LaneRua Cloverfield, 10 surgiu como uma surpresa. Enquanto todas as atenções estavam voltadas para o recomeço de Star Wars no cinemas, J.J. Abrams não encontrou dificuldade para manter em segredo este spin-off do ótimo Cloverfield, dirigido por Matt Reeves. Então, como uma revelação de mágica, o filme é anunciado poucos meses antes da estréia, e o melhor, com uma premissa bem diferente da origem.

 

A trama, escrita por  Josh CampbellMatthew StueckenDamien Chazelle (do cultuado Whiplash – Em Busca da Perfeição), deixa de lado a invasão alienígena e correria pela sobrevivência para focar em uma história menor, em que o monstro desta vez não vem do espaço.

 

A jovem Michelle (Mary Elizabeth Winstead), após sofrer um acidente de carro, acorda em um bunker – que tem uma identidade própria graças ao trabalho de Michelle Marchand IIKellie Jo Tinney – com mais dois estranhos, e a única informação recebida é que o país está contaminado por algum tipo de arma biológica. Sem saber ao certo o que está acontecendo no mundo exterior, e tendo que conviver com um homem perturbado, em uma atuação assustadora de John Goodman, a protagonista encara uma situação que se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

 

O maior objetivo dessa história paralela, dirigida agora por Dan Trachtenberg, é – como o próprio pôster revela – mostrar um diferente tipo de monstro: o ser humano. A criatura que destrói Nova York fica até amigável perto da psicopatia de certos indivíduos, e a maneira que a tensão é construída em Rua, aos poucos com alguns intervalos de alívio, ajuda criar cenas que me fizeram esquecer de respirar (até soltei um wow alto no cinema). Cenas que lembram bastante os duelos tensos dos clássicos de Sergio Leone, mas neste caso, o terror psicológico é a arma no coldre.

 

Rua Cloverfield, 10 honra o clima e a qualidade de sua fonte, embora exagere no final com uma grandiosidade que o filme evitou o tempo todo, mesmo assim foi necessário para fazer a ligação e desenvolver mais deste universo que, segundo Abrams, resultará em outras histórias inéditas. Os fãs só agradecem.

 

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Visita

Tenho uma notícia boa e outra ruim sobre o recente filme de M. Night Shyamalan, diretor do clássico O Sexto Sentido e ótimos trabalhos como Corpo Fechado e A Vila, mas que nos últimos filmes não consegue sair do buraco da decadência que se enfiou.

 

A notícia boa é que como roteirista, Shyamalan volta das cinzas com uma bem construída e tensa história em A Visita. Duas crianças que vão passar uma semana com os avós que nunca conheceram, e com o passar dos dias, eles começam a presenciar situações estranhas. O roteiro vai se desenrolando aos poucos sem dar muitas pistas do que pode acontecer, deixando um clima de mistério que Shyamalan já foi muito bom em fazer.

 

No entanto, atrás das câmeras, o diretor ainda está devendo. Optando por usar o estilo handcam (um personagem tem que estar filmando a história), ele sabota em diversos momentos o filme. É um estilo muito perigoso de narrativa visual, já que a maioria dos filmes que tem essa proposta mais escondem do que mostram alguma coisa, entregando muita bagunça e frustração. Uma tentativa de recriar excelentes longas como A Bluxa de Blair e Rec.

 

O personagem escolhido para ser “diretor” é um dos netos, Becca (Olivia DeJonge), que decide realizar um documentário para aproximar a mãe (Kathryn Hahn) dos avós, depois de um histórico obscuro da relação. Problemas batidos do gênero poderiam até passar despercebido, por exemplo, em cenas que a câmera insiste em ficar ligada quando não é necessária. Mas não tem como ignorar  as partes que o diretor cansa do estilo, e filma cenas exteriores que obviamente é a “câmera do diretor”, como em outros planos, principalmente quando conversam com a mãe pelo computador. Além de inserir transições profissionais no meio da gravação “orgânica”. Mesmo que o filme seja o documentário já editado, fica difícil engolir a desordem na montagem, principalmente quando a garota mostra um conhecimento exemplar da linguagem cinematográfica.

