Estudei o Brasil nas aulas de Geografia como um país de “dimensões continentais”. É só uma pena que mais tarde descobriria que, proporcional às suas dimensões continentais, é sua desigualdade. Ou alguém será capaz de levantar e dizer que as cinco regiões brasileiras se desenvolveram igualmente? São Sudeste, Sul, Centro-Oeste, Norte e Nordeste iguais em condições de vida?

 

Certamente não o são. E mais: são desiguais em maneiras diferentes. Em um país do tamanho do nosso, é imperativo que cada região tenha se construído desenvolvendo sua própria história, sua própria trajetória socioeconômica, na maioria das vezes de forma muito distinta das outras regiões.

 

 

Em O Som Ao Redor, somos transportados à Recife, terra do diretor Kleber Mendonça Filho e capital do estado que tem se tornado o maior polo cinematográfico independente brasileiro. O Recife daqui não é a cidade puramente moderna propagandeada nas campanhas político-partidárias, mas sim um microcosmos da desigualdade do Nordeste e principalmente de suas causas.

 

Região historicamente negligenciada por séculos enquanto os governantes só tinham olhar para o Sul e o Sudeste (e mais tarde, de maneira não menos importante, para o Centro-Oeste), só foi descoberta quando passou a ser utilizada como mão-de-obra barata para as próprias indústrias que se desenvolviam no Rio de Janeiro e em São Paulo. Neste vácuo de representatividade que dominou a região por muito tempo – pode-se dizer que até a década passada -, tomaram lugar nela figuras que, se não eram políticos legítimos, agiam como tais: os coronéis.

 

Os coronéis nordestinos eram, em sua ascensão, versões ampliadas dos coronéis que agiam em São Paulo e em Minas Gerais, investindo no voto de cabresto para uma população ainda em grande parte analfabeta. Violentos e autoritários, mantinham um rígido controle da propriedade de suas terras e viviam de práticas que visavam manter a população sob o comando da região latifundiária e exploradora que cultivavam, empregando práticas como, inclusive, a venda de água. Entretanto, como parece que o Brasil demorou a “descobrir” a região e implementar as práticas que já se faziam necessárias desde o início do século passado, esses coronéis foram sobrevivendo e se mantendo ao longo do tempo.

 

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Com o surgimento dos primeiros grandes líderes populares na política (como Miguel Arraes, por exemplo) e a aplicação de medidas que industrializaram e urbanizaram a área – aqui falamos principalmente das capitais, como Recife – , tais coronéis saíram do ambiente rural em que surgiram para, desta vez, conviver no ambiente urbano, junto ao surgimento de um pensamento moderno que em muito se diferenciava do pensamento retrógrado que buscavam cultivar na população e que permitiu por muito tempo a manutenção de retrocessos e da desigualdade no Nordeste.

 

Esse ambiente, da cidade com toda a sensação de liberdade de modernidade que ela pode trazer em conflito com o conservadorismo e autoritarismo daqueles que contribuíram no processo de construção de uma profunda desigualdade social, é o cenário de O Som Ao Redor, filme que fez sucesso no mundo todo, que foi nosso representante na disputa do Oscar 2014 e que agora volta à pauta com o sucesso em Cannes do novo filme de Kleber Mendonça Filho, Aquarius.

 

Dizer que O Som Ao Redor é apenas sobre os diferentes sons que convivem no ambiente urbano, e o que eles simbolizam, é injusto, uma vez que o filme é sinestésico: aqui o som se confunde e se mistura com o que é imagético, olfativo e palpável, criando uma sinfonia orgástica capaz de conduzir o Homem ao extremo de seus instintos, como bem representa a brilhante sequência final da obra.

 

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Mais do que os sentidos, se misturam no filme também as visões de mundo construídas em diferentes épocas, mas produtos da mesma realidade. Em uma visão humana do “acúmulo desigual dos tempos” de Milton Santos, assistimos a história de uma família nascida no berço do coronelismo e que convive com histórias mal resolvidas de outros tempos, como tramas de vingança, ao mesmo tempo em que assistimos a crise de uma família de classe média que, habitante do mesmo bairro, mas sem conhecer a realidade da família aristocrática, tem dificuldade de lidar com  problemas que se deram historicamente e que agora parecem convergir de maneira estressante e brutal até nos pequenos momentos, como o latido de um cachorro vizinho.

 

Auxiliado por um elenco que encarna com perfeição os tipos sociais cotidianos tamanha a sua naturalidade, Kleber não tem dificuldade em criar aqui, por meio de sua direção detalhista e contemplativa, um clássico do cinema nacional. Mosaico da desigualdade social que assola todo o país em um microcosmos que é um recorte de uma das localidades mais importantes de nossa nação, o espectador é capaz de se reconhecer nos pequenos e nos grandes dramas do filme: da esposa estressada pelo caos urbano que se deu como uma tentativa desastrada de recuperar os séculos agrários brasileiros e que gerou ainda mais desigualdade social ao filho do coronel que, abraçado ao patriarca de uma família que se constituiu com base na exploração, vê o que deveria ser seu momento de lazer e libertação se transformar no banho de sangue que se constitui base da própria violência que é fruto da mesma desigualdade.

 

Trailer: