Comecei acompanhar a série The Walking Dead na TV, só para depois visitar a fonte original, os quadrinhos, e não sair mais de lá. Nunca exigi que a obra escrita por Robert Kirkman fosse fiel na adaptação televisiva, pois boas adaptações fazem mudanças necessárias em prol de uma determinada mídia, embora diminua a violência e os palavrões, sobra espaço para desenvolver melhor os personagens. Algo que a série insiste em não fazer bem, destruindo ótimos personagens da HQ – a Andrea é o maior exemplo -, enquanto outros vão sobrevivendo muito mais por sua importância entre os fãs do que por ter alguma relevância na história. Um ponto negativo que ainda resiste nesta sexta temporada.

 

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Como tradição, a temporada foi dividida em duas partes, duas mini-temporadas que distanciam-se por sua qualidade. A primeira parte, que começou da melhor forma possível com um episódio de estreia inovador na linguagem cinematográfica, foi apenas enrolação, com bons momentos disfarçando os episódios mornos que empilhavam-se como os mortos-vivos após serem abatidos. Arcos de personagens que não movem a história adiante, diálogos motivacionais repetitivos e um destaque desnecessário para coadjuvantes secundários, foram algumas das investidas dos roteiristas para encher linguiça e segurar o público para o que interessa. Mais um ano que os 16 episódios só provam sua utilidade para gerar mais lucro e menos conteúdo.

 

O passado de Morgan (Lennie James), por exemplo, poderia ter sido resumido em poucos minutos, mas ganhou um episódio inteiro (dispensável) para prolongar o suspense falso e irritante que criaram em torno do personagem Glenn (Steven Yeun). Um artifício bobo e infantil para gerar discussão entre os fãs, como se a série precisasse disso para manter-se relevante. Walking Dead tem uma gama enorme de assuntos que podem ser desenvolvidos em vez de um segredo que, mais tarde, se revelaria sem importância. Mas se você acha que foi apenas um deslize dos produtores, eles ainda estavam guardando o pior para o final. No mau sentido.

 

 

As boas cenas da primeira parte são exclusivamente adaptações fiéis aos quadrinhos, com Greg Nicotero, responsável pelo departamento de maquilagem, dirigindo os melhores episódios. Rick Grimes (Andrew Lincoln), deste que parou de choramingar pela morte da esposa, vem em uma crescente assustadora, um protagonista que está na linha tênue do antagonismo – o plano bizarro dele quase acabou com Alexandria -, transformando-se em um maníaco com seu próprio código de vida. A Carol de Melissa McBride vem roubando a cena faz um bom tempo. Uma mulher que faz o necessário para sobreviver e proteger os amigos, mas, diferente de Rick, não é capaz de suportar essa carga. Essa dupla, sem dúvida nenhuma, está a quilômetros de distância dos demais.

 

Michonne (Danai Gurira) e Daryl (Norman Reedus) que nas últimas temporadas resumiam-se ao caricato, continuam na mesmice de seus personagens. No caso da espadachim, até criaram um romance com Rick, na tentativa de arrumar um lugar para ela na história, mas que não fez muita diferença. Uma que promete só crescer daqui pra frente é Maggie (Lauren Cohan), uma verdadeira líder em ascensão. Nem vou falar muito sobre Carl (Chandler Riggs), pois o menino fez parte de uma Malhação apocalíptica esquecível.

 

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Quando a série estava caminhando para um dos seus piores anos, vem a segunda parte para arrebentar cabeças. Com certeza, os quatro primeiros episódios foram muito acima da média, e deveriam servir de exemplos para futuras temporadas. Histórias com ritmo, arcos fechados, violência justificada e sem muito melodrama barato. Personagens desinteressantes morrem – engraçado que ao contrário de Game of Thrones, não há pesar quando alguém morre -, e outros novos que entraram para renovar The Walking Dead.

 

As duas principais novidades são Jesus (Tom Payne) e… esse eu discuto depois. Jesus faz a ligação da comunidade de Rick, Alexandria, com Hilltop. Uma nova comunidade que expande esse universo, deixando ainda mais os zumbis como plano de fundo. É claro que depois de um começo na velocidade máxima, a série tire o pé do acelerador até chegar em um explosivo season finale, como de costume. Felizmente, indo contra as últimas seasons finale, essa temporada apostou em um final tenso e sombrio para o grupo de Rick. Um episódio perfeito para a apresentação do novo vilão Negan (Jeffrey Dean Morgan). Mesmo com poucos minutos em cena, Negan já é a melhor adição que aconteceu em Walking Dead e Morgan – o ator, não o sonolento da série -, encaixou como uma luva no papel, deixando isso claro em seu memorável monólogo no clímax, que acabou prejudicado por um final totalmente covarde.

 

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No desfecho da sexta temporada, o desespero por relevância mostrado na falsa morte de Glenn e repetido brevemente no penúltimo episódio, retorna como um verdadeiro tiro no pé. É compreensível que a série não permita a violência explícita dos quadrinhos, por ser transmitida na TV aberta, mas isso não é desculpa para ser desrespeitoso com o público, que é tratado como criança por parte dos produtores. Deixar um cliffhanger oportunista para garantir a volta da audiência na próxima temporada, só prova o medo da AMC em perder o sucesso da série. A falta de coragem em momentos decisivos e o foco em tramas novelescas foram um dos motivos que me fizeram abandonar The Walking Dead na quarta temporada, mas como um morto-vivo, retornei com muita fome de melhora. Agora só estou esperando um tiro certeiro que me faça largar de vez. Ou quem sabe a Lucille pode me provar o contrário.

 

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Trailer: