Nenhum feitiço tirará da minha cabeça, a lembrança da estreia de Harry Potter e a Pedra Filosofal nos cinemas que, no auge da minha ignorância com o livro, achava que era uma simples cópia de O Senhor dos Anéis. Acreditem ou não, apenas fui desvendar esse maravilhoso universo após o lançamento de Prisioneiro de Azkaban, pois diante tantas críticas positivas sobre o longa, resolvi alugar o segundo filme para assistir e conhecer a série. Amor à primeira sessão, um amor que me fez devorar todos os filmes e livros como se não houvesse amanhã.

 

A despedida em Relíquias da Morte – Parte 2 envolveu uma mistura de tristeza (pelo adeus) e felicidade (pelo digno encerramento), e agora, nove anos depois, tive a oportunidade de sentir o que os fãs de Star Wars – que viveram os lançamentos da trilogia clássica – sentiram ao assistir O Despertar da Força. J. K. Rowling retorna, como roteirista, ao universo mágico de Harry Potter para expandi-lo em Animais Fantásticos e Onde Habitam.

 

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O filme acompanha o magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne a vontade com seus trejeitos) que, quando chega em uma Nova York pré-Grande Depressão, acaba trocando sua maleta lotada de animais fantásticos com o no-maj – trouxa na América – Kowalski (Dan Fogler). Resultado: várias criaturas fogem para o desespero do Ministério da Magia que, no momento, enfrenta um problema maior. A busca pelos animais é a desculpa perfeita para Rowling desenvolver uma história nova e seus personagens em uma escala menor de importância, focando no humor que a situação oferece. A roteirista dedica boa parte do tempo na interação dos personagens, a cerne de sua escrita.

 

O diretor David Yates (atrás das câmeras nas adaptações de Ordem da Fênix, Enigma do Príncipe e Relíquias da Morte) entende essa essência, e transforma a câmera em uma testemunha ao mesmo tempo maravilhada e acostumada com esse ambiente mágico. Por isso, mais importante do que as impactantes cenas de batalha, são os detalhes que tornam esse mundo tão real: máquinas de escrever datilografando sozinhas, a preparação de uma ceia, o bar dos elfos mafiosos e a incrível ambientação no interior da maleta de Scamander. Uma salva de palmas para a equipe de design de produção que fez um trabalho excelente no visual das criaturas e na construção de cenários surreais, principalmente para Colleen Atwood que caprichou no figurino. Prevejo muito fãs com um sobretudo azul na próxima Comic-Con.

 

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Sim, a diversão está garantida nas peripécias do protagonista, mas era óbvio que essa trama não seria combustível para cinco filmes. Desta maneira, a história do precursor de Voldemort, Gellert Grindelwald, ganha destaque em Animais Fantásticos, sendo o início de uma jornada até o promissor duelo com Albus Dumbledore. A presença do bruxo é potencializada pela fotografia sombria de Philippe Rousselot, criando uma atmosfera de medo e perigo, igualmente transmitida pela competente trilha sonora de James Newton Howard. Contudo, a participação de Grindelwald soa como uma repetição narrativa de Rowling, um déjà vu que poderia ser evitado. Felizmente, o antagonismo é dividido com o inspirado Colin Farrell fazendo jus a sua adição na franquia.

 

A escritora continua na abordagem de temas pertinentes, principalmente nos EUA, como a segregação e o fanatismo religioso (sem esquecer das mortes de pessoas inocentes por serem consideradas bruxas). O personagem de Ezra Miller, Credence Barebone, é a grande chave para Rowling abrir a porta de suas críticas. O bullying também é retratado, idem o seguimento de leis duras para manter as duas sociedades “em paz”. Uma delas é a pena de morte, responsável por uma das cenas mais perturbadores e angustiantes da série. Ver Tina (Katherine Waterston) prestes a ser executada, inocente, faz qualquer um refletir e repensar sobre o assunto. Merece um expelliarmus quem ainda fala que esse universo é só para crianças.

 

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Animais Fantásticos e Onde Habitam traz com segurança a bruxaria de volta aos cinemas e encaminha, com pequenos desvios, uma história promissora para os fãs se emocionarem e vibrarem por mais alguns anos. Agora me despeço ao som das marcantes e singelas notas de John Williams, enquanto aparato para o fantástico mundo de Rowling.

 

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Trailer: