Em 2002, A Identidade Bourne veio para mudar os filmes de ação que, deste então, tinham no protagonismo “brucutus” que matavam exércitos com armas de munição infinita. Sim, Duro de Matar foi um avanço para o gênero, fazendo a jornada do herói ser mais difícil e sofrida, porém, só mesmo com Bourne ela ganhou um pé no realismo e uma tensão no ritmo que influenciou toda uma geração, como 007 de Daniel Craig e Busca Implacável com Liam Neeson. Perseguições, mistério e, principalmente, muita luta corpo a corpo – colocar pra dormir um capanga não basta mais batê-lo na nuca -,  definiram a trilogia Bourne, que após nove anos, ganha sua continuação direta com Jason Bourne, trazendo de volta a dupla Matt Damon e Paul Greengrass (diretor de Supremacia e Ultimato).

 

JB1

 

A estrutura do roteiro continua a mesma da trilogia: Bourne arrebentando ossos e destruindo cidades para desvendar um passado obscuro, enquanto é cassado por outro assassino (Vincent Cassel) a mando do governo. Não há problema nenhum em manter a fórmula, Missão Impossível está aí para provar isso. O grande problema é a falta de empenho e ambição dos roteiristas Greengrass e Christopher Rouse na renovação do personagem, no objetivo de movê-lo adiante, em vez de ficar vasculhando o seu passado. Era a hora perfeita para algo inédito na franquia.

 

Sem arriscar nada, a primeira grande sequência de ação repete o principal acontecimento de A Supremacia Bourne, Tommy Lee Jones e Alicia Vikander estão nos batidos papéis de, respectivamente, antagonista e a companheira feminina de Bourne, fora que o novo flashback misterioso é digno de O Espetacular Homem-Aranha, em que o problema do protagonista está enraizado na família. Tomara que no próximo filme ele não recorde que seu tataravô matou Kennedy. Seria injusto, porém, não falar que o roteiro se preocupa com os acontecimentos atuais do mundo. Embora o subtemas não sejam aprofundados, como a vigilância do governo e a falta de privacidade, eles servem de contextualização de época, e sobra até para a relação conflituosa de Mark Zuckerberg com a segurança pública, neste caso, a norte-americana.

 

JB2

 

Exceto por este déjà vu que é a história, Jason Bourne continua com a excepcional qualidade de um filme de ação. A câmera de Greengrass não para por um minuto, até em uma simples mensagem de celular, ele precisa de alguns segundos extras para a câmera estabilizar-se. No entanto, é um estilo que entrega a urgência necessária para este tipo de suspense político, idem Voo United 93 e Capitão Phillips. Na maioria das cenas, a sensação é de estar presenciando tudo ao vivo, pondo o público mais perto da ação. Além de ser um desafio enorme para o editor Rouse que, no meio de uma aparente bagunça de planos (alguns momentos é mesmo), consegue entregar uma continuidade compreensível ao filme.

 

Matt Damon demonstra a mesma disposição dos filmes anteriores, deste a porradaria – incrível como ator passa segurança e impõe uma força ao personagem – até nas perseguições, como no clímax que envolve uma destruição em massa de carros. Outro ponto positivo de Greengrass, que usa bem o orçamento da produção nos efeitos práticos, aumentando o impacto das cenas pelo choque do realismo, em vez de deixar tudo para o CGI. Assistir os bastidores de um filme do diretor é diversão garantida.

 

JB3

 

O quarto filme da série (por favor, ignorem aquela coisa com Jeremy Renner), Jason Bourne, entrega o básico e joga seguro para uma mudança significativa só nos próximos filmes. Quem sabe uma trilogia nova em que ele pare de sofrer as consequências do passado e comece a focar nos problemas contemporâneos, mas sem deixar, é claro, de quebrar a cara dos inimigos com canetas, revistas ou panelas.

 

03-bom

 

Trailer: