense e terror se instala com o silêncio e o barulho, qualquer movimento em excesso causa o menor ruído, que se amplia e coloca os personagens em perigo. A escuridão na qual são jogados os três criminosos também é outro ingrediente indispensável a receita da fórmula de inquietação e nervosismo da história.

 

O Homem Nas Trevas comprova que terror não precisa repetir-se e que existem boas histórias a serem contadas.

 

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nerveUma sociedade que se organiza e configura suas relações, sejam elas diretas ou indiretas, dentro de uma plataforma tão ampla quanto a internet pode render um bom filme quando nas mãos certas. Todas as nuances positivas e negativas desse mundo conectado, os conflitos e a exposição excessiva das pessoas são temas relevantes. Mas não é o caso de Nerve.

 

A ideia do filme, que é dirigido por Ariel Schulman e Henry Joost, é realmente boa e capaz de criar empatia com qualquer pessoa que, por ventura, tenha assistido a um vlog ou que tenha uma rede social. O longa gira em torno de um jogo online em que os usuários são divididos entre Jogadores, que serão desafiados, e Observadores, que pagarão pelos desafios concluídos. O grande problema é que o filme se perde entre os clichês mais conhecidos de Hollywood. A protagonista é Vee (Emma Roberts), típica garota introspectiva do colegial, que resolve entrar no jogo após ser provocada pela melhor amiga e no primeiro desafio conhece Ian (Dave Franco), o jogador com cara de galã a quem se unirá.

 

Depois dos primeiros vinte minutos, as situações seguintes são bem previsíveis, é fácil imaginar quais serão os caminhos que Vee e Ian percorrerão. O roteiro não ajuda muito, existem poucas camadas a serem exploradas pelos diretores, os personagens são bidimensionais e os coadjuvantes são desinteressantes. Tem o amigo preso na friendzone (Miles Heizer), tem a amiga popular (Emily Meade), tem o interesse amoroso inalcançável (Brian ‘Sene’ Marc), esteriótipos que não acabam mais. A crítica à sociedade do espetáculo fica pela metade quando não é possível relacionar-se mais intimamente com o que está disposto em tela. Nem mesmo a fotografia bem composta de cores pulsantes ajuda a dar outra finalidade que não seja a diversão.

 

O que poderia ser um filme relevante, um exercício de auto-reflexão, com uma pegada Black Mirror light, peca por não saber o que fazer com os personagens. Ainda que perca boas oportunidades, Nerve funciona como entretenimento, não eleva a função filosófica do cinema, mas não ofende a inteligência de quem assiste.

 

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