Pode-se dizer que Quentin Tarantino não ficou conhecido exatamente pelo engajamento social ao longo de seus filmes. Seus seis primeiros longas – Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempo de Violência, Jackie Brown, os dois volumes de Kill Bill e À Prova de Morte – tornaram-se sucessos de crítica e ícones populares por serem divertidos exemplares de exploitation, mas ao mesmo tempo inteligentes homenagens ao cinema de diversas gerações. Entretanto, com o lançamento do não menos genial Bastardos Inglórios em 2010, o diretor iniciou o uso da História a favor de seus filmes. Se em Bastardos, a vingança contra o nazismo parecia apenas pretexto para mais um banho de sangue, Django Livre já abordava um lado menos conhecido da escravidão (com negros escravizando negros) e agora, com Os Oito Odiados, Tarantino finalmente adentra a análise social com uma das mais interessantes reflexões já feitas acerca da Guerra de Secessão. Isso, claro, aliado a todas as características que o consagraram como diretor e que cativaram o público do mundo todo.

 

THE HATEFUL EIGHT

 

Na trama do filme, Kurt Russell é “o enforcador” John Ruth, que está em meio a uma jornada para transportar a sua prisioneira, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), para a forca. Entretanto, uma forte nevasca faz com que ele se depare com outras figuras curiosas em seu trajeto: o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), o suposto xerife Chris Mannix (Walton Goggins), o mexicano Bob (Demian Bichir), o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o cowboy Joe Gage (Michael Madsen) e o general confederado Sandy Smithers (Bruce Dern). Preso com todos estes em um bar enquanto aguarda a passagem da nevasca, Ruth começa a suspeitar de que alguns deles possam nutrir um interesse pela recompensa de Domergue, criando um clima de tensão que pode culminar em um desfecho dos menos agradáveis.

 

No plano de fundo e praticamente como estopim para o clímax de Os Oito Odiados, está, como já citei, a Guerra Civil Norte-Americana. Evitando a abordagem mais teórica feita por filmes como Lincoln, Tarantino (que, como de praxe, também assina o roteiro do filme) opta aqui por uma abordagem focada nas consequências sociais do conflito, como o enraizamento do racismo no país e a construção de tensões sociais entre estados e partidos que se refletem até hoje, como provaram os episódios da chacina da igreja de Charleston e a dificuldade do presidente Barack Obama de lidar com um Congresso cada vez mais dividido entre Republicanos e Democratas em 2015.

 

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A personagem de Samuel L. Jackson, que em certo ponto praticamente é elevada à protagonista, é praticamente a síntese de toda a visão que o diretor busca levar a seu filme. Seu major é o símbolo da luta da União por um Estados Unidos livre da escravidão; luta esta que permaneceu mesmo após o fim da Guerra, como pode ser exemplificado pelo tratamento de todas as outras personagens para consigo através do pejorativo uso da palavra “nigga”. Do outro lado, o velho general interpretado por Dern, que muitas vezes parece totalmente afastado de todos os eventos que ali acontecem, mas que em outras consegue demonstrar toda sua força e periculosidade, são os EUA ultrapassados e raivosos desejados pela Confederação. Em um contraponto interessante, Chris Mannix – por meio de sua própria ingenuidade – acaba sendo o responsável por apresentar as inconsistências e contradições nos discursos dos dois (como acontece em toda a Guerra), uma vez que, ao mesmo tempo em que exalta os feitos de ambos na Guerra, é capaz de dizer os crimes cometidos por Warren e de sentir impotente perante o embate dos dois lados, em um claro reconhecimento da ofensa social que fora o confronto com os negros norte-americanos.

 

Todas as outras personagens acabam se tornando, de certa forma, meros observadores da encenação de toda a Guerra de Secessão no restrito ambiente da taverna de Minnie. Aproveitadores, eles se utilizam do conflito para os seus próprios interesses, em um clara alusão à grande maioria do núcleo político, o qual acaba conseguindo votos muitas vezes se valendo de questões polêmicas apenas para ganhar holofotes. Em Os Oito Odiados, por exemplo, para todos, exceto Warren e Smithers, a carta do presidente Lincoln, por exemplo, tem muito mais valor do que todo o embate histórico-social que ali se desenrola, em mais um dos brilhantes simbolismos utilizados por Tarantino.

 

 

Como em todos os outros filmes de sua carreira, a escolha de elenco aqui também se mostra muito acertada. Kurt Russell impressiona fugindo do lugar-comum de personagens durões quase unidimensionais, utilizando toda a dualidade de Ruth (um homem rude, mas ao mesmo tempo extremamente carismático) a seu favor. L. Jackson, em uma atuação praticamente tão grandiosa quanto em Django Livre, constrói uma personagem em que todas as atitudes são fruto das cicatrizes da guerra e do racismo, formando um major que tira toda a sua força do rancor, da introspecção e do contínuo desejo por justiça. Já Jason Leigh, formando uma dupla implacável com Russell, se mostra a atriz mais versátil da obra, conseguindo domar perfeitamente o público com a sua enigmática Daisy Domergue, que vai desde uma personagem aparentemente vazia e histérica até a mais sagaz de todas, valorizando o excelente trabalho de construção de personagem do roteiro de Tarantino.

 

Dern também se destaca, ainda que em muitos momentos tenha dificuldade em encontrar o tom certo para seu general, lembrando inclusive sua atuação como o já inesquecível Woody Grant de Nebraska. Já Madsen e Bichir são alçados a um papel quase de figuração, enquanto Roth, no maior erro do filme, praticamente evoca o Christoph Waltz  de Bastardos e Django em cada sílaba que pronuncia, denotando falta de cuidado na criação de seu Oswaldo Mobray, que poderia ter sido uma personagem sem dúvidas infinitamente mais interessante.

 

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Já na direção, Tarantino evoca com muito sucesso todas suas peculiaridades: o uso de uma violência que beira o gore como uma continuidade da caricaturização das suas personagens, a divisão em capítulos como forma de dar um tom épico ao enredo, o apoio em uma trilha sonora que oscila entre o clássico e contemporâneo, a verborragia como forma de moldar todas as suas personagens (e que aqui, mais do que em qualquer filme seu até agora, se faz necessária) e, neste caso, até mesmo uma inusitada narração em off com sua própria voz, em um dos muitos momentos de humor involuntário (ou seria voluntário?)  bem-sucedidos do filme. A tensa e ao mesmo evocativa trilha sonora original de Ennio Morricone e a vivacidade da fotografia de Robert Richardson só auxiliam ainda mais o diretor, garantindo o tom memorável de Os Oito Odiados.

 

Quando encerrados os quase 190 minutos de obra, há a garantia do público ter tido uma experiência como um todo divertida, mesclando o riso não apenas pelas piadas em si, mas também pelo uso exagerado da violência e das próprias situações e reviravoltas que Tarantino propõe. Entretanto, essa sensação logo se esvai quando se iniciam os primeiros acordes de There Won’t Be Many Coming Home de Roy Orbison, que ilustra os créditos finais. O sorriso se transforma em seriedade, nos levando novamente a refletir não só sobre os horrores físicos de uma grande guerra, mas também de todas as devastadoras consequências que ela acarreta, as quais demoram muitas vezes séculos para serem consertadas, isso quando o são. Talvez essas duas sensações sintetizem este “oitavo filme de Quentin Tarantino”, um filme que, muito além de suas aparências, pode ser considerado extremamente complexo em suas intenções e na eficiente forma de realizá-las.

 

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Trailer: