handmaidenQue o cinema sul-coreano rendeu bons frutos nos últimos anos não há dúvidas, mas quando se trata de The Handmaiden estamos falando de uma obra-prima da sétima arte. Chan-wook Park já se consagrou entre as referências do cinema contemporâneo, principalmente por sua assinatura visual, mas em seu último trabalho ele reafirma sua importância para a arte, renovando suas contribuições.

 

O filme se ambienta durante os anos 30, durante a ocupação japonesa na Coreia do Sul. Sookee, interpretada por Kim Tae-ri, é uma jovem pobre que aceita participar do plano de Fujiwara (Jung-woo Ha), um vigarista que planeja seduzir e casar-se com a descendente nipônica Hideko (Min-hee Kim), para jogá-la num hospício e ficar com sua herança.

 

O golpe é perfeito, não existem pontas soltas e o trabalho de Sookee não exige muito: ela precisa cuidar de Hideko e convencê-la a aceitar a proposta de seu pretendente. O grande problema aqui é que as duas garotas aproximam-se, apaixonam-se e isso compromete todo o plano. Park usa a câmera para explorar os laços criados entre as duas, expressando minunciosamente os sentidos; os momentos de desejo e prazer são ampliados e ganham força, dificilmente o espectador não compartilhará das sensações vivenciadas de maneira intensa entre as personagens. Lábios, olhos, mãos, a pele sensível ao toque, nada foge ao olhar cirúrgico do diretor; o ciúme, a insegurança, a raiva e o ódio também irradiam da tela. Do mesmo modo, ele utiliza a fotografia e as cores para reafirmar os conceitos contrastantes, enquanto o interior da casa de Hideko é escuro e pouco receptivo, a garota vive enclausurada, mas do lado exterior as cores transbordam em todas formas e direções.

 

Há reviravoltas na trama, com momentos de pura tensão. Não se engane nem por um segundo, nada do que está disposto em tela chegará ao final dos 144 minutos da forma como foi apresentado. Trabalhando numa narrativa não linear e utilizando-se de pontos de vistas diferentes para contar a mesma história, o diretor divaga entre o presente e o passado acertadamente, encaixando todas as peças necessárias para fazer funcionar seu thriller.

 

Ainda há espaço para a crítica, em seu subtexto acha-se, para além do amor, a revolta contra os agentes opressores e suas representações simbólicas. Quando subsiste a externalização da rebeldia, a repulsa ao autoritário se realiza no ato violento, destruindo o que lhe é mais caro e lhe destituindo do poder.

 

A entrega das atrizes aos seus respectivos papéis tornam a história plausível, as atuações encontram o melhor desempenho no equilíbrio e química entre as duas. Para além disso, elas geram empatia no público.

 

Fugindo da temática violenta, Chan-wook Park mostra que sabe ser versátil ao entregar um filme que explora ótimas reviravoltas, mas também cria raízes nas emoções. É a constatação de duas verdades absolutas: o cinema contemporâneo ainda produz obras de arte e a Coreia faz parte do panteão das nações com diretores mais importantes da atualidade.

 

06-atemporal


maeEm Mãe Só Há Uma os conflitos silenciosos de classes sociais que permeiam o Brasil, junto de suas singularidades, e a inadequação aos padrões estabelecidos encontram um terreno fértil sob o roteiro e direção de Anna Muylaerte. A diretora do aclamado Que Horas Ela Volta?, que chegou muito perto de uma indicação ao Oscar no ano passado, retorna ao campo da crítica social em seu novo longa.

 

Inspirando-se livremente no caso Pedrinho, o bebê roubado da maternidade e que só descobriu e encontrou sua família aos 16 anos, Anna cria sua trama em volta de Pierre (Naomi Nero), trabalhando sobre os conflitos que permeiam sua vida.

 

Pierre é um garoto do subúrbio que vive com a mãe e a irmã mais nova. Suas características andrógenas, o corpo esguio e que se aproxima das formas femininas, denunciam o rompimento com o padrão normativo aceito. Descobrindo sobre sua sexualidade, ele se relaciona com garotas e garotos, usa lingerie e batom nos momentos íntimos. A vida descompromissada e vivida de maneira livre é interrompida de forma abrupta; sua mãe é presa e ele é empurrado para sua nova família.

 

As cisões se dão pela desarmonia das realidades: enquanto Pierre provém de uma classe mais baixa, seus pais são parte da classe média. Existe em sua nova casa o zelo pelos padrões e isso é personificado em seu irmão mais novo, vivido por Daniel Botelho, o pré-adolescente que busca aceitação dentro de suas relações próprias sociais. O pai, interpretado por Matheus Nachtergaele, quer saber sobre o time que o filho torce, se sua banda toca rock e o que ele “quer fazer da vida”, como num check-list dos requisitos para ser parte da família; a mãe, vivida por Daniela Nefussi, insiste em colocar em ordem seu guarda-roupas, transgredindo seu, limitado, espaço privado na nova casa. Muylaerte alcança o êxito em seu trabalho ao abordar temas sensíveis com um subtexto que não pende para a panfletagem, preconceito ou o discurso raso. Ao colocar em atrito Pierre e seus pais, Anna evidencia o olhar de resistência aos enquadramentos impostos pela sociedade, mas também dispõe em tela as dificuldades de conciliação entre estratos sociais tão distintos em sua configuração, mas próximos em sua genealogia.

