Tim Burton anda passando maus bocados com seus últimos filmes. Talvez rendido nas mãos dos estúdios, tem-se preocupado pouco em agradar artisticamente o público que o acompanha desde Os Fantasmas se Divertem. A adaptação para o cinema de um livro bastante hype pode ter assustado os mais céticos que esperariam do diretor mais uma sopa com ingredientes burtonianos pobres e um bom caldo comercial. Talvez Burton tenha conseguido algo de mais valor com O Lar das Crianças Peculiares.

 

miss1

 

Essa é uma história sobre um menino pouco sociável que acaba de perder o avô de maneira traumática. Acreditando que a criatura que viu matar seu avô é fruto de um trauma sofrido pelo choque, Jake (Asa Butterfield) tenta superar e continuar sua vida sem graça. Mas um livro chega até suas mãos, junto com um cartão postal enviado recentemente pela dona de um lar onde seu avô viveu durante a infância. Jake é levado a descobrir as curiosas histórias fantásticas que o avô sempre contou numa corda bamba entre o ceticismo e a crença.

 

Chegando ao País de Gales, Jack descobre uma fenda no tempo com a real localização do lar. Toda a fantasia das histórias do avô é confirmada pelos Peculiares, crianças com dons especiais que habitam o orfanato de Alma Peregrine (Eva Green), a mantenedora do local. Numa mistura de fantasia e realismo, trazidos pelo terror nazista, a trama se desenvolve.

 

miss2

 

Os trejeitos de mão de Samuel L. Jackson como Barron, a postura de Eva Green e os vacilos de Asa Butterfield denunciam o trabalho característico de Burton – um goticismo caricato que funciona. A fotografia do brasileiro Bruno Delbonnel, bastante escura, desliza para o claro e causa alívio para as cenas mais tensas, diferente de Os Fantasmas se Divertem e Edward Mãos de Tesoura. A trilha sonora passa quase despercebida. Talvez um dos maiores erros do longa foi a confusão nas explicações dos acontecimentos, o que poderia ser corrigido com pequenos cortes no roteiro. O começo, bastante explicativo, ocupa boa parte do filme, e o final, com muitos acontecimentos corre para se desenrolar por inteiro. Por isso, não se pode dizer que ficou totalmente costurado. O casal da trama Emma (Ella Purnell) e Jake provavelmente não inspiram os telespectadores, diferente do que acontece no livro, onde existe certa curiosidade por Emma ter se aproximado de Jake, devido a uma antiga paixão pelo avô do garoto.

 

miss3

 

É bastante claro que mesmo com cenas pesadas para crianças, como a da reunião dos vilões banqueteando-se com olhos, a das caveiras em um salão de jantar ou a dos bonecos mórbidos que ganham vida com corações de ratos, mesmo assim, Burton preferiu optar por algo mais leve. Embora comercialmente não seria interessante que melancolia e terror fossem os principais ingredientes de sua obra, pode-se dizer que o diretor melhorou desde o terrível Sombras da Noite. E talvez, trabalhando no mesmo ritmo recupere o seu estranho trono. Ainda que o “estranho”, insuspeitamente, valha alguns milhões de dólares.

 

03-bom

 

Trailer: