ZootopiaNão há mais dúvidas (se existia alguma, é claro), a Disney está em sua terceira era de ouro com um sucesso de bilheteria atrás do outro, principalmente nas animações. Nunca é demais lembrar, essa retomada tem um nome: a lenda viva John Lasseter. Deste que ele assumiu o departamento de animação, começando por Bolt – Supercão, trouxe a maneira de trabalhar da Pixar para a casa do Mickey, com histórias que divertem crianças e passam importantes mensagens para adultos, e com Zootopia – Essa Cidade é o Bicho, a Disney entrega sua produção mais madura, propondo uma discussão sobre algumas feridas da sociedade, como o preconceito.

 

Dirigido por Byron HowardRich Moore, Zootopia, na camada superficial, é um empolgante filme de investigação, com a recém-formada policial Judy Hopps (Ginnifer Goodwin) que tem a missão de desvendar o mistério do desaparecimento de predadores. Um crime que pode abalar uma sociedade que aparentemente vive em harmonia, com presas e predadores vivendo lado a lado, em uma fantástica cidade construída para todas as espécies.

 

Antes de entrar no assunto mais espinhento da narrativa, vale destacar o belo trabalho de design que é a cidade. O planejamento urbano é pensado para o convívio dos diferentes tipos de animais, com diferentes climas, transportes, construções, uma aula de acessibilidade que não exclui nem a pescoçuda girafa ou o pequeno rato. Neste trabaho já está uma das primeiras mensagens que vai ganhando contornos sérios quando, sem soar panfletário, o filme entra na crítica ao preconceito. Tanto de gênero quando a policial Hobbs é diminuída na corporação por ser coelha, ou seja, mulher, assim tendo que provar sua força entre os colegas; e racial quando seu parceiro, Nick Wilde (Jason Bateman), é julgado deste criança por ser uma raposa, que no senso comum, é um animal malandro e de más intenções. Um estereótipo que transparece quando um simples boato assola esta sociedade perfeita, e predadores começam a ser tratados com indiferença e desconfiança por serem… predadores, algo que acontece todos os dias quando um negro é tratado como bandido por ser negro.

 

O incrível é que o filme consegue trabalhar esses temas de uma maneira bem distribuída, sem faltar espaço para o humor que tem uma cena inspirada com os bichos-preguiças, sobrando uma alfinetada na burocracia. Qualidades que fazem de Zootopia o filme mais completo desta nova era da Disney, e que essa cidade de criatividade continue a crescer.

 

05-foda


CesarNão importa se é um filme sério como Onde Os Fracos Não Tem Vez e Fargo, ou uma comédia descompromissada como O Grande Lebowski e E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, o humor sarcástico e peculiar dos irmãos Coen está presente. Um humor focado nos detalhes que tem em Ave, César! seu novo e belo exemplo.

 

A produção é uma homenagem satírica à Hollywood dos anos 50, em que mostra a vida do produtor Eddie Mannix (Josh Brolin), lidando com os problemas pessoais, além dos relacionados ao trabalho, como o sequestro do astro Baird Whitlock (George Clooney) que coloca a maior produção do estúdio em risco. 

 

Como sempre na carreira dos irmãos, a trama principal em si pouco importa, e sim as situações inusitadas que ela provoca (mais uma vez a maleta de dinheiro é uma prova disso), uma ideia narrativa bem elaborada por Paul Thomas Anderson em Vício Inerente. Deste modo, o destino dos personagens fica em segundo plano quando se tem comunistas fazendo um grupo de estudo para prejudicar Hollywood, uma atriz grávida (Scarlett Johansson) na busca de um marido exemplar, um diretor renomado (Ralph Fiennes) que sofre com um ator de gênero (Alden Ehrenreich, o futuro Han Solo), e assim vai com pequenas histórias cada vez mais cativantes. Quando digo que o humor dos Coen está nos detalhes, não é o tipo de comédia que fará você morrer de rir com cenas hilárias (pode até fazer), é o tipo de comédia que está em Clooney passar o filme todo vestido de romano, a sola do sapato barulhenta e o sotaque puxado de Ehrenreich, a dança de Channing Tatum e a discussão sobre Deus entre vários religiosos. O sorriso no canto da boca não sairá nem após o término da sessão.

 

Ave, César! ainda tem a proeza de retratar vários gêneros cinematográficos sem perder sua identidade visual – uma aula de fotografia de Roger Deakins -, passando por musical, comédia, faroeste, noir, guerra fria, entre outros, uma viagem prazerosa de quem ama cinema fazendo cinema.

 

04-otimo


SuffrageteAs Sufragistas, filme dirigido por Sarah Gavron e roteirizado por Abi Morgan, conta a história do primeiro movimento feminista do séc. XIX, que lutou contra o estado britânico, e o forte machismo da época, para que as mulheres tivessem o direito ao voto.

 

O direito ao voto é uma das principais bandeiras que o grupo defendia, mas acima de tudo, elas lutavam por direitos iguais aos homens. Uma luta que dura até os dias de hoje, que na própria Hollywood, atrizes recebem menos do que os atores, isso apenas para citar uma classe do meio. Além do mais, a lista que aparece no final do filme, mostra que o direito ao voto em alguns países ainda é um sonho distante para elas, mesmo em tempos “modernos”.

 

O filme acompanha a protagonista Maud Watts (Carey Mulligan) que cansada do papel que a sociedade impôs à ela, passar a vida em um trabalho humilhante e depois cuidar da família, junta-se ao movimento que por anos tentou lidar com o problema diplomaticamente, mas percebeu que a violência era a única língua que os homens entendiam. A diretora Gavron usa o estilo “câmera de ombro” para entregar mais realismo à época, mostrando de perto o sofrimento e sacrifícios de suas personagens. Só exagera, e o diretor Tom Hooper (A Garota Dinamarquesa) também tem essa mania, na tremedeira da câmara nas cenas de diálogo, uma técnica usada para manter um público acostumado com blockbusters atento, mas no fim das contas só atrapalha.

 

Com grandes atuações, uma participação especial de Meryl Streep e uma história forte, As Sufragistas é uma lembrança de mulheres que servem de exemplo para as futuras gerações, já que a luta está longe de acabar.

 

04-otimo


MacbethConfesso que não era muito familiarizado com a peça de Shakespeare, o que foi um dos motivos para conferir essa nova adaptação de Macbeth, com o subtítulo de Ambição e Guerra.

 

Dirigido por Justin Kurzel, que talvez ganhe popularidade com a adaptação de Assassins’s Creed, o roteiro desenvolve a vida do soldado Macbeth (Michael Fassbender) até tornar-se o famoso rei atormentado por seus demônios.

 

O texto de Shakespeare teve uma fidelidade extrema nas mãos dos roteiristas Jacob KoskoffMichael LesslieTodd Louiso, que mantiveram toda a poesia do escritor nas falas dos personagens. Contudo, diferente do Romeu + Julieta de Baz Luhrmann, a necessidade de clamar os versos, mais prejudica a obra do que contribui. Artisticamente é lindo, como toda a produção técnica, principalmente a fotografia de Adam Arkapaw que tem o auge no clímax, na luta coberta por um degradê hipnotizante.

 

Entretanto, a preocupação com a parte artística é tanta que esqueceram da história, passando de uma cena para outra com longos monólogos, porém pouco desenvolvimento dos personagens e nenhum contexto de época. Monólogos que se não fossem pelas ótimas atuações de Fassbender e Marion Cotillard, seriam mais cansativos do que são por causa de um ritmo nada agradável da narrativa. Até as cenas de batalha são lentas pela opção puramente técnica de câmara-lenta.

 

Macbeth é um colírio para os olhos, sustenta-se nas atuações e o brilhante texto de Shakespeare, porém exagera demais na sua composição, resultando muito som e pouca fúria.

 

03-bom