2001 – Uma Odisseia no Espaço, Solaris e Contato são clássicos visualmente belos, dirigidos por verdadeiros mestres do cinema e, o mais importante, usam a ficção científica como plano de fundo para discutir e/ou refletir questões complexas, explorando a finitude humana na sétima arte. A Chegada, novo filme de Denis Villeneuve, já pode clamar seu lugar nessa seleção. Dono de uma filmografia recheada de obras primas, entre elas, Incêndios, Os Suspeitos, O Homem Duplicado e Sicario – Terra de Ninguém, Villeneuve mostra para os fãs de Blade Runner que eles podem dormir tranquilos, pois a continuação desse clássico está em excelente mãos.

 

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Adaptado por Eric Heisserer da obra Story of Your Life de Ted Chiang, o roteiro já inicia com um tapa emocional na cara do público quando é desenvolvida, em pequenas cenas, a relação da doutora Louise Banks (Amy Adams) com sua filha até o destino trágico da garota. A trilha sonora brilhante de Jóhann Jóhannsson é um tiro de misericórdia para as lágrimas enxaguarem a pipoca, repetindo o feito do colega Giacchino em UP – Altas Aventuras.

 

Depois do baque, vem uma tensão crescente por causa do aparecimento de naves alienígenas ao redor da Terra. No intuito de descobrir a real intenção delas, Banks é chamada, junto com o físico interpretado por Jeremy Renner, para trabalhar na aproximação com os aliens. A atmosfera de urgência e medo criada por Villeneuve ganha força através dos sons ambientes. Repare na confusão de ruídos quando Banks sai da Universidade após receber a notícia da “invasão”, ou na angústia dela que é retratada através da respiração acelerada, ou até mesmo no piar de um pássaro que aumenta conforme a proximidade do perigo. Cenas que não precisam de música alta para prender a atenção do público.

 

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Não apenas o som, mas todos os aspectos técnicos do filme são impecáveis, e como trabalham em favor da história é digno de uma aula de cinema. A montagem de Joe Walker, embora pareça linear, transmite uma incerteza sobre o tempo que será essencial para o clímax. Sem a necessidade de explicar os mínimos detalhes, ou enganar o público com um suspense barato, a narrativa visual – que tem vida própria pelas lentes de Bradford Young – é capaz de gerar diversas interpretações e discussões filosóficas para uma longa conversa de bar.

 

O roteiro também trabalha em terreno sociológico. Na importância da comunicação entre os povos, o diálogo como forma de união. A abordagem realista que Villeneuve escolhe para a história é um retrato bem próximo do que seria o encontro com seres extraterrestres. Banks é a responsável pela tradução da linguagem alienígena, e durante sua árdua tarefa, é interessante ver como uma simples palavra pode gerar um mal entendido e assim provocar um medo paranoico no receptor. O medo que é um sentimento enraizado na natureza humana. O medo do desconhecido, de sentir-se impotente e, principalmente, da morte. Nessa palavra tão temida por muitos é que está o coração de A Chegada.

 

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A única certeza da vida ironicamente é a morte. Não precisa ser da sua morte para sentir medo, mas de um ente querido que você daria a vida para não vê-lo partir. No entanto, a dor, o sofrimento, todos os males vindos desse momento são imperceptíveis diante do tempo. Por isso é essencial viver e aproveitar cada segundo com quem ama. Afinal, a morte é só uma questão de tempo, e o que você vive até lá, é o que realmente importa.

 

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Trailer: