Batman vs Superman – A Origem da Justiça é o início definitivo do universo da DC Comics no cinema, embora O Homem de Aço já tenha sido o começo da nova empreitada, só agora a Warner Bros. decidiu investir pesado nas histórias interligadas, como a Marvel Studios mostrou ser possível.

 

Contudo, a parceria Warner/DC vai na contra mão do humor e visual colorido da concorrente, construindo uma abordagem mais épica e sombria para seus heróis, uma tendência vinda deste o Batman de Tim Burton, e que retornou como referência a ser seguida na trilogia de Nolan. Então, BvS honra este legado visual, e tem em sua ambição narrativa, a difícil missão de apresentar o novo Batman de Ben Affleck, continuar o drama do Superman (Henry Cavill) e ainda introduzir a Liga da Justiça, com destaque para a inserção da Mulher Maravilha (Gal Gadot). Se o diretor Zack Snyder conseguiu ou não, é o que escreverei adiante.

 

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Com a origem do Superman já desenvolvida no filme anterior, o roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer, dedicam um tempo maior para desenvolver Bruce Wayne/Batman que tem o melhor arco de personagem, mostrando como o trauma pela morte dos pais e o combate ao crime – ao lado do gênio tecnológico Alfred (Jeremy Irons) – afetou a personalidade e visão de mundo do herói. Wayne é um homem cínico, assombrado e obcecado por um senso de justiça próprio. Matar não é um código inquebrável faz um bom tempo.

 

Lembro como se fosse hoje quando Affleck recebeu uma enxurrada de críticas por ter sido escolhido para o papel, mas não tem como negar que o ator transmite muito bem o conflito existente dentro e fora do personagem. Os primeiros minutos iniciais dele são memoráveis. Diferente do Superman de Cavill que, apesar do esforço do ator, não há uma significativa mudança no herói. Seu drama é ter que lidar com o fardo de ser considerado um Deus por alguns e uma ameaça por outros, tanto que o vilão do último clímax só é justificado para dar relevância ao arco do Superman, mesmo que a resolução seja sabotada pela necessidade de prosseguir com este universo.

 

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O conflito entre os dois heróis é o principal chamariz do filme e toda a trama que leva os dois para a luta épica é consistente, mesmo que tenha várias brechas para discussões, como a falta de diálogo entre eles – típica do gênero – que levaria a um entendimento das ações de cada um. A luta é arquitetada por Lex Luthor (Jesse Eisenberg) que se não fosse pela inteligência manipuladora, iria sobrar apenas um histérico Eisenberg que faz um desinteressante e fraco Luthor. Felizmente Batman e Superman valem cada centavo do ingresso.

 

O que não vale cada centavo do ingresso são os exageros do filme, as sobras, muito deles creditados a Snyder e a obrigação de incluir a Liga da Justiça. A kryptonita do filme é a quantidade de histórias paralelas que só funcionam como um trailer para os próximos filmes – os “teasers” de cada herói e os sonhos (ou visões?) de Wayne são um ótimo exemplo disso – e a enchente de fans service que ultrapassa o limite, mas deve agradar os fãs. Cenas que só prejudicam o ritmo do filme, deixando a longa duração cansativa.

 

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Sobre a direção, sou um fã de Snyder e tenho Watchmen e 300 com presença garantida na minha coleção, porém em BvS, o diretor pesa a mão em tornar tudo épico, grandioso, pois quando realmente se tem cenas épicas, elas não diferenciam-se do resto. A trilha sonora de Junkie XLHans Zimmer só agrava o problema, gritando o tempo todo para o público que tal momento é importante, como o cotidiano do Superman ou uma descoberta no computador. Sutileza é algo inexistente na produção, transformando o filme em uma hero opera de barulhos.

 

As sequências de luta também tem seus altos e baixos, enquanto algumas pecam pelo excesso de cortes e a falta de organização na montagem, deixando a ação confusa, Snyder e o montador David Brenner acertam em outras, como a invasão de Batman no armazém – um colírio para qualquer fã do game Arkham – e a luta principal que é simplesmente linda, a chuva e a fotografia cinzenta de Larry Fong amplificam a urgência da cena, digna da HQ O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Uma prova que, sem exageros, Snyder é um diretor competente e inventivo quando trata-se de criar planos inesquecíveis. Um verdadeiro bloqueio nas falhas do roteiro.    

 

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A adição do vilão Apocalypse que, além de fechar o arco do Superman, serve para reunir a trindade – Batman, Superman e Mulher Maravilha – da Liga da Justiça, mas acaba prejudicando a resolução do conflito anterior. Um conflito que foi desenvolvido em mais de uma hora e precisa terminar em poucos segundos através de uma solução preguiçosa. Para piorar, o monstro criado em CGI é genérico, sem uma forte identidade, uma desculpa para Gadot ter alguma ação na história, pois durante toda a projeção, a moça tem apenas rápidas aparições. Todo o clímax final faria mais sentido no filme da Liga da Justiça, e não ficaria tão atropelado com um monstro berrando e destruindo tudo sem nenhuma explicação.

 

Batman vs Superman – A Origem da Justiça gera discussões por ser diferente do que a Marvel estabeleceu no gênero, o que é positivo. Define com autoridade como será o tom do universo DC (filmes com marca autoral), traz um Batman crível como um herói à altura de Deuses, foge de ser um entretenimento barato de fim de semana com uma proposta ousada e ambiciosa – que o torna propício aos erros apontados – e entrega o que os fãs dos quadrinhos esperavam (ainda senti a falta de uma certa frase clássica). Qualidades que salvam o filme de ser a bomba atômica do ano, e mantem o caminho preparado para novos voos.

 

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Trailer: