Quando Vince Gilligan sugeriu um spin-off de Breaking Bad focado no advogado Saul Goodman, virei a cara para a ideia. Não por falta de confiança no trabalho de Gilligan, mas parecia só ganância continuar com o universo de Walter White, mesmo através de um prequel. Além do mais, seria uma difícil tarefa pegar um alívio cômico e torná-lo protagonista, Carros 2 sofreu na pele a tentativa.

 

Contudo, como sempre na vida, não há como fazer previsões, e a primeira temporada de Better Call Saul mostrou que a série não é apenas uma comédia do advogado, e sim um estudo de personagem do homem por trás dos ternos baratos e conversa afiada. Uma bem-vinda nova perspectiva sobre Saul Goodman.

 

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Com a parceria de Peter Gould, o criador do personagem, e disponibilizado na Netflix, a série continua com excelência o trabalho narrativo e visual da jornada de Heisenberg, porém com mais leveza e humor. Nesta segunda temporada, Jimmy (Bob Odenkirk) anda na corda bamba entre o certo e o errado, na dúvida de entregar-se à sua personalidade ou tentar um último esforço para ficar dentro da lei, e assim conquistar o amor e admiração de Kim Wexler (Rhea Seehorn), além de provar ao irmão Chuck (Michael McKean) seu caráter.

 

Então, durante a temporada, se vê um Jimmy tentando encaixar-se em um mundo que não pertence. Repare na metáfora do copo que não entra no porta-copo do carro novo, simbolizando o próprio advogado na nova vida, e quando este consegue resolver a questão do copo, entende que não irá ser feliz enquanto não fazer o que gosta, em vez de insistir em um mundo que é pequeno demais para ele. São momentos assim que fazem de Better Call Saul uma aula de semiótica.

 

 

A relação de Jimmy com Kim e, principalmente, Chuck ganha mais força nesta temporada. Enquanto a moça seja o motivo de não se ter ainda Saul Goodman, os confrontos entre Jimmy e Chuck são intensos, sem deixar claro quem é o antagonista, sendo um dos grandes acertos da série: desenvolver personagens humanos e complexos, com defeitos e qualidades. Não tem como odiar Chuck pela as atitudes contra o irmão, quando o mesmo comprova os argumentos dele. O atores Odenkirk e Mckean merecem futuras indicações no Emmy, e na hora da premiação adoraria ver Odenkirk dar um dos cativantes e persuasivos discursos de Jimmy.

 

Curiosamente, quando assistia Breaking Bad, ficava imaginando como seria foda uma série solo de Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), mas isso não precisa ficar mais na imaginação. Better Call Saul dedica boa parte do tempo na construção deste fascinante personagem, e Mike não desperdiça a chance. Com uma trama própria, envolvendo a família Salamanca, com um Hector (Mark Margolis) independente da campainha para comunicar-se, o ex-policial é responsável pelo núcleo do submundo, resgatando a violência que os fãs conhecem tão bem. Um tipo de trama que prende o público em um plano-sequência de transporte de drogas, resultado de um esmero no planejamento na produção. Um esmero que pode ser visto em toda série.

 

 

O segundo ano de Better Call Saul continua a transformação de Jimmy em Saul Goodman com perfeição, com a inclusão de algumas marcas do personagem, como o talento para propagandas e um inusitado gosto para roupas. A série consegue equilibrar seus dois protagonistas, Jimmy e Mike, dando importância para ambos, com histórias igualmente ricas e empolgantes, neste universo seco, empoeirado e realista de Albuquerque.

 

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Trailer: