Também no que se refere às bruxas que copulam com demônios, existem grandes dificuldades para considerar os métodos pelos quais se consumam tais abominações. Por parte do demônio: primeiro, de que elemento é composto o corpo que adota; segundo, se o ato vai sempre acompanhado pela injeção de sêmen recebido de outrem; terceiro, quanto ao tempo e lugar, que se comete este ato com mais frequência, em certas ocasiões ao invés de outras; quarto, se o ato é invisível para qualquer um que possa se encontrar por perto. Por parte das mulheres: primeiro, é preciso averiguar se apenas aquela concebida dessa maneira conflitante é visitada com frequência pelos demônios;…”*

 

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Isso é o tipo de coisa que parece bastante ficcional e eu provavelmente acreditaria vir de um livro de terror se não soubesse que é parte de um texto católico, usado por muitos e muitos anos para perseguir “bruxas”. Podemos trazer esse texto para a realidade imaginando todo tipo de discriminação e dificuldades que as mulheres passam ainda nos dias de hoje, e dessa forma fica ainda mais fácil pensar em como elas eram tratadas alguns séculos atrás. A Bruxa trata disso. Bem, isso e mais uma boa dose de costumes extremamente religiosos que envolvia famílias ou comunidades inteiras. É válido lembrar que é preciso estar de olhos bem abertos para entender que esse filme não é sobre possessão demoníaca, e essa talvez tenha sido a maior dificuldade do público: entender o verdadeiro fio ideológico do longa.

 

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Século XVII, início da colonização dos Estados Unidos. A família de William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) resolve morar fora da comunidade que fazia parte por algum desacordo religioso. Indo morar num lugar isolado, sofrem com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece inexplicavelmente.

 

A partir desse fato, a mãe, em estado depressivo, se isola no quarto fazendo orações para ter seu bebê de volta. O pai tenta fingir que nada aconteceu, os dois filhos mais novos não entendem a situação, mas Thomasin (Anya Taylor-Jo) e Caleb (Harvey Scrimshaw), os irmãos mais velhos, ficam nitidamente preocupados com o futuro da família.  Os eventos que seguem farão acreditar que Thomasin é uma bruxa e se deve a ela todo o mal que assola família. O enredo mostrará o declínio da fé na própria família e o despertar ainda mais ignorante de uma crença estúpida que envolve demônios, seitas e sacrifícios.

 

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As cenas de horror são completamente artísticas, mas não se pode deixar de falar das outras. A fotografia de Jarin Blaschke é feita com paleta escura e, dentro da casa a sensação de claustrofobia é tenaz. Mark Korven compõe uma trilha que é muitas vezes por sussurros, remetendo às vozes interiores que poem sempre a dúvida em cada um dessa família. A estética e a forma como o diretor/roteirista Robert Eggers conduz a trama é exuberante, no sentido contido, e não é de se estranhar que Eggers tenha levado o prêmio de melhor diretor em Sundance.

 

As metáforas criadas são algumas vezes simplórias, mas eficazes, como é o caso da maçã saindo da boca de Caleb. O homem está condenado por ter aceitado a maçã, mas quem a aceitou da serpente foi Eva. Eggers consegue mostrar como o amadurecimento da mulher sempre foi uma ameaça, e como todo tipo de atrocidade cometida contra ela não lhe dá o título de vítima, mas de causadora da própria situação.

 

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Talvez o final de A Bruxa tenha deixado o público confuso, e as metáforas tenham sido esquecidas nesse ponto (se é que, quem se confundiu, conseguiu tecer esse tipo de pensamento em algum momento). Mas a verdadeira graça da arte é observá-la sem certeza, e saber sobre ela aos goles, ou comendo pedaço por pedaço de uma maçã condenada.

 

* O Martelo das Bruxas é datado entre 1486/1487 e escrito por Heinrich Kraemer.

 

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