Ninguém vence nada; vencer é uma ilusão, isso é certo.” (Smith, Linha M).

 

Patti Smith é mais que multifacetada. Ela compreende a si mesma de forma tão particular que alça o geral. Ser artista em diversos âmbitos não é comum e nem fácil, mas ser artista com tanta verdade é ainda mais admirável.

 

Linha M é um livro sobre memórias. Diferente do aclamado Só Garotos, as memórias tratadas nesse livro não são somente da vida jovem de Smith e Mapplethorp. Trarão mais os pensamentos dessa mulher madura e outras pequenas memórias sobre o seu passado, como a morte do irmão e o relacionamento com o marido, Fred Smith.

 

Patti Smith photographed in the Amtrak departure lounge at Penn Station, New York City, 8/27/2015

 

Anotações em um caderninho deram origem ao livro, talvez por isso a escrita fluida e os diversos relatos sobre seu dia a dia. Pensamentos sobre seu Café preferido, seus hábitos alimentares, o relacionamento com os gatos. E algo bastante curioso, sua quase obsessão por séries policiais, em particular The Killing. E ainda sobre os sentimentos que nutre pelos livros. A lista de escritores é longa, entre eles Plath, Murakami, Bolaño e Genette. O livro também trará algumas fotografias tiradas com uma Polaroid, outra das diversas atividades de Smith.

 

Algumas viagens também serão relembradas, e para citar uma de suas pequenas aventuras, Smith se apaixona por uma casinha bastante deteriorada no litoral, perto de Rockaway Beach. Obstinada a comprar a pequena propriedade, ela embarca em diversas viagens para dar palestras e assim conseguir o dinheiro necessário. Após a compra, o local sofre com o terrível furacão Sandy, em 2012. Estranhamente, sua casinha, a mais simples da rua é uma das únicas que ficam em pé.

 

 

Nada pretensioso, chegando até a ser simples, Linha M nos provoca uma miríade de sentimentos… nostalgia, paz, tristeza. Encontrar-se, estabelecer-se no mundo, superar a morte e a distância. Pensamentos e ações puramente mundanas, mas implacáveis. Sim, Linha M, assim como Patti Smith são simples, mas avassaladores.

 

Desejamos coisas que não podemos ter. Tentamos conservar certos momentos, sons, sensações. Quero ouvir a voz de minha mãe. Quero ver meus filhos ainda crianças. Mãozinhas pequenas, pés ligeiros. Tudo muda. Garoto crescido, pai morto, filha mais alta que eu, chorando por causa de um sonho ruim. Por favor, fiquem aqui para sempre, digo para as coisas. Não vão embora. Não cresçam.” (Smith, Linha M).

 

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