PeakGuillermo Del Toro é um cineasta imaginativo, mais do que contar uma história, ele tem a preocupação de criar um universo próprio para ela. Assim, seus filmes são sempre uma atração artística que pode ser conferida nos cenários, figurinos, maquiagens, entre outros departamentos. Depois de fazer a diversão dos nerds com Círculo de Fogo, o rei dos monstros também dedica seu reinado aos fantasmas, seres presentes em seu primeiro trabalho A Espinha do Diabo, agora retornam em A Colina Escarlate.

 

A sensitiva Edith (Mia Wasikowska) vai morar em uma velha mansão junto com o recém marido e misterioso Thomas (Tom Hiddleston) e a cunhada Lucille (Jessica Chastain). Interessante notar que o suspense não é dedicado aos fantasmas da casa, pois para Del Toro eles nunca são vistos como perigo. Contudo, os humanos, neste caso os irmãos Sharpe, guardam segredos que podem transformar a vida de Edith em um verdadeiro horror.

 

Embora a história seja envolvente – menos a do personagem de Charlie Hunnam, totalmente descartável – e com atuações competentes, o verdadeiro astro do filme é a mansão. Todos os cenários foram construídos a mão (créditos ao diretor de design Thomas E. Sanders), deixando a parte digital para alguns detalhes como o buraco no teto e a parte exterior. Essa veracidade é essencial para a imersão, um palco fantástico para Del Toro desenvolver sua história. Os fantasmas agradecem.

 

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SicarioGeralmente filmes de guerra resultam em ótimas histórias, produções como Cartas de Iwo Jima, Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura – para citar os mais recentes -, entre outros só comprovam isso. Um representante digno desta lista, Sicario é o filme da vez.

 

Denis Villeneuve (detentor de uma filmografia impecável que contém excelentes longas como Os Suspeitos e O Homem Duplicado) escolhe a guerra contra o tráfico de drogas, e com um instigante roteiro de Taylor Sheridan, dirige um filme que vai muito além do esquema polícia contra bandido, sendo um retrato realista deste meio como ele é.

 

Acompanhando a agente do FBI, Kate Macer (Emily Blunt), em uma missão para diminuir o cartel mexicano, Villeneuve desenvolve estudos de personagens em situações que sempre os levam ao limite tanto físico quanto emocional, principalmente nas tensas cenas de ação que o diretor filma com maestria. Deste modo, o filme é uma porrada de realidade de como funciona o sistema do tráfico de drogas, um sistema que não há espaço para boas intenções e cheio de lobos à procura de poder como deixa claro o excepcional personagem de Benicio Del Toro.

 

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AmericaInspirado claramente pelo estilo Woody Allen de fazer cinema, em que foca no cotidiano para realizar um estudo de personagem, Noah Baumbach encantou (e ainda encanta) o público com o excelente Frances Ha. Com uma história cativante sobre amadurecimento, o filme trazia uma carismática Greta Gerwig como protagonista, além de ter David Bowie na trilha sonora. Agora, o diretor retorna com sua musa em Mistress America. A temática sobre amadurecimento ainda está presente, mas com a adição de retratar uma geração que está à procura de seu lugar no mundo.

 

O roteiro escrito pela dupla é desesperado em parecer inteligente e descolado, resultando em uma enxurrada de personagens que entram e saem da história sempre com algo “interessante” para dizer. Deste modo, a relação da protagonista Tracy (Lola Kirke) com sua meia-irmã Brooke (Greta de carismática para insuportável) fica ofuscada por diálogos que transparecem o roteirista discursando em vez de ser um processo orgânico da história. Não que esse tipo de escrita seja proibido, pois Woody Allen também faz isso, a diferença é que, na maioria das vezes, os diálogos estão a favor dos personagens, do desenvolvimento da trama. Algo que Baumbach parece ter perdido neste filme.

 

Por exemplo, toda a sequência de Brooke tentando arrecadar dinheiro com seu ex-namorado é o auge da bagunça discursiva, chegando em momentos que deveriam ser tocantes, mas que se perdem na correria verborrágica. Uma pena, pois a história tinha potencial.

 

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LobsterUm futuro que é proibido ser solitário. Se a pessoa estiver sozinha, ela ganha um tempo determinado para achar alguém correspondente, senão conseguir irá ser transformada em um animal, pois como animal, ela terá mais chances de arrumar uma parceira.

 

É com essa bizarra e interessante premissa que The Lobster se baseia para contar a história de David (Colin Farrell, simplesmente sensacional), um homem divorciado que é mandando para um hotel onde corre contra o relógio para arrumar um novo “amor”. O novo filme de Yorgos Lanthimos é envolto em estranheza (aumentada pela perturbadora trilha sonora de Amy Ashworth) com uma pitada do que o humor negro tem de melhor. Contudo, o seu retrato sobre a necessidade do ser humano em relacionar-se e os meios que a sociedade impõe para que isso aconteça da maneira convencional é o ponte forte do filme.

 

O futuro apresentado não é muito distante da atual realidade com casais que ficam juntos apenas para não ficarem sozinhos, enquanto outros acham que só irão encontrar o par perfeito se o mesmo tiver semelhanças que justifiquem a união. O sentimento não é tão importante quando a solidão começa bater na porta. Por isso, