Alejandro González Iñárritu saiu do Oscar 2015 de bolsos cheios. Na noite do dia 22 de fevereiro, terminou com três estatuetas na mão: a de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Diretor por Birdman. Mais do que isso, o diretor superou o filme que vinha sendo considerado favorito por quase toda a Awards Season, Boyhood, e elevou o seu status como diretor, uma vez que antes era apenas seletivamente conhecido por dramas independentes (na maioria da vezes de tramas paralelas que se interligam), sendo estes, inclusive, muito controversos, dividindo a opinião do público. Paralelamente a isso, Iñarritu já trabalhava no seu novo filme, O Regresso, imprimindo a ele – em virtude da sua inesperada alavancada em Hollywood – uma beleza ímpar, mas também um excesso de autoconfiança que impede que o filme seja ainda maior do que já é.

 

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Na trama, adaptada por Iñárritu e Mark Smith do livro homônimo de Michael Punke, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é um dos “conquistadores” do Oeste no período da expansão norte-americana do pós-Independência, sendo o mais experiente de toda a equipe comandada pelo Capitão Henry (Domhnall Gleeson), o que acaba despertando a inveja do ambicioso Fitzgerald (Tom Hardy). Após ser atacado por um urso e ser fisicamente debilitado, Glass acaba se tornando uma vítima de Fitzgerald, que vê na situação uma oportunidade de se livrar daquele que considera um empecilho, ainda que para isso tenha que matar o filho “selvagem” de Glass (Forrest Goodluck) e ordenar que o enterrem vivo. Conforme se recupera, Glass inicia uma jornada tanto pela sobrevivência em um ambiente hostil e em constante clima de guerra quanto pela vingança.

 

A trama em si não é uma novidade. Seus elementos e até a forma como é desenvolvida lembram em muito os grandes épicos da Era de Ouro de Hollywood, como os dirigidos por – forçando um pouco a barra – John Ford, ainda que sem a força destes. Entretanto, Iñárritu bebe muito na fonte do cinema contemporâneo também, reciclando elementos de filmes mais recentes como Gladiador (a forma como se mostra a ascensão, a decadência e o retorno de Glass, ambas envolvidas na busca pela vingança e pela reencontro com a família) e até de Ilha do Medo, também estrelado por DiCaprio (os belos e constantes flashbacks que mostram Glass com a falecida esposa). O uso de “referências” não deve ser exatamente algo que atrapalhe nenhuma obra, como faz questão de provar sempre Quentin Tarantino, mas, em O Regresso, a busca do diretor pela originalidade faz com que tais referências se encontrem “escondidas”, se tornando muito mais tentativas de emular momentos de grandes sucessos do que realizar tributos propriamente.

 

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Entretanto, a narrativa de O Regresso também tem seus pontos fortes. O principal deles é a representação dos indígenas no processo da Conquista do Oeste. Massacrados pelos norte-americanos, os nativos da região foram historicamente representados nos cinemas como os vilões que deveriam ser derrotados pelos mocinhos, na clássica visão do Destino Manifesto. Para comprovar, basta se lembrar de toda a filmografia de John Wayne, o maior de todos os “heróis” na luta contra os índios que ocupavam o oeste do que hoje são os Estados Unidos. Aqui, porém, da mesma forma como acompanhamos o sofrimento de Glass, acompanhamos o sofrimento dos índios, sendo que os dois são inclusive aproximados em diversos momentos da obra, como uma forma de mostrar que o sofrimento causado por uma guerra é e deve sempre ser universal, ainda que um dos lados saia sempre perdendo mais, como no caso, o dos índios. É justamente este pensamento que justifica, por exemplo, uma valorização maior, em um dos momentos finais do filme, da busca dos índios pela filha desaparecida de um deles do que da própria vingança empreendida por Glass, na troca de olhares que talvez caracterize o melhor momento do filme.

 

Outro ponto forte do roteiro é a demonstração (quase ininterrupta) da força da natureza. Da primeira à última cena do filme, todos os homens estão condicionados ao ambiente que os cerca, seja para determinar o caminho que devem seguir ou mesmo para que consigam sobreviver quando ficam totalmente “à deriva”. Hugh Glass, por exemplo, por mais forte que seja considerado pelos seus colegas, ao ser atacado por um urso, fica totalmente dependente de tudo que a natureza possa lhe provir, como se tivesse perdido totalmente todo o poder que possuía no exato segundo anterior ao ataque.

 

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Para conferir toda a complexidade necessária a um homem que praticamente batalha os 156 minutos de projeção pela própria vida, ninguém melhor do que Leonardo DiCaprio. Multifacetado, o ator transmite segurança e confiança no papel seja na representação de Glass como um homem íntegro fisicamente, mas cujas marcas do passado o tornam introspectivo quanto como o homem que, no momento de maior angústia de sua vida, não consegue proferir uma palavra sequer. Tom Hardy como o vilão Fitzgerald, não fica logo atrás. Por trás de toda a natureza ambiciosa e gananciosa de sua personagem, Hardy sabe representar perfeitamente o medo e a apreensão existentes em Fitzgerald, ainda que este busque o tempo todo esconder suas fragilidades demonstrando uma falsa força (como o faz dizendo o tempo todo que irá para o Texas, em um escapismo que tenta esconder por meio de uma insatisfação com o seu presente).

 

Em meio à valorização da natureza mencionada anteriormente, não houve decisão mais acertada por parte de Iñárritu do que o uso praticamente de luz natural por parte do trabalho de fotografia do sempre genial Emmanuel Lubezki, o qual se supera a cada filme. Mesmo quando opta pela luz artificial, Lubezki não exagera, preferindo sempre valorizar a frieza do ambiente, ainda que mantenha sempre a centelha de alguma cor bastante viva, como forma de simbolizar o fio de vida dos homens que ali batalham em meio à imensidão natural. Já a trilha de Carsten Nicolai e Ryuchi Sakamoto mostra-se apenas correta, destacando-se somente em momentos pontuais, enquanto na maior parte da obra não surpreende e não altera de forma drástica nenhuma cena.

 

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Ao final, Iñárritu construiu um grande filme. Porém, com um diretor de tamanho potencial e cada vez mais ciente da qualidade do material que possa vir a ter em mãos, faz-se necessário ter um controle maior do ego, permitindo a si mesmo alcançar voos maiores e se libertar de outras obras, as quais acabam aparecendo justamente na tentativa desesperada por originalidade. Se O Regresso mostra-se um filme extremamente eficiente visualmente, mas cujo roteiro não acrescenta nada de diferente ao público, talvez seja porque o diretor subestimou a capacidade do espectador de reconhecer um filme para além de sua embalagem. E se hoje, ao observarmos a história do Cinema, podemos encontrar grandes clássicos, certamente é porque o conteúdo em si foi muito maior do que a simples boa embalagem. Em O Regresso, temos de nos contentar com uma embalagem perfeita, mas um produto que, ainda que convincente, poderia ir além e ser muito melhor.

 

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Trailer: