A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum.

 

William Shakespeare

 

Talvez o som e a fúria de Sandman seja a mistura elaborada das ricas referências que o constituem. Essa série, que começou na década de 80, durou sete anos e reúne mais de setenta edições. As edições definitivas que reúnem todas as revistas chegaram ao Brasil num total de quatro volumes somente em 2010.

 

Essa longa narrativa é a história de Sonho, um dos sete perpétuos. Sonho é uma criatura antropomorfizada que controla o reino do sonhar, lugar para onde vamos quando estamos dormindo. É realmente impressionante a quantidade de coisas que podem acontecer nessa terra e como os seres humanos conseguem muitas vezes transgredir a ordem de algo tão impenetrável.

 

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A primeira história da série é sobre o aprisionamento de Sonho. Ele passa décadas preso por uma seita e o seu reinar abandonado fica à mercê de aproveitadores. Quando finalmente consegue libertar-se, precisará instaurar novamente a ordem na própria casa. Essas histórias fascinantes não rondaram só a jornada de Sonho, mas também de seus outros irmãos, os perpétuos: Destino, Morte, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. Os perpétuos não são uma família de deuses, são entidades que estão acima de qualquer deus ou instituição já conhecida. São eles que equilibram o universo através de seus deveres, e assim, até mesmo a vida dos humanos depende do trabalho de cada um dos perpétuos.

 

A linha mágica que costura toda essa narrativa são as referências que o autor, Neil Gaiman, usou (provavelmente com uma agulha de ouro) para que Sandman fosse tão rico. São muitas as influências da série, mitologia grega, mitologia oriental, mitologia nórdica, literatura clássica, lendas, cultura pop, religião e etc. Uma das primeiras desse círculo é história de Nada, uma personagem de um antigo mito africano, contado oralmente e passado de geração em geração. Nada é a rainha de uma cidade onde iniciou-se a história da humanidade. Sonho e a rainha apaixonam-se, mas é um amor proibido – um perpétuo não pode ter relações com uma mortal.

 

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No que se refere à literatura clássica, o inferno dantesco não fugirá aos olhos dos mais atentos. Em uma de suas visitas ao inferno, veremos que Sonho passa pelo Bosque dos Suicidas, território presente em uma das três partes da famosa A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Outra referência, essa talvez mais presente em todo o ciclo da história é a figura de Shakespeare. Logo no início da trama, o bardo faz um pacto com Sonho. O acordo fechado é de que o escritor terá o dom da escrita aperfeiçoado com a condição que entregue duas peças para Sonho. Sonhos de Uma Noite de Verão é a primeira peça a ser entregue, e A Tempestade a segunda e última. Dizem que essa também foi a última peça que Shakespeare escreveu. É curioso que não foram escolhidas em vão, Gaiman preocupou-se em selecionar obras que conversariam com o que estaria se passando na própria história de Sandman, inclusive as peças se confundem com a história e tudo forma uma grande ode à literatura.

 

Os seres mitológicos também rodearam bastante as histórias de Sandman. O próprio filho de Sonho é Orfeu, que na mitologia grega é poeta e médico. Na história A Canção Para Orfeu será contada a triste história de Orfeu e Eurídice, um amor impossível.

 

Dois personagens também bastantes presentes na vida de Sonho são figuras bíblicas muito conhecidas, Caim e Abel, os filhos do casal mais antigo da humanidade. Segundo o livro sagrado, por inveja, Caim assassina o irmão. Esse seria o primeiro homicídio da história da humanidade. Curiosamente, em Sandman, Caim matará Abel em quase todas as histórias que fizeram parte.

 

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Essas são apenas algumas de todas as referências de Sandman. A virtude dessa obra, como dito anteriormente, talvez sejam tantas histórias dentro de uma só. Com a obra, você não chega só a outros livros, você chega a civilizações, religiões e épocas. Gaiman provavelmente preocupou-se em mostrar a beleza de se contar uma história sobre os mais diversos pontos de vista; com o olhar de muitas outras culturas. E é através desse olhar que se chega a uma máxima comum: os seres, principalmente os essencialmente humanos, apesar de todas as diferenças, no fim das contas, sentem, choram, sofrem e amam da mesma maneira.

 

Uma história em quadrinhos nunca foi considerada um clássico. Segundo Calvino, os clássicos são “aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).” Não vejo o motivo de não colocar Sandman nesse cânone.

 

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Bônus:

 

O castelo do Sonhar

 

Dentro da toda esfera das histórias de Sandman, Morpheus, o rei do sonhar tem sua própria morada. Quando não está resolvendo problemas terrenos ou em outros reinos, é em seu próprio reino que descansa e controla os sonhos de todas as pessoas. Para administrar todo esse território, Sandman tem o apoio de vários ajudantes. Dentre essas criaturas estão figuras bíblicas, mitológicas e ressuscitações de personagens de outros quadrinhos.

 

Nessa lista estão provavelmente todos os habitantes do reino do Sonhar e algumas de suas características, funções e origem de suas criações. Importante lembrar que outros personagens habitaram o reino, mas não de maneira definitiva e com funções permanentes.

 

Sandman/Morpheus

 

Também é conhecido como Sonho, Morpheus, Oneiros, Moldador, Kai’Ckul e Senhor do Sonho.

 

É um integrante da família dos sete perpétuos e a posição máxima do sonhar é de Sandman. Sendo Sandman o próprio reino e o reino o próprio Sandman, não há dúvidas da relação de causa-efeito que um pode causar no outro. Ele controla tudo que acontece dentro de seu reinado e todos que ali habitam respeitam suas decisões. Embora muitos dos próprios moradores quase nunca saibam o que se passa na cabeça do rei e tenham bastante medo dessa figura esguia e melancólica.

 

Mesmo com muitos poderes, o taciturno personagem se encontra em problemas próximos aos dos seres humanos, como um amor não correspondido. A figura mais próxima de Morpheus é sua irmã mais velha, Morte.

 

O próprio Sandman é um personagem ressuscitado de antigos quadrinhos. Ele foi completamente redesenhado pelo escritor Neil Gaiman e o desenhista Sam Kieth. Tem também como influência uma certa lenda que circula em vários pontos do mundo sobre uma criatura que joga areia nos olhos das pessoas para que durmam. Além disso, há especulações que sua aparência teve como influência a figura do músico Robert Smith, da banda The Cure.

 

Você comparece ao funeral, e dá adeus ao morto. Você fica aflito. Então continua sua vida. E às vezes, o fato da sua falta vai te acertar como um soco no peito, e você irá chorar. E isso vai acontecer cada vez menos com o passar do tempo. Ela está morta e você vivo. Então viva.

 

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Lucien

 

Lucien é fascinante por ser o bibliotecário do castelo do sonhar. Sonhos são catalogados em forma de livro e Lucien conhece todo o seu acervo. É muito interessante pensar quanto os sonhos podem dar bons roteiros para livros, e Lucien sabe muito bem disso.

 

A Biblioteca de Sonhos é a maior que já existiu. Estou certo de que todos os seus livros estão aqui. Como? Você não escreveu livro nenhum? Claro que escreveu. Eis um deles. Chama-se “O Best-Seller de Espionagem e Romance no qual eu pensava no ônibus e que venderia um bilhão de cópias me livrando do trabalho para sempre.” Não é um título dos mais atraentes, certo?

 

Matthew

 

O secretário do senhor dos sonhos não poderia ser muito convencional. Um corvo com nostalgias humanas. Não conhece muito bem seu “chefe”, mas tem profunda admiração por ele. Matthew é um dos principais personagens do castelo.

 

Às vezes quando você cai, você voa.

 

Caim

 

Caim é uma figura esguia, inteligente, sarcástica e claro, perturbadora. Aos poucos a empatia por ele cresce de tal maneira que ele se torna um dos personagens mais queridos desse castelo. Além de matar seu irmão muitas vezes, sua principal função dentro do castelo é a de anfitrião.

 

Sua origem é bíblica e a história de Caim e Abel é narrada no livro de Gênesis. É um personagem de 1968 da DC Comics. Sua primeira aparição não é nas histórias de Sandman.

 

Vou contar um segredo. Um corvo criou o mundo. Quando Noé o mandou em busca de terra firme, ele não achou nada. Estava tudo inundado. Então, ele a criou. Cagou a terra firme e mijou a água fresca. E saiu voando morrendo de rir. Foi esse o mundo que o pombo encontrou.

 

Abel

 

Irmão de Caim e o oposto do irmão. Piedoso, inseguro, gago e gordo. Sofrerá para sempre nas mãos do irmão. Também tem função de anfitrião.

 

Gregory

 

Uma das gárgulas do Sonhar, pertence a Caim.

 

Goldie

 

Uma gárgula filhote, pertence a Abel.

 

Meep.

 

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Verde do violinista

 

Tudo nesse personagem é encantador, começando pelo seu nome. Também conhecido como Gilbert, ele é um sonho. Mas um sonho bom, daqueles que as pessoas têm e não querem acordar. Em um momento da história foge do reino para viver entre os humanos.

 

Coríntio

 

Coríntio talvez seja a figura mais assustadora desse reino. É um pesadelo dos mais cruéis. Os óculos escuros que usa constantemente servem para esconder as bocas que ficam no lugar de seus olhos. Assim como Verde do violinista, foge por um período do sonhar para viver entre os humanos. É claro que acaba matando algumas pessoas.

 

 

Um espantalho cabeça de abóbora fofoqueiro e inconveniente. Vive sendo flagrado por Sandman fazendo fofoca com os outros moradores. Um alívio cômico para toda a trama.

 

Eva

 

Vive em uma caverna dentro do reino do sonhar. Aparece poucas vezes e um dos poucos que se comunica com ela é Matthew, o corvo. Os outros personagens tem medo da personagem, bastante misteriosa e aparentemente uma bruxa.

 

Essa Eva é a mesma Eva de Adão, figura bíblica que comeu a maçã condenada.

Guardiões do castelo

 

Um hipogrifo, um dragão alado e um grifo são os guardiões do castelo do Sonhar. Suas forças advém de Morpheus, o senhor dos sonhos.

 

São figuras mitológicas e muitas vezes fazem parte das lendas gregas.