 

Partindo de enquadramentos e planos que transmitem a sensação de inquietação e acanhamento nas cenas de desacordo, a diretora paulistana entrega um filme tão importante quanto Que Horas Ela Volta?, mas superior em técnica e conteúdo.

 

04-otimo


julietaAs relações entre mãe e filha e a repetição das histórias, oriundas dos acasos da vida, são tecidas de forma coesa e poética no novo filme de Pedro Almodóvar. O diretor espanhol ingressa mais uma vez no universo feminino e entrega um de seus trabalhos mais delicados.

 

Julieta (Adrina Ugarte/Emma Suárez) é uma mulher de meia idade que está prestes a mudar-se para Portugal mas desiste de última hora da viagem ao receber notícias de Antía, (Priscilla Delgado/Bianca Parés) sua filha. Isso é tudo que você precisa saber para assistir ao filme, o restante fica a cargo de Almodóvar, que guiará o público pelas histórias que circundam as duas personagens e o mistério sobre seus vínculos.

 

A história que nos é contada surge em tela com muitas incógnitas, sabemos que existe um problema dentro do elo maternal, mas não conhecemos suas causas. O impacto da notícia sobre a filha e o comportamento melancólico e depressivo de Julieta após a novidade atiçam a curiosidade. Os detalhes do filme, presente em objetos, denunciam a fragilizada e corrompida relação de mãe e filha, que se alinha aos poucos e revela os impasses; a fotografia das duas inicialmente rasgada em diversos pedaços, disposta de forma aleatória sobre a mesa, reaparece ao final remendada, como num quebra-cabeças. Transitando entre o presente e o passado, o diretor vai tornando a história menos opaca de maneira gradual, acompanhando a personagem em seu relato autobiográfico e avivando as memórias entorpecidas involuntariamente, como escape para continuar vivendo.

 

A narração da vida se repete de maneira irônica, o que acomete Julieta em seu relacionamento amoroso se reconfigura e acontece a seus pais, para mais tarde, num novo arranjo, atingir sua filha que está distante. Aqui o tempo parece punir os atos passados, mesmo quando a culpa é autoimposta.

 

Com sua paleta de cores vivas e trilha sonora penetrante, Almodóvar traz para o cinema uma nova releitura dos vínculos no campo feminino e das características particulares da maternidade.

 

04-otimo


swissOs diretores Dan Kwan e Daniel Scheinert optaram pelo surrealismo para tratar da importância da vida e dos prejuízos das restrições que impomos a nós mesmos, tudo de maneira cômica e sensível.

 

Em uma ilha deserta qualquer, Hank (Paul Dano), está preso após o naufrágio de seu barco. Prestes a cometer suicídio, ele enxerga ao longe um corpo, e na expectativa de ter encontrado outra pessoa, corre em sua direção, mas se depara com alguém já sem vida. A morte é a porta de entrada para o surreal na trama. Após conseguir escapar da ilha com o auxílio do cadáver, utilizando-o como jet-ski, Hank passa a levá-lo junto consigo.

 

A história, que ignora a realidade na fuga da ilha, extrapola qualquer limite de racionalidade ou lógica quando o morto volta a vida: ele fala e é extremamente curioso sobre o mundo que provavelmente já esqueceu. Daniel Radicliffe é Manny, o homem-morto que se torna instrumento de salvação para Hank, que se encarrega de ensinar sobre o mundo, revistas, mulheres, Jurassic Park, ônibus, masturbação, e suas relações para o novo amigo que voltou a vida.

 

O exagero, que torna a situação engraçada, cria brechas para tratar dos traumas de Hank: o rapaz é melancólico, tem baixa autoestima e nutre dificuldades de relacionar-se até mesmo com seu pai. Estranhamente, é com Manny que os laços são criados, a amizade bizarra é fruto da cumplicidade entre os rapazes. Enquanto um ensina sobre as coisas bonitas do mundo, mesmo que as tenha evitado por medo, o outro aprende e também ensina, mesmo que de forma inocente e desproposital, sobre a real importância de viver. A morte e o renascimento são introduzidos de duas maneiras: a literal, com o cadáver, e a simbólica, com Hank, que deixa seus medos drenarem sua vontade de viver.

 

A trilha sonora é um ponto crucial no filme, ela ajuda a compôr as situações, mas também se encarrega de contar sobre o estado de espírito dos personagens. A fotografia aproveita a ambientação e torna o visual mais um atrativo para o filme, que mesmo utilizando de efeitos especiais pouco elaborados, não perde o encanto.

 

O amor, a amizade e a vida como um todo são celebrados nesse longa de forma incomum, mas, ainda assim, usufruindo de discursos que o tornam único. As risadas e as lágrimas são garantidas, até mesmo se você for um cadáver.

 

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