O famigerado Neil Gaiman dispensa grandes apresentações. Depois de Sandman, tudo que põe o dedo chama atenção – isso explica a edição luxuosa que a editora Rocco fez do novo trabalho do escritor.

 

Trata-se de um reconto de um dos clássicos do mundo das fadas, A bela Adormecida, com o trunfo em um formato político surpreendente. O feminismo fez a vez dessa história e com certeza deixou os fãs progressistas do autor com muito orgulho. Quase desconheço romances clássicos de mulheres que saem por aí em cima de seus cavalos para salvar a pátria. Aqui, isso é feito de modo muito natural e convincente, o que deixa essa versão ainda mais diferente da original. Não é a primeira vez que mulheres têm papeis importantes e são personagens principais nos livros de Gaiman, podendo citar Coraline, O Oceano no Fim do Caminho e até mesmo Sandman.

 

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A rainha, que se assemelha muito com a personagem Branca de Neve, embora em nenhum momento isso seja dito, sente-se muito aflita por estar chegando a data de seu casamento: “Em uma semana estarei casada. Isso parecia ao mesmo tempo improvável e extremamente definitivo. (…) Ela podia ouvir os carpinteiros no prado ao pé do castelo fazendo os bancos que permitiriam o seu povo a assistir ao casamento. Cada golpe de martelo soava como a batida de um coração.” Antes da cerimônia, a epidemia do sono chega aos seus ouvidos e a iminência de uma tragédia não lhe faz pensar muito: com a ajuda de três bravos anões, a rainha parte numa jornada um tanto quanto perigosa: descobrir o que está acontecendo e salvar seu povo.

 

O ar grotesco dessa peregrinação mostra como um conto de fadas combina com esse tipo de tom. As ilustrações são uma atração à parte – extremamente bem detalhadas e pavorosas. Feitas basicamente em branco e preto, possuem apenas alguns detalhes dourados, que dão uma textura bastante peculiar aos desenhos. O trabalho de Chris Riddell, bastante conhecido pelos cartoons políticos, me fez lembrar muito o do há muito falecido Harry Clarke, ilustrador de obras de artistas como Edgar Allan Poe, Hans Christian Andersen e Johann Wolfgang von Goethe. O trabalho de Gaiman e Riddel casou muito bem – ambos detalhistas e amantes das coisas obscuras.

 

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O beijo entre Bela Adormecida e a Rainha é bastante bonito, mas está longe de ser a cena mais importante da história. O furor que se criou em cima da cena só mostra o quanto ainda estamos despreparados para as questões de gênero. O que acontecerá com a rainha depois de solucionar o problema primário é, talvez para mim, o mais relevante dessa personagem. Tomar as rédeas de todo um reino e de sua própria vida.

 

O roteiro diferente e de facílimo acesso com certeza fará sucesso nos grupos mais jovens, o que é muito bom, pois faz com que os adolescentes já tenham contato com ideias ainda deturpadas pela sociedade, como feminismo e homossexualidade.

 

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