 

Contudo, o fim da picada é quando a avó (Deanna Dunagan), em um transe psicótico, preocupa-se em segurar a câmera para filmar sua ação. Só a história intrigante para que eu continuasse a assistir o filme depois dessa.

 

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Panda3Quando assisti pela primeira vez Kung Fu Panda, o meu maior medo, pós-sessão, é que o sucesso do filme resultasse em continuações vazias de conteúdo em prol de mais lucro, ou seja, que virasse um Shrek. O sucesso veio, a continuação também, mas para minha satisfação, a DreamWorks fez um ótimo trabalho, mesmo com algumas ressalvas que deixaram o caminho aberto para o terceiro filme.  Um delas foi a revelação sobre a família de Po que, nada contra estar viva, mas era uma oportunidade de tentar recriar mais Pos e garantir o sucesso com as crianças. Dito e feito.

 

Neste terceiro capítulo, que tem o conflito decidido em poucos minutos, Po (Jack Black) precisa lidar com uma nova ameaça e, para isso, tem que aprender o segredo dos pandas, acompanhado por seu pai desaparecido Li (Bryan Cranston). Desanima ver que, após dois arcos do protagonista, Po ainda demonstra ser um personagem inseguro, ingênuo e… bobo. Será que a única coisa que aprendeu foi lutar Kung Fu? Até a mensagem do primeiro filme de “autoconhecimento” volta, mostrando uma falta de criatividade (ou preguiça) por parte dos roteiristas Jonathan Aibel e Glenn Berger. Sem uma história forte que justifique o fim da trilogia(?), o longa é a comédia pela comédia, enchendo a tela de pandas com uma avalanche de piadas que, entre várias desnecessárias, tem as que funcionam, mas repetem-se até ficarem cansativas. O lado bom é que a animação continua de encher os olhos, investindo bastante em hipnóticos momentos 2D.

 

Enfim, Kung Fu Panda 3 é um requintado dos anteriores, mas sem o gosto de originalidade.

 

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AnomalisaCharlie Kaufman é responsável por roteiros que privilegiam a originalidade em contar os sentimentos íntimos dos seres humanos, assim obras primas tiveram vida em suas mãos como AdaptaçãoQuero Ser John MalkovichBrilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, só para citar alguns exemplos.

 

Neste ano, o roteirista retorna, agora na direção junto com Duke Johnson, com a animação Anomalisa, em que ele prossegue a análise sobre esse incrível ser que somos nós, focando no medo, neste caso do protagonista Michael Stone (David Thewlis), de ser engolido pela mediocridade de sua vida.

 

Adotando o stop-motion como estilo de animação, o que combina perfeitamente com a história, já que aproxima mais da realidade do que uma animação convencional, Kaufman faz um estudo de personagem sobre um homem que, apesar de ser bem sucedido em ensinar pessoas de como serem… bem sucedidas, ainda busca a felicidade, o que um verdadeiro amor poderia trazer. 

 

A ambientação é um personagem importante na história. O quarto de hotel apresenta uma fotografia sombria e sem vida – cuidadosamente pensada por Joe Passarelli -, mas que torna-se mais vívido quando Michael conhece Lisa (Jennifer Jason Leigh), promessa de um amor que pode mudar sua vida. Além dos cenários, e da própria animação que presenteia o público com momentos de puro surrealismo, o som tem sua importância no estado psicológico de Michael. Repare, difícil não reparar, de como Michael ouve todas as pessoas em sua volta com a mesma tonalidade de voz, representando a morbidez à sua volta, mas quando ouve Lisa pela primeira vez, não consegue esconder a fascinação pela voz, ou seja, um detalhe que a faz diferente de todo o resto. E não é isso que procuramos em um parceiro ideal? Um detalhe que nós completa? E nesta fábula sobre solidão e amor, Kaufman ensina que nem tudo nada vida estará em outra pessoa, até você encontrar dentro de si mesmo.

 

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