Estou acostumado a encarar olhares de estranheza quando respondo que De Olhos Bem Fechados é o meu filme favorito de Stanley Kubrick. Não só porque De Olhos não é exatamente um Laranja Mecânica ou um O Iluminado, mas também por ser o único longa da curta filmografia do diretor a não receber uma repercussão acalorada da crítica e do público (sendo normalmente um dos poucos exemplares que as pessoas costumam ignorar da obra de Kubrick). Assim, nada mais justo do que utilizar este espaço – no qual já escrevi sobre meus favoritos de Quentin Tarantino (Kill Bill) e David Lynch (Veludo Azul) – para defender este filme tão – a meu ver – subestimado.

 

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Como em toda sua obra, Stanley aqui mais uma vez se propõe a tratar da natureza humana, mas desta vez longe de enfoques tradicionais, como a violência e a ambição, para abordar um assunto ainda mais polêmico, ainda que mais corriqueiro: a relação do Homem com a sexualidade. Ora encarado como um tabu ora como algo banalizado, Kubrick cria em seu De Olhos Bem Fechados um jogo de gato-e-rato com o público para, sob o excelente disfarce de toda uma atmosfera de suspense, caçoar de nossa incapacidade de lidar com um elemento que deveria ser mais do que natural para todos.

 

O diretor questiona, assim, principalmente, a nossa dificuldade de conviver com as próprias amarras sociais que criamos, e o faz por meio do perturbado personagem de Tom Cruise. Desta forma, quando Cruise ouve da boca da esposa seu prazer sexual por outro homem, ele não consegue simplesmente aceitar que todo ser humano possui seus desejos e deve vivê-los livremente sem que isso possa gerar embates consigo próprio ou com a pessoa que julga amar. Pelo contrário, a personagem opta por viver um inferno pessoal, embarcando em uma suposta aventura que possa o livrar de qualquer culpa de uma possível traição de sua esposa e, acima de tudo, que possa o libertar de todos os seus desejos sexuais reprimidos.

 

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Entretanto, ao não perceber que aquilo é na verdade apenas uma forma de negar a si mesmo que ele continua sem conseguir distinguir o sexo do amor de sua mulher, o médico acaba se tornando vítima de sua própria consciência, criando todo um universo conspiratório e acusador que na verdade não existe e nem nunca existiu.

 

Logo, quando, ao final do filme (o que direi a seguir não é um spoiler propriamente dito, ainda que muitos possam o considerar um) a personagem de Nicole Kidman faz uma revelação um tanto quanto óbvia a seu esposo, é bem possível que muitos se perguntem: “Mas isso era claro. O filme se resumiu a isto?”. Mas o que Kubrick quer mostrar é que, na verdade, por trás das máscaras de todos aqueles que optam por permanecer de olhos bem fechados, há sempre uma incapacidade de compreender a realidade ao seu redor, tamanha a venda social que se foi colocada. Ou é impossível dizer que, neste momento, muitos casais estejam arruinando seus próprios relacionamentos com suspeitas de traição, enquanto na verdade deveriam estar discutindo o quanto a efetivação de um desejo puramente carnal é capaz ou não de arruinar todo um longo processo sentimental?

 

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Por fim, ao final das quase três horas de projeção de De Olhos Bem Fechados, percebe-se que Kubrick, sem a necessidade de banhos de sangue, de dividir sua obra em atos ou de forçar profundas inflexões filosóficas, em sua última obra, desconstruíra e reconstruíra brilhantemente o significado de uma palavra que é e continuará sendo ainda por muito tempo uma senha para a contemporaneidade: fidelio.

 

Trailer: