Durante 40 anos, a série Rocky nunca foi sobre o boxe em si, mas sobre seu protagonista e as lições de vida que ele nos ensinou até o emocionante capítulo final em Rocky Balboa de 2006.

 

No entanto, quando tudo parecia passado para este universo criado por Sylvester Stallone, eis que surge Creed – Nascido Para Lutar, um reboot/continuação que agora acompanha o filho do falecido Apollo Creed. Reboot porque o filme tem a mesma estrutura de origem do clássico de 1976, trocando Stallone pelo jovem e talentoso ator  Michael B. Jordan (que se redime pelo esquecível Quarteto Fantástico). O velho “Rambo”, desta vez, atua como o treinador, em um domínio impecável do personagem que, novamente, lhe rendeu indicações dos principais prêmios de Hollywood este ano.

 

A série não teve só uma renovação no elenco, também nos bastidores, principalmente na direção de Ryan Coogler que escreveu o roteiro junto de Aaron Covington. Coogler tem uma forte marca visual que deixou o filme mais ambicioso. A primeira luta de Adonis Johnson – o menino Creed que insiste em construir o próprio nome e sair da sombra do pai – é algo que sempre quis ver em uma luta de boxe: um plano-sequência. Acompanhando os lutadores no ringue, sem cortes, o diretor impõe um realismo à ação que entrega a tensão e agressividade que ela pede. A cena que antecede o título do filme também é um exemplo da qualidade de Coogler em prender o público. Deste modo, não poderia ser diferente que a luta final fosse uma das melhores da franquia até hoje, arrancando lágrimas quando certos acordes musicais começam a tocar.

 

Creed – Nascido Para Lutar é um soco de direita bem dado para derrubar o passado, mas sem desrespeitá-lo, e assim manter o futuro em pé para uma nova história vencer.

 

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JobsCinco anos após sua morte, Jobs enfim ganha seu primeiro filme biográfico que condiz com sua brilhante carreira. O nome deste feito é simplesmente Steve Jobs.

 

Felizmente, o novo filme de Danny Boyle não está interessado na fórmula tradicional do gênero que poderia mostrar de uma forma linear a vida do maestro e suas ideias revolucionárias que transformaram a Apple na gigante que é hoje. Está interessado no homem responsável em transformar o produto em algo a ser idolatrado, um visionário do marketing que faz milhares de pessoas ficarem dias na fila para comprar um novo celular não por sua qualidade, mas pela marca.

 

O roteiro de Aaron Sorkin, adaptado do livro de Walter Isaacson, é dividido em três momentos importantes na vida de Jobs – os bastidores dos lançamentos do Macintosh (1984), do NeXT (1988) e do iMac (1998) -, acompanhando o protagonista com sua inseparável assistente Joanna Hoffman (Kate Winslet), enquanto tenta lidar com questões pessoais como o reconhecimento paterno de uma filha (uma relação que é o ponto emocional da história) e os conflitos profissionais de atuais e antigos colegas de trabalho, como Steve Wozniak (Seth Rogen) que não suporta a ideia de ser ignorado pelo sucesso do amigo.

 

Michael Fassbender é um Jobs dono de suas convicções que por diversas vezes não reflete as consequências de suas ações sobre as pessoas, visando sempre alcançar os objetivos. Steve Jobs é um filme ágil (com uma edição dinâmica de Elliot Graham), conciso e impactante, construído encima de diálogos afiados e tensos. Um estudo de um ícone que mudou não apenas o rumo da tecnologia, mas do mundo contemporâneo. Um maestro que sabia as notas certas do sucesso.

 

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MarNo Coração do Mar, novo filme de Ron Howard, conta a história por trás de Moby Dick, ou seja, a história que deu origem ao clássico literário de Herman Melville.

 

Com dois tempos diferentes, sempre tendo a interação de dois personagens como foco – o escritor e o sobrevivente, o capitão e o segundo no comando -, Howard repete o trabalho do ótimo Rush – No Limite da Emoção que tem dois personagens que construíram a admiração mútua através de sua rivalidade que, agora, passam o bastão para o capitão George Pollard (Benjamin Walker)e o seu comandado Owen Chase (Chris Hemsworth).

 

O conflito e a interação entre os personagens é o que de melhor tem no filme, lembrando que a gigante baleia também é um personagem, mesmo que ela não tenha um significado definido na história (monstro ou milagre da natureza?). Exceto pelo ser marinho que está convincente, todo trabalho de CGI é no mínimo constrangedor, beirando o amadorismo. Tem vídeo na internet que consegue melhores efeitos visuais.

 

Voltando para o lado humano da história que conta com críticas da sociedade em relação as diferenças sociais, além de uma segura atuação de Hemsworth, mais uma vez sobre a direção de Howard. O ator até sofreu uma transformação física para um dos momentos dramáticos do filme em que o canibalismo virou uma opção de sobrevivência daqueles homens desesperados após o ataque da baleia. Homens que viveram uma viagem ao pior pesadelo de suas vidas e renderam uma história atemporal.

 

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PeanutsSnoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme traz para o cinema a filosofia do quadrinista Charles M. Schulz.

 

A animação já surpreende por um estilo diferente de traço se for comparada com a maioria das produções mainstream, sendo fiel à sua fonte. A história em si não tem nada de novo, Charlie Brown (Noah Schnapp) vive em sua habitual crise de auto-confiança que, embora tenha amigos dispostos a ajudá-lo, não consegue dar uma bola dentro.

 

Tudo piora quando se apaixona por uma nova menina do bairro e coloca na cabeça que precisa mudar para conquistá-la, pois quem iria querer ficar com um para-raio de confusões? Sim, é uma história sobre identidade, de dar valor para si mesmo e deixar de ver só os defeitos para focar no que nos torna únicos. Uma mensagem que poderia tornar-se banal (o que não falta é filme com esse tema), porém funciona de forma orgânica na história, transmitindo ela de uma maneira divertida e sensível tanto para crianças quanto para adultos. Como bônus, ainda tem a empolgante aventura de Snoopy (Bill Melendez) que, sem desligar-se da temática, tem espaço suficiente para brilhar.

 

Uma bela viagem à poesia trágica de Schulz.

 

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JoyNão é surpresa nenhuma que este ano o diretor David O. Russell foi esquecido pela Academia, mesmo que em outros anos tenha discussões sobre as indicações.

 

O seu mais recente filme, Joy – O Nome de Sucesso, aposta em uma narrativa ousada – das novelas – para contar a história de Joy (Jennifer Lawrence), uma mulher que sem nenhuma perspectiva de vida alcançou o status de milionária com uma invenção que fez sua fortuna: um esfregão.

 

O problema é que Russell não soube fazer a metáfora novelesca, que escancara logo na primeira cena do filme, funcionar. Ou pelo menos não de uma boa novela. Tirando Lawrence e Bradley Cooper, o resto do elenco está lamentável. Não culpo os atores por isso, pois estes fazem o máximo para justificar papéis tão fracos como o pai de Joy, interpretado por Robert De Niro, que parece perdido em cena com diálogos constrangedores. Contudo, nada se compara a  personagem de Virginia Madsen, amante das novelas, que é tão sem importância como o filme. Fica até difícil sentir o sofrimento da protagonista por causa de sua situação financeira e familiar quando o próprio diretor vê tudo aquilo com um tipo de humor fora de tom.

 

Lawrence ainda consegue levar o filme nas costas, porém nada justifica uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, sendo que este trabalho nem é de longe um dos melhores da carreira. Bom, a luta da protagonista na busca de seus sonhos chega a ser interessante e curtir a direção de arte de Peter Rogness que dá vida aos anos 70 é recompensador, mas não o bastante para salvar o filme de ser esquecido pelo tempo.

 

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DanishO diretor Tom Hooper depois de ganhar a atenção de Hollywood com grandes produções como O Discurso de Rei e Os Miseráveis, vem este ano com uma história “menor”, porém não menos importante.

 

A Garota Dinamarquesa é baseado na história real de Einar Wegener, um artista renomado que tornou-se o primeiro transexual a fazer cirurgia de mudança de sexo, algo inédito e perigoso no século 19.

 

Interpretado por Eddie Redmayne (vencedor do Oscar de Melhor Ator por A Teoria de Tudo e poderia ganhar novamente este ano se não fosse por DiCaprio estar entre os indicados), Wegener sofre secretamente em não poder assumir a mulher que existe dentro dele, vivendo uma mentira ao lado da esposa Gerda (Alicia Vikander). Porém, após uma brincadeira de ambos em que o artista vai vestido de mulher para uma festa, o seu lado feminino começa a ganhar vida, dando início a um conflito dentro do casamento e o preconceito da sociedade.

 

Redmayne na pele de Wegener já consegue transparecer o eu verdadeiro do personagem, chamada posteriormente de Lili Elbe, com discretos trejeitos femininos quando, por exemplo, está deitado na cama e, enquanto sua esposa o desenha, cobre o peito como se estivesse escondendo os “seios”. Não menos admirável, a atuação de Vikander também merece destaque. No começo, ela não aceita e sofre com a mudança do marido, o submetendo aos absurdos da medicina como se aquilo fosse uma doença, mas por amor não o abandona e o apoia quando compreende o marido. Uma compreensão que ainda precisa ser trabalhada atualmente.

 

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ComptonStraight Outta Compton – A História do N.W.A. é uma porrada cinematográfica contra todos que ainda nutrem o racismo.

 

Como o próprio título diz o filme acompanha a trajetória do grupo de hip-hop N.W.A. formado por Ice Cube (O’Shea Jackson Jr. interpretando o pai), Dr. Dre (Corey Hawkins), Eazy-E (Jason Mitchell), DJ Yella (Neil Brown Jr.) e MC Ren (Aldis Hodge), desde a ascensão do grupo, mostrando o nascimento do estilo, até os conflitos que resultaram em importantes desistências.

 

Dirigido com segurança por F. Gary Gray e escrito pela dupla Jonathan Herman e Andrea Berloff, o filme é muito mais do que um grupo de caras que conseguiram sucesso através da música em um estilo que sofre preconceito até hoje por uma classe mais elitizada, e não estou falando da vertente pop-ostentação que virou moda. É um estudo de personagens e de época. Um retrato da música como porta voz de uma minoria.

 

O forte teor da músicas é justificada no filme quando um repórter pergunta porque as canções continham temas como violência e sexo, carregadas de ofensas, tendo como resposta: “Nós falamos do que vivemos”. Outra cena que ilustra bem isso é quando após o grupo ser humilhado pela polícia na frente do estúdio aonde estavam gravando, um dos maiores sucessos veio naturalmente com o singelo título de Fuck The Police. É complicado falar de amor quando se recebe só ódio.

 

Em meio a polêmica da falta de representatividade negra (e das minorias em geral) no Oscar, o filme só comprova que a divisão racial nos EUA é algo ainda muito presente, e estilos como o hip-hop são necessários para a conscientização de uma sociedade mais justa.

 

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