Clube da Luta é muito conhecido por seu plot-twist, quando é revelado que o Narrador também é Tyler Durden. As piadas envolvendo Edward Norton e Brad Pitt não cessam até hoje. No entanto, a obra escrita por Chuck Palahniuk, e posteriormente dirigida por David Fincher, é uma crítica à sociedade de consumo, onde pessoas viram escravos do que consomem, criando uma vazio existencial dentro delas. No caso do filme, a violência é a solução para preencher esse vazio e dar um sentido para a vida. A série criada por Sam Esmail, Mr. Robot, segue a mesma lógica, trocando a violência pela Internet. Se Tyler construiu uma mundo novo com bombas e muita porrada, Elliot Alderson (Rami Malek) usa o computador para atingir o mesmo objetivo, trazendo a ideia de Palahniuk para os tempos de Anonymous.

 

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Para quem já viu Clube da Luta, a surpresa da primeira temporada foi apenas uma passada de cartão, pois o que encanta mesmo em Mr. Robot é a atmosfera hipnótica construída por Esmail. O diretor gosta de deslocar os personagens para o canto de um plano, mostrando como o ambiente que estão inseridos os dominam. A fotografia opaca de Tod Campbell, principalmente na Evil Corp, revela a frieza daquele mundo obcecado pelo poder, enquanto a escuridão abraça os invisíveis, como Elliot e a Dark Army. A trilha sonora desconcertante de Mac Quayle deixa um bug no cérebro do público sobre a veracidade do que se está vendo e/ou ouvindo, a palavra fuck censurada é a cereja do bolo. Tudo é perfeitamente programado para transmitir o caos existente dentro da cabeça de Elliot, a linha entre o imaginário e o real faz parte do mesmo código binário.

 

plot-twist da segunda temporada só prova a eficiência desta atmosfera surreal, mostrando que você (o amigo imaginário de Elliot) sabe muito menos do que o próprio protagonista. Com certeza muita gente vai rever essa temporada para pegar todas as pistas perdidas, e assim ter a oportunidade de assistir uma nova série. Para quem achou que a grande virada da história seria o mistério em torno de Tyrell Wellick (Martin Wallström), enganou-se. Contudo, a trama do desaparecido empresário não deixa de ser menos interessante por isso, levando a paranoia de Elliot ao limite.

 

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Se a primeira temporada trouxe a tona quem é Mr. Robot (Christian Slater), a segunda desenvolve melhor a relação dele com Elliot. O protagonista vai do céu ao inferno para perceber o quanto Mr. Robot faz parte dele, e quem é o seu verdadeiro “eu”. A atuação de Malek é digna do Emmy que ganhou recentemente. Slater não fica atrás, com um personagem complexo que provoca compaixão e ódio dependente das intenções.

 

Entre os núcleos secundários, Darlene (Carly Chaikin) entra em um caminho sem volta para dar algum sentido no ataque que derrubou o sistema econômico norte-americano, e como os bastidores de uma revolução podem ser cruéis. Se elogiei a mise-en-scène de Esmail no segundo parágrafo, também preciso falar que, exagerada, prejudica o ritmo da série. Em diversos momentos, os personagens parecem estar anestesiados, em câmera lenta, com uma enorme dificuldade de agir. Muito disso por causa de um capricho estético. Angela (Portia Doubleday) é empurrada até o final quando, finalmente, parece encontrar um propósito na trama. Em um episódio ela é contra o sistema, depois quer fazer parte disso, depois é contra de novo quando é conveniente para a história, mas não demora muito para exigir sua volta. Todo o embólio dela com Phillip Price (Michael Cristofer) é deletável.

 

 

O ritmo melhora graças ao FBI, liderado por Dominique DiPierro (Grace Gummer), e a Dark Army, com Whiterose (BD Wong) ganhando mais destaque. Enquanto o FBI vai recolhendo os restos deixados pela Dark Army, o grupo terrorista é responsável por cenas impactantes e realistas de violência. Um acontecimento crucial no penúltimo episódio mostra o domínio de Esmail nas cenas de ação. Um simples plano estático é o suficiente para criar uma memorável sequência. Chupa Michael Bay.

 

Nesta segunda temporada, Mr. Robot mantém o público no escuro sobre as reais intenções de Elliot (se nem ele sabe, imagina nós), mas entrega uma experiência angustiante pela mente do protagonista, tendo a ilusão como uma maneira confortável de ver a realidade. O momento sitcon da série é genial, lembrando do clássico Assassinos Por Natureza, porém não se permite ser engraçado devido a tensão do contexto. Uma tensão que permeia a série, prometendo explodir de vez na terceira temporada. Junto com minha cabeça.

 

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Trailer: