Naughty Dog é um estúdio que, além de oferecer um empolgante entretenimento com seus games, sempre foi interessado em contar histórias. Quando você embarca em uma aventura como Uncharted, você não apenas embarca em um jogo de terceira pessoa com tiroteio, cenas de tirar o fôlego e gráficos impecáveis, você embarca em uma história cativante com personagens carismáticos e momentos dignos de Hollywood. Um verdadeiro blockbuster do cinema em que você é o protagonista.

 

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A Thief’s End é o quarto e último episódio do arco de Nathan Drake, o famoso ladrão de relíquias. Enquanto os episódios anteriores focavam na ação, desenvolvendo na medida certa o protagonista, Uncharted 4 investe na personalidade de Drake e seus conflitos interiores, resultando em uma bem-vinda maturidade à história. Uma mudança narrativa que tem nomes: Neil Druckmann e Bruce Straley. A dupla foi responsável pela obra prima The Last of Us, e trouxe toda a experiência aprendida para Uncharted, principalmente na relação entre os personagens, entregando uma complexidade ainda não vista neles.

 

O ponto inicial do roteiro – e irei dar apenas um pequeno resumo para não entregar as surpresas e reviravoltas da trama -, é quando Drake, curtindo uma vida normal ao lado da esposa Elena Fisher, revê seu irmão Samuel Drake, depois de anos acreditando que o mesmo estava morto. No entanto, se o impacto da revelação não fosse o bastante, Nathan precisa ajudar o irmão, junto com o velho companheiro Sully, a encontrar um tesouro perdido. Uma jornada em que o principal objetivo não é mais conseguir a fama ou o dinheiro, e sim descobrir a si mesmo e lidar com os fantasmas do passado.

 

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Mas e a jogabilidade? Os gráficos? O multiplayer? Isso não é um game? Sim, Uncharted é um game, mas não é só isso. Até demora para o jogador entrar em ação, e mesmo assim, nunca fica entendiante. O roteiro é inteligente (embora os antagonistas não saem do padrão da série), os diálogos variam entre o humor e o drama, as interações entre os personagens durante o gameplay soam orgânicas e você esquece que tudo aquilo é programação, e traz também novidades na linearidade da história, como a inclusão de flashbacks e pequenos momentos de descontração que me deixaram fascinado pela sensibilidade.

 

Agora sobre os aspectos técnicos de Uncharted 4, a série continua impecável, entrando para o time de jogos, como Metal Gear Solid V – Phantom Pain, que justificam comprar um console da nova geração. Não tendo muito o que modificar dos anteriores, a Naughty Dog diversificou bastante nos ambientes com florestas, cidades, montanhas cobertas de neve, ilhas, cavernas e lama, muita lama. A enorme variedade de detalhes, já conhecida da empresa, está em todos os cenários. Tudo é muito vivo e bonito, parei de jogar para ficar tirando várias printscreens, como se fosse um turista naquele universo. A captura de movimento dos atores também foi aperfeiçoada, com um nível de realismo impressionante nas caracterizações dos personagens. Um trabalho minucioso que mostra sua qualidade em cada interação do ambiente com os avatares. Ver Nathan surro de barro ao ser arrastado por um caminhão é de largar o controle e bater palmas.

 

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Outras novidades são a adição do gancho que se torna essencial e diversifica a estratégia do jogador, e a expansão de cenários específicos, dando uma liberdade limitada, mas que fazem toda a diferença na imersão. Dirigir seja um jipe ou uma lancha neste universo é um prazer indescritível. Além disso, o que já era bom foi aprimorado, como o sistema de stealth, a distribuição equilibrada de inimigos, a mira que pode ser travada ou não, os puzzles, a trilha sonora que é um personagem à parte e, o que pode incomodar alguns, o sistema de combate que exclui a opção de defesa, mas que faz sentido quando precisa enfrentar alguém que não há nenhuma chance de vencer. Acertos que ofuscam a inteligência artificial “inocente” dos capangas que esquecem rapidamente do jogador. É mais fácil acreditar que os mercenários não tem uma boa memória e sofrem de miopia.

 

O multiplayer continua não sendo o ponto forte de Uncharted e nem precisa ser, resumindo-se ao básico com adições de habilidades interessantes e mais personagens jogáveis, servindo apenas como um bônus do pacote. Pois ao terminar o jogo, as chances de jogá-lo novamente são grandes, principalmente nas sequências de ação. Sequências que não devem em nada ao clássico Among Thieves, com a obrigatória perseguição de carros e motos que deveria ser jogada na tela do cinema. Fora as explosões e desabamentos de marcos históricos que só provam que Nathan Drake é um T-800 ou toma muito leite para fortalecer os ossos.

 

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Uncharted 4 – Thief’s End é a primeira amostra do que a Naughty Dog pode fazer no Playstation 4 (e olha que é só o começo), unindo a ação frenética da série com um roteiro profundo e emocionante. Uma trama que é um revelador estudo de personagens, com a temática de piratas sendo a escolha perfeita para encerrar esse ciclo de Drake. Um pirata contemporâneo que agora conhece o seu fim, nesta obra prima que não sei se guardo na minha coleção de jogos ou a de filmes. Com certeza guardarei em uma cidade perdida protegida por puzzles e que só os dignos poderão explorá-lo.

 

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Trailer: