Em 2015, foi tempo de Hollywood fugir do lugar comum. Abriram-se as portas da imaginação e dezenas de filmes que fugiram completamente do universo realista que o público está acostumado a ver lotaram as salas de cinema (e o bolso dos grandes estúdios), além de inesperadas novidades e agradáveis surpresas. Mad Max conquistou novos fãs e agradou antigos com Estrada da Fúriaassim como fez Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força; a Pixar voltou com tudo, desta vez lançando dois longas e, como de praxe, dois universos totalmente diferentes: Divertida Mente O Bom Dinossauro; o humor negro de Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) e sua metafórica crítica ao cinema contemporâneo desbancaram o narrativamente simples, mas emocionalmente complexo Boyhood – Da Infância a Juventude no Oscar; o machismo entrou em pauta com Patricia ArquetteMeryl Streep Jennifer LawrenceTarantino retomou o western em 70mm com Os Oito Odiados; o cinema brasileiro ganhou o mundo com Que Horas Ela Volta?; os documentários mostraram força e muito se falou de Amy, Cássia, Going Clear, Cobain – Montage of Heckdo vencedor do Oscar Citizenfour e outros; Guillermo del Toro subiu A Colina Escarlate com o seu terror esteticamente estonteante; Robert Zemeckis filmou A Travessia do World Trade Center em 3D, como fez Godard em Adeus à Linguagem e Gaspar Noé em Love; Tim Burton saiu (um pouco) da sua zona de conforto com Grandes Olhos; Shyamalan, finalmente, mostrou que a esperança é a última que morre com seu A VisitaRidley Scott parece ter reencontrado seu rumo (e o sucesso) com Perdido em Marte e muito mais.

 

Como faço tradicionalmente no Facebook e pelo primeiro ano no Pisovelho, deixo aqui a minha lista dos filmes que mais gostei de assistir em 2015, contando aqueles que foram lançados nesse ano seja no Brasil ou nos Estados Unidos. Também como de tradição, faço a minha mea culpa ao dizer que não pude – por falta de tempo – assistir a algumas das obras muito comentadas no decorrer do ano, como Amy, 007 Contra SpectreJogos Vorazes – A Esperança: O FinalCinquenta Tons de Cinza, Kingsman: Serviço Secreto, Mia Madre, Sicario – Terra de Ninguém, Ex MachinaPonte de Espiões, O Bom Dinossauro e Love. Dito isso, vamos aos favoritos, em ordem crescente de preferência:

 

10. Youth, de Paolo Sorrentino

 

10Youth

 

Tenho minhas ressalvas em relação a Paolo Sorrentino. Seu penúltimo filme, A Grande Beleza, está longe de ser um de meus favoritos justamente pelas fortes interferências do diretor na estética de seu filme, buscando emular grandes mestres do cinema, como Fellini, em momentos disfarçados de “homenagens”. Além disso, seus roteiros quase sempre exageram ao buscar um “sofrimento glamourizado” em situações banais somente sofridas pela classe média alta. Seu novo filme, Youth, permanece com ambos os problemas, mas a excelente escolha de elenco, incluindo grandes atuações de veteranos como Michael Caine, Harvey Keitel e Jane Fonda (além do cada vez mais bem-sucedido Paul Dano) e o roteiro direcionado para o absurdo potencial interpretativo de cada um de seus intérpretes superam qualquer uma das dificuldades impostas pela necessidade de Sorrentino de se auto afirmar por trás das câmeras, compondo assim um dos grandes filmes do ano.

 

09. Divertida Mente, de Pete Docter

 

 

O fracasso de Carros 2 e a recepção fria de Valente e Universidade Monstros quase fez com que a Pixar, por mais de uma década detentora do título de melhor estúdio de animação e um dos melhores de longas em geral, perdesse a sua credibilidade. Entretanto, depois de um inédito hiato de um ano sem lançar nenhum filme, o estúdio voltou com uma de suas melhores produções: Divertida Mente. Retomando a capacidade inventiva que marcou a história do estúdio, a animação conquistou jovens e adultos ao fazer um retrato alegórico (como sempre) ao mesmo tempo divertido e emocionante da forma como somos movidos pelas nossas emoções e pelas atitudes que tomamos por meio delas, em um processo contínuo de amadurecimento.

 

08. Cobain – Montage of Heck, de Brett Morgen

 

 

Fazer documentários sobre celebridades é algo muito complicado, uma vez que na tentativa muitas vezes de se humanizar, se endeusa ou demoniza, arranhando a história do biografado. O documentário de Brett Morgen, Cobain – Montage of Heck, não só encontra o equilíbrio com facilidade, como também apresenta praticamente uma versão nova da vida do artista, nos apresentando a fatos – tanto positivos quanto negativos – que não haviam sido retratados até então. Além disso, vale destacar o trabalho investigativo do diretor, ultrapassando a barreira de apenas reinterpretar o que já foi dito sobre o cantor, apresentando desenhos e gravações inéditas de Kurt em momentos de grande inspiração, como em animações feitas a partir da vida e da visão de mundo de Cobain.

 

07. Whiplash – Em Busca da Perfeição, de Damien Chazelle

 

 

A humilhação e o abuso psicológico por parte de “mentores” já foi muitas vezes retratada por Hollywood, inclusive em clássicos como Nascido para Matar, de Stanley Kubrick. Entretanto, Whiplash – Em Busca da Perfeição utiliza uma abordagem inédita ao optar por não vitimizar o aprendiz e vilanizar o mestre e sim por retratar a disputa entre os dois como uma verdadeira batalha entre egos, fortalecida pelas grandes atuações de J.K. Simmons e Miles Teller. Vale destacar também os belos trabalhos de edição de Tom Cross e fotografia de Sharone Mair, os quais colaboram definitivamente na criação daquele que já é um dos grandes embates da história do Cinema.

 

06. Going Clear – Scientology and the Prison of Belief, de Alex Gibney

 

 

O cinema deve sempre entreter e divertir o seu público, mas também não pode nunca deixar de cumprir as suas funções sociais, dentre elas a de investigar e advertir os espectadores sobre realidades muitas vezes desconhecidas. O corajoso documentário da HBO Going Clear faz uma denúncia inédita em suas proporções acerca das práticas da Igreja da Cientologia nos Estados Unidos, cumprindo com maestria a função social que cabe à sétima arte. Seu retrato se torna ainda mais corajoso por abordar uma realidade que afeta grandes nomes da indústria cinematográfica, como Tom Cruise e John Travolta, atingidos diretamente pela produção.

 

05. Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

 

 

Ainda em se tratando da função social do cinema, Que Horas Ela Volta? causou um verdadeiro debate no país ao longo do ano acerca das relações entre patrões e empregadas domésticas (e até mesmo de machismo, em um episódio que envolveu a diretora Anna Muylaert e os diretores Cláudio Assis e Lírio Ferreira), aproveitando-se do 2015 de forte calor no debate político e da pauta em voga dos direitos trabalhistas. A veracidade de Regina Casé como a empregada Val e da estreante Camila Márdila como sua filha Jéssica fizeram com que o público saísse em massa de casa para assistir a um filme nacional que não tinha como principal eixo temático a violência e que também não era uma comédia financiada pela Globo Filmes, em um feito inédito praticamente desde Central do Brasil. Como resultado, acumulamos prêmios ao redor do mundo: Sundance, Berlim e associações de críticos. Infelizmente, o Oscar e o Globo de Ouro ficaram para a próxima mais uma vez.

 

04. Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino

 

 

Aos 45 minutos do segundo tempo, sabíamos que faltava alguma coisa para o cinema no ano de 2015: o novo filme de Quentin Tarantino. E aí tivemos Os Oito Odiados estreando em 70mm nos Estados Unidos. Não há muitas novidades no novo filme daquele que já é um dos grandes diretores do nosso cinema atual: inesquecíveis avalanches de diálogo, um elenco em que os atores dão o melhor de si (e aqui vale destacar Kurt Russell, Samuel L. Jackson e Bruce Dern) e a construção de um grandioso clímax. A novidade talvez resida em um destaque maior na questão histórico-social (ainda que este seja o filme mais bem-humorado de Tarantino), trazendo um dos mais interessantes estudos sobre a Guerra de Secessão e suas consequências para a construção da mentalidade racial e bélica norte-americana.

 

03. Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

 

 

Esqueça a palavra humanização no argentino Relatos Selvagens: aqui o Homem é retratado como um animal, ou, caso prefira, como um selvagem, seguindo a sugestão do título. O conjunto de esquetes brilhantemente roteirizados e dirigidos por Szifrón apresenta, com muita ironia, a nossa espécie como pressionada a tal ponto pelas amarras sociais que está sempre a ponto de uma grande explosão de violência, residindo nestas explosões as surpreendentes e divertidas reviravoltas da obra. Detalhe: nada mais justo que Relatos esteja nesta lista ao lado de um filme de Quentin Tarantino, uma vez que a todo momento lembra os grandes trabalhos da carreira do diretor estadunidense.

 

02. What We Do In The Shadows, de Jemaine Clement e Taika Waititi

 

 

E como é bom ter uma comédia na lista dos melhores filmes do ano! What We Do In The Shadows conseguiu ser hilária justamente graças à sua trama inusitada e todas as situações absurdas que esta permitiu abordar (sem nunca, entretanto, apelar para o humor fácil): a realização de um “documentário” sobre quatro vampiros seculares que moram juntos e a relação entre eles e deles com a contemporaneidade, ironizando de maneira genial em diversos momentos a sede humana – mesmo que implícita – pela imortalidade e o nosso uso corriqueiro do exagero para alcançarmos os nossos objetivos.

 

01. Birdman (Ou A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

 

 

Por se tratar de um evento que envolve também interesses comerciais, é muito difícil a decisão do Oscar de conceder o prêmio de melhor filme a uma obra coincidir também com aquela obra que foi a mais bem-executada do ano. É muito difícil, mas 2015 provou que não é impossível. Birdman, vencedor de 3 das principais categorias da premiação da Academia, mereceu o título de Melhor Filme do Ano não só pelo “plano-sequência único de 2 horas” que chamou todas as atenções para si, mas sim por todo um conjunto de sucesso. Um roteiro sincero, criativo e que nos envolve de maneira brutal com todas as personagens; um elenco que traz a melhor atuação da carreira de Edward Norton (superando, pelo minimalismo, seu desempenho em A Outra História Americana), uma Naomi Watts totalmente fora da sua zona de conforto, um merecido destaque para Andrea Riseborough, uma marcante ponta de Lindsay Duncan e o returno triunfal de um dos atores mais queridos de Hollywood, Michael Keaton; a fotografia de Emmanuel Lubezki, que é praticamente um complemento da incessante câmera de Iñárritu e o rufar da bateria de Antonio Sánchez, que já anunciava o sucesso deste grande filme.

 

Menção Honrosa: A Fotografia Oculta de Vivian Maier, documentário dirigido por Charlie Siskel e John Maloof, foi lançado nos Estados Unidos em 2014 e não ganhou lançamento no Brasil, por isso não entrou na lista, ainda que eu o tenha visto em 2015. Porém, sua capacidade de realizar com muita sutileza uma dolorida reflexão acerca da impotência humana o torna com certeza um dos grandes filmes dos últimos tempos.

 

Também gostei muito de Foxcatcher – A História Que Chocou o Mundo, O Jogo da Imitação, Um Santo Vizinho, Livre, O Ano Mais Violento, O Desaparecimento de Eleanor Rigby – Eles, Força Maior, Sr. Turner, Pride, Cássia, Enquanto Somos Jovens, Perdido em Marte, Shaun: O Carneiro – O Filme, Aliança do Crime, A Travessia, Mistress America, Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força e Spotlight – Segredos Revelados.

 

 

Um 2016 repleto de (bom) cinema a todos! 🙂