SpotlightEm 2002, uma reportagem do Boston Globe abalou as estruturas da Igreja Católica. O jornal denunciou que 2% a 4% dos clérigos pertencentes a instituição abusaram sexualmente de menores, em sua maioria meninos, na prática da função. Para agravar a situação, altos cargos do clérigo sabiam dos casos e, em vez de remover e punir os membros, apenas os transferiram para outras paróquias, criando uma espécie de “pedofilia legalizada”. Este caso já foi tratado em documentários, como o recomendado Mea Maxima Culpa: Silêncio na Casa de Deus, e agora ganha uma atenção maior com Spotlight – Segredos Revelados.

 

Com uma direção segura e sem firulas de Tom McCarthy, o filme é ágil e muito claro sobre a investigação que ocorreu antes da reportagem. Uma lembrança do verdadeiro jornalismo que virou raridade atualmente, e praticamente escasso no Brasil. Em sua estrutura narrativa, Spotlight remete bastante ao clássico Todos os Homens do Presidente, acompanhando os jornalistas no dia-dia, enquanto buscam informações sobre o caso com algumas conquistas e muitas negativas (a famosa porta na cara), e o mais importante, recolhendo o máximo de provas que possam embasar a denúncia, sempre visando a qualidade e veracidade da mesma.

 

O roteiro escrito pelo diretor com Josh Singer merece elogios por não esconder-se e tentar, de alguma forma, aliviar para o lado da Igreja Católica. Embora não tenha nenhuma cena explícita, as confissões das vítimas são o bastante para deixar qualquer incrédulo ou desinformado, no mínimo, incomodado com a história. O elenco também foi acertado com cada ator tendo sua importância, a equipe principal da investigação com Mark RuffaloRachel McAdamsBrian d’Arcy JamesMichael Keaton (voltando ao papel de jornalista depois de O Jornal) é o coração do filme, apesar de não concordar com as indicações à prêmios de Ruffalo e McAdams que mesmo ótimos, não as justificam.

 

Enfim, Spotlight é uma aula obrigatória para jornalistas e essencial reflexão para a sociedade.

 

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RoomO diretor Lenny Abrahamson mostrou qualidades em sua estreia com o filme Frank, como uma excelente direção de atores e uma sensibilidade em retratar a trama. Qualidades que repetem-se em O Quarto de Jack.

 

A história de Emma Donoghue, autora do livro que também assina o roteiro, é sobre Joy Newsome (Brie Larson), uma mulher que passou sete anos presa em um cativeiro como escrava sexual, e durante cinco deste sete, cuidou do filho, Jack (Jacob Tremblay), que tinha o “quarto” como uma referência de mundo. A situação por si só é pesada, porém é “suavizada” por mostrar este pesadelo pelos olhos inocentes de uma criança.

 

Assim o filme acompanha a trajetória de Jack deste sua rotina dentro do pequeno quarto até a descoberta de um novo mundo fora dele – repare que mesmo quando eles deixam o cativeiro, o diretor continua investindo em ambientes fechados para mostrar que eles ainda estão presos no pós-trauma -, e esta transição não seria a mesma sem a excelente atuação de Tremblay, provando que idade não é documento.

 

As reações do menino com cada novidade, e muitas vezes assustado por conhecer pessoas diferentes da mãe, provocando uma angustiante dificuldade de fala, são dignas de um experiente ator. Felizmente, o menino não está sozinho, e Larson transmite todo o sofrimento e força que sua personagem pede. Atuações que fazem de O Quarto de Jack mais um belo e sensível filme de Abrahamson.

 

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CarolSe nos dias de hoje relações homossexuais ainda incomodam muita gente, imagina nos anos 50 em que isso seria impensável e, para piorar o cenário, a mulher era condenada a viver à sombra do homem. Patricia Highsmith imaginou como seria em seu livro que ganhou uma adaptação cinematográfica chamada Carol.

 

Dirigido por Todd Haynes, o filme acompanha o romance de duas mulheres: de um lado Carol Aird (Cate Blanchett), estabelecida na alta sociedade e que enfrenta um complicado divórcio, e a insegura e sonhadora Therese Belivet (Rooney Mara) que sofre uma transformação, para melhor, por causa deste amor.

 

Além de retratar este relacionamento – que é movido de uma entrega absoluta pelas duas atrizes -, a história também é sobre a força feminina que resultou em tantas, necessárias, mudanças até os dias de hoje, principalmente por parte da personagem de Blanchett que abalada pelo medo de perder a guarda da filha, resiste ao sofrimento e mantem-se forte em favor da felicidade. Uma felicidade que infelizmente muitas pessoas não aceitam por conceitos que nunca deveriam existir.

 

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Brooklyn é uma das belas surpresas entre os indicados do Oscar 2016 e que desenvolve um estudo de personagem interessante sobre o amadurecimento de uma imigrante irlandesa em busca de um novo lar.

 

A protagonista em questão é Ellis (Saoirse Ronan) que, sem nenhuma perspectiva de vida na cidade natal, decide mudar para os Estados Unidos, especificamente no distrito mais irlandês do país, Brooklyn. De uma menina frágil e dependente, Ellis vai se transformando em uma mulher segura de si, ao mesmo tempo que constrói uma nova vida na América.

 

O competente roteiro de Nick Hornby, adaptado do livro de Colm Tóibín, mostra essa transição tanto de personalidade quanto de ambiente, principalmente quando Ellis retorna para a terra natal e é apresentada à uma zona de conforto que não tinha quando partiu. Ronan explora bem a confusão de sentimentos vivido pela personagem, mas sem deixar de transparecer a força que ela adquiriu durante o processo.

 

Em particular, a cena que vários imigrantes reúnem-se para comer e depois ouvem uma música a capela, é um dos momentos mais emocionantes e que define o longa, pois lembra da importância de nunca esquecer das origens e, deste modo, não importar com a nacionalidade de uma pessoa, e sim o que define ela.

 

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