WarcraftEm poucos minutos de Warcraft – O Encontro de Dois Mundos, uma imensidão de informações é jogada na tela, e quando o primeiro ato termina, já se conhece grande parte dos personagens, cenários, motivações, sem que nada disso seja desenvolvido propriamente.

 

Duncan Jones (do excelente Lunar) e Charles Leavitt, talvez no receio do público não interessar-se por este vasto universo já conhecido pelos fãs do jogo, escreveram um roteiro inchado que preza pelo externo (ações) e negligencia o interno (emoções), principalmente no que se refere aos personagens. As cenas dramáticas, em vez de provocar emoção, apenas resulta indiferença. É claro que com o fraco Travis Fimmel no papel de Anduin Lothar (um erro de casting que pode custar caro nos próximos filmes), não ajuda, sendo incapaz de expressar sofrimento em cenas cruciais.

 

No entanto, quando o filme foca nos núcleos que interessam, revela seu potencial. Os Orcs e os magos são os destaques, liderados respectivamente pelos ótimos Durotan (Toby Kebbell) e Khadgar (Ben Schnetzer), entregando uma perspectiva diferente dos filmes de fantasia, que nada lembra O Senhor dos Anéis. O bem e o mal são contrastados nos dois lados, a fotografia de Simon Duggan sempre clara, as armaduras limpas e coloridas, Ramin Djawadi provando – mais uma vez depois de Game of Thrones e Círculo de Fogo – que é um dos principais compositores da atualidade, e uma direção segura de Jones nas cenas de batalha, violentas na medida certa. A luta de Durotan contra Gul’dan (Daniel Wu) é de prender a respiração, em que fica claro o trabalho excepcional da Weta Workshop na modelagem dos Orcs, mesmo que deva em outras aspectos, como nos lobos.

 

Não há como negar que Warcraft – O Encontro de Dois Mundos é um bom primeiro passo para a retomada das adaptações de games, e torço bastante que as continuações (o filme é pensado em uma trilogia) sejam confirmadas, pois a história completa tem tudo para dar aos Orcs uma nova chance a luz do sol, ou da magia.

 

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BFGQuando era adolescente e ia para locadora alugar um filme, o nome de um grande diretor bastava para saber que a obra era boa. Nem precisa saber qual era o título, tudo que precisava ouvir ou ler na capa era alguém como Steven Spielberg. Como uma pessoa, responsável por clássicos como Indiana Jones, Tubarão e Contatos Imediatos de Terceiro Grau, poderia fazer algo ruim? Se fosse hoje, com certeza pensaria duas vezes antes de alugar um filme dele.

 

Nos últimos anos, Spielberg se resume à melodramas históricos e entretenimentos esquecíveis, exceto por As Aventuras de TinTim. Agora, em parceria com a Disney, apresenta um dos piores trabalhos da carreira: O Bom Gigante Amigo.

 

Ao lado da roteirista Melissa Mathison (pasmem, a mesma de E.T. – O Extraterrestre) e do recente vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante Mark Rylance – que justiça seja feita, leva o filme nas costas – no papel do gigante, o diretor volta à fantasia para entregar uma história preguiçosa e sem rumo. Adaptação da obra de Roald Dahl (Matilda, A Fantástica Fábrica de Chocolate), a trama começa quando a orfã Sophie (Ruby Barnhill) é raptada pelo gigante do título, e em poucos minutos, os dois já viram amigos inseparáveis, dando ao gigante a missão de protegê-la dos outros da espécie que são carnívoros. Porém os antagonistas de tão estúpidos e atrapalhados, não representam nenhum perigo. Algo que fica claro no sonso clímax, e que faria inveja aos vilões de filmes de animais falantes.

 

Spielberg não sabe o que quer com BGA, tem até uma mensagem sobre sonhos jogada ali no meio, mas se perde no meio de um drama forçado, como na desnecessária cena em que eles separam-se ou no sofrível núcleo da rainha, além de um humor pobre, que fica pior quando o diretor dedica um bom tempo para fazer piada com a simplicidade do gigante, e depois encerra a cena com um festival de peidos. Fiquei pensando se não era uma “comédia” de Eddie Murphy ou Adam Sandler. A triste realidade mostra que é o atual Spielberg.

 

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Os filmes policiais, entre eles os mais divertidos, tem na química da dupla principal seu grande trunfo. Se tem alguém que entende disso, esse alguém é Shane Black, roteirista de Máquina Mortífera e de Beijos e Tiros. Vale lembrar que ele escreveu também o subestimado O Último Grande Herói, um dos meus favoritos filmes de “ação” dos anos 80 e que mostra o domínio do roteirista/diretor na fórmula do gênero.

 

Depois de um esquecível Homem de Ferro 3, Black precisava voltar às origens, jogar em terreno seguro, e de uma maneira descompromissada, lança Dois Caras Legais, que deste os trailers, divertia pelo humor cínico e satírico.

 

Interessante que o roteiro escrito juntamente com Anthony Bagarozzi, é o que menos importa, lembrando bastante Vício Inerente de Paul Thomas Anderson que também se passa nos confusos anos 70. Aqui a história é só um plano de fundo para que Jackson Healy (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling), dois anti-heróis que juntam-se para desvendar um caso misterioso, possam divertir o público com suas ações nada convencionais. Enquanto Crowe faz o tipo durão com coração mole, Gosling é o extrovertido e malandro, uma dinâmica que pode parecer clichê (e é), mas que depende muito dos atores para funcionar, e neste caso, funciona demais.

 

É verdade que Black exagera um pouco no humor, ficando até insensível em certos momentos quando uma personagem realiza que um ente querido está morto, e o diretor aproveita para fazer piada, ou quando na relação de March com sua filha (a carismática Angourie Rice) não há espaço para conflitos mais sérios. Nada que arruíne a atmosfera de nonsense do filme que, não sei se foi uma impressão, mas tem tudo para virar uma série, com minha torcida começando agora.

 

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De agora em diante, toda Locadora terá um filme que poderá ser assistido na Netflix (que no meu caso é o da Nova Zelândia).

 

AInvitationpós um bom tempo de projetos sabotados pela ganância hollywoodiana, entre eles Æon Flux, a diretora Karyn Kusama retorna a produção independente com O Convite.

 

Sabendo os caminhos que constroem um suspense de qualidade, Kusama, com os roteiristas Phil HayMatt Manfredi, desenrolam uma história que prende a atenção do começo ao fim, entregando pistas como migalhas que, sem revelar muito, vão levando você até o prato principal. Além de criar um clima de ambiguidade que deixa dúvidas sobre o que realmente está acontecendo com os personagens, pois como todo suspense psicológico, a imaginação não é sempre confiável. Hitchcock ficaria orgulhoso.

 

Para não entregar muito da trama, o que seria um pecado imperdoável, escreverei apenas a premissa: Will (Logan Marshall-Green, mais conhecido por Prometheus) é convidado pela ex-esposa para um jantar que reunirá velhos amigos. Logo em seguida, olhares cúmplices, comportamentos estranhos, informações desencontradas e uma trilha sonora inquietante de Theodore Shapiro, vão fazendo de O Convite uma bela pérola do gênero que faz o público acreditar e desconfiar do protagonista, em uma tensa mistura de paranoia com realidade.

 

Deste modo, entre brindes ao fanatismo religioso e risadas nervosas, Kusama saboreia sua liberdade para futuras e promissoras refeições.

 

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