O capitalismo não é recente; é bem antigo, por sinal. Mas a Globalização e todos os seus efeitos são muito mais próximos de nossa geração, uma vez que a sociedade nunca foi tão individualista, apressada e materialista quanto nas últimas duas décadas. Sendo assim, o capitalismo encontrou o seu terreno perfeito e se instalou definitivamente, fazendo as cifras das bolsas de valores se tornarem cada vez maiores com o decorrer do tempo. Porém, como todo sistema tem as suas brechas, o Capitalismo também viu na população negligente consigo própria uma forma de instalar sua crise, a qual só foi ser percebida quando já formara um enorme efeito dominó mundial; um efeito dominó “globalizado”. Abordando esta crise, A Grande Aposta de Adam McKay é um grande reflexo da própria sociedade contemporânea que aborda: dinâmico, objetivo e assertivo. A única diferença talvez seja que, enquanto o egoísmo e a ambição fizeram com que a Crise de 2008 não fosse sequer avistada, este filme é tão profundo na temática da qual trata que será impossível de passar despercebido.

 

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A opção do roteiro assinado pelo próprio diretor Adam McKay e por Charles Randolph, com base no livro de Michael Lewis, de acompanhar a evolução da Crise de 2008 sob a ótica das únicas figuras capazes de prever tal catástrofe (e de “ganhar” muito dinheiro com isso) dá um caráter fundamental aos protagonistas e, por conseguinte, aos seus intérpretes. Todos com uma perspicácia advinda de suas próprias experiências de vida, eles se destacam por serem figuras atentas e até mesmo visionárias em um mar de seres insossos e que funcionam quase na maior parte do tempo no “piloto automático”. Essa diferenciação em relação à grande parte da população, que justamente os leva ao “olho do furacão” muito antes de quaisquer outros, é também o que faz com que sejam retratados como “os estranhos”, estereótipo proposital utilizado com muita inteligência pelo filme.

 

Entretanto, se a “esquisitice” é comum a todos eles (salvo a personagem de Ryan Gosling), a relação com o Capitalismo não o é, como uma forma da obra de evitar cair no clássico clichê da desilusão ou do discurso de senso comum. Todos carregam consigo particularidades ao lidar com o modo de produção vigente: Michael Burry (Christian Bale) enxerga nos números – presentes no Capitalismo mais do que em qualquer outro sistema – um escape para as suas dificuldades de socialização; Mark Baum (Steve Carell) encarna o conformismo, se sujeitando a trabalhar em Wall Street mesmo acreditando que o local é destruidor de vidas (como a sua própria) somente por não enxergar uma forma efetiva de mudar o sistema para além de suas constantes críticas; Charlie e Jamie (John Magaro e Finn Wittrock), por sua vez, como bons jovens idealistas, veem no mercado uma chance de fazerem dinheiro, ainda que pouco a pouco percebam que este mesmo mercado nada mais é do que um grande lamaçal; por fim, Ben Rickert (Brad Pitt) encarna o clássico desacreditado com o sistema devido a tudo que já viu em seus anos de trabalho.

 

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O Jared Vennett de Ryan Gosling (o qual aqui fica devendo em sua atuação pouco expressiva; uma exceção ao restante do elenco), entretanto, vai na contramão de todas as outras personagens: sua relação com o Capitalismo é excelente, visto que, como ele próprio diz, pouco importa se o sistema está quebrando, o importante é que se lucre com isso. E mais: de sua própria voz sai a alegação de que ele é diferente de todos os outros, porque é “legal”. Sua escolha, porém, para ser o narrador da obra pode ser explicada pelo fato de que ele é aquele que melhor se comunica com a linguagem que McKay adota para seu filme: rápido, direto, sarcástico e, acima de tudo, popular. Soa extremamente natural quando ouvimos sua narração acompanhadas de videoclipes de grandes sucessos norte-americanos, clássicos do rock e do pop, celebridades ou até mesmo de discursos políticos. Para o diretor, tudo aquilo simboliza a cultura de massa que enganou a população, a qual via nas inúmeras oportunidades hipotecárias e no boletim econômico um sistema firme e inabalável, se iludindo com um volátil e vazio mundo supostamente perfeito; simboliza os Estados Unidos que desmoronariam em 2008 com a Crise, mas que logo se reergueriam junto ao próprio Capitalismo.

 

Assim, a função de A Grande Aposta acaba sendo de ser um filme esclarecedor e estarrecedor. Dessa forma, é justificável que, ao invés de simplesmente sair entregando termos técnicos ao público mesmo sabendo que não serão compreensíveis (o que qualquer filme que optasse por tentar criar uma falsa complexidade faria), o diretor opte por trazer figuras conhecidas do grande público, como Margot Robbie (que pode também ser vista em O Lobo de Wall Street, de mesma temática) e Selena Gomez, para explicar tais termos, em mais uma alusão à cultura de massa característica da Globalização possuidora de parcela notável da culpa pela Crise de 2008.

 

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Com a forte necessidade de criar um filme intenso na construção de suas personagens e ao mesmo tempo dinâmico, é inevitável a importância que recai sobre o elenco e a edição, ambos os trabalhos extremamente bem executados. No elenco, se destacam aqueles que melhor sabem explorar a dualidade de suas personagens: Bale como o milionário que ao mesmo tempo que sabe ser desafiador, tem momentos de extrema sensibilidade e Carell, o qual usa o seu perfeito timing cômico para criar uma personagem quase caótica, transformando constantemente o divertido em trágico. A dupla formada por Margaro e Wittrock também se dá muito bem principalmente por saberem lidar muito bem com a responsabilidade cômica de seus “aspirantes a banqueiros”, o que faz com que desejemos mais cenas destes com Brad Pitt, que forma um perfeito trio junto aos dois, balanceando a inocência jovial da dupla com o excesso de realismo e seriedade muitas vezes até incômodo de seu Ben Rickert. Enquanto isso, a edição de Hank Corwin consegue conciliar perfeitamente o ritmo impresso por McKay sem prejudicar o desenvolvimento do roteiro e inclusive auxiliando-o à medida que consegue destacar os melhores momentos da trama sem deixá-los desnecessariamente didáticos.

 

Utilizando um recurso parecido com o de Quentin Tarantino em Os Oito Odiados, o filme  opta por uma espécie de choque de realidade em seus letreiros finais, diluindo um pouco da atmosfera aparentemente leve do longa (ainda que mantenha pequenas piadas nestes). O uso deste “choque de realidade” pode, porém, ser considerado mais uma das muitas ironias deste grande filme, pois em um mundo que permanece predominantemente capitalista – sistema cujas práticas já são mais do que conhecidas – o que mais deveria nos chocar? Voltando ao que disse no início desta resenha, talvez mais do que como a sociedade contemporânea, A Grande Aposta seja como o próprio Capitalismo: divertido em sua superfície, mas aterrorizante em sua essência.

 

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Trailer: