Demolidor está para as séries como Homem de Ferro está para o cinema, no sentido de ser o carro-chefe da Marvel na construção de um universo próprio. Tendo a Netflix como parceira, o estúdio nada em outra direção quando se trata da produção on streaming, deixando o humor e o visual colorido de lado para apresentar uma faceta sombria de Nova York, ou melhor, Hell’s Kitchen. A primeira temporada do homem sem medo já estabeleceu essa nova pegada realista, temperada de violência e conflitos internos. Jessica Jones deu continuidade ao mesmo tempo que abrangeu este universo para o futuro crossover dos Defensores. Bom, enquanto o grande marco não chega, a Netflix/Marvel apresenta uma nova aventura para Matt Murdock (Charlie Cox), que tem sua vida levada ao limite com a inclusão de dois personagens novos, e eles são a razão desta temporada existir.

 

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A primeira novidade, e a melhor, é o Frank Castle/The Punisher de Jon Bernthal (o Shane de The Walking Dead). O anti-herói domina toda a primeira metade da temporada, e mesmo após ficar em segundo plano no restante, rouba a maioria das cenas. Castle é Murdock sem limites, na missão de, como ele afirma, derrubar os bandidos e deixa-los no chão. Com treinamento militar e um arsenal pesado, ele cria uma trilha de sangue em busca de vingança pela morte da família, uma busca que pode atingir inocentes, uma fatalidade que Demolidor quer evitar. Embora os confrontos físicos entre os dois são sempre um atrativo pela brutalidade, é mesmo no confronto verbal, com cada um defendendo sua ideia de combate ao crime, que a série tem um dos seus melhores episódios, mostrando que apesar de Matt ser o herói que a cidade precisa, não é o monstro que ela exige.

 

Um duelo impactante que deixa a segunda novidade, Elektra Natchios (Elodie Yung), um pouco ofuscada, mas muito por culpa de como desenvolveram a personagem. A assassina demora para empolgar, além de fazer parte de um triângulo amoroso bobo. Contudo, a relação dela com Matt traz a tona mais informações sobre o passado do protagonista, além de ser mais um problema na já turbulenta vida do advogado. Matt não consegue aliar a profissão com a vida de herói, abalando a amizade com Foggy (Elden Henson) – que tem um maior destaque com o julgamento de Castle – e a multifuncional e interesse romântico Karen Page (Deborah Ann Woll). Multifuncional porque a personagem é tudo que os roteiristas precisam que ela seja, mas no fim das contas, ela não é nada. Ela é secretária, advogada, jornalista, cúmplice, namorada, e ainda sobra tempo para ser detetive (a cena que ela desvenda um mistério é forçada demais). Uma verdadeira robô da conveniência.

 

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Outros personagens também retornam, principalmente Vincent D’Onofrio com o espetacular Wilson Fisk. O vilão não tem muito tempo de tela, mas quando aparece mostra porque é um dos melhores da Marvel cinematográfica (disputando o topo com Kilgrave). A sua presença, e a do Castle também, só confirmam como o antagonista – que deixarei em segredo para evitar spoiler – que domina a segunda metade da temporada não está à altura deles. Embora a história mística, que o vilão principal está envolvido, possa parecer confusa, traz um ar fresco para esta realidade sombria de Hell’s Kitchen. Só não entendo a resistência de Murdock de crer em conceitos como imortalidade e forças sobrenaturais, quando ele vive no mesmo mundo dos Vingadores e na cidade que foi invadida por aliens. Será que ele não viu tudo isso? Opa! Esqueci de um detalhe.

 

As elogiadas coreografias de luta da primeira temporada estão de volta. Algumas sequências tornam-se repetitivas (chegou um momento que suspirei: “ninjas de novo não”), mas outras são memoráveis como o incrível plano-sequência da escadaria – com um ou dois truques de corte -, a parceria Demolidor e Punisher que termina em um belo discurso de Castle e a brutal porradaria na prisão. Momentos que provam o potencial desta abordagem diferente.

 

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A segunda temporada de Demolidor mantem a qualidade da série, investe em uma história complexa com várias tramas, sem perder o foco principal que é a evolução do herói em sua jornada ao autoconhecimento. Uma jornada cheia de perdas, violência e escuridão.

 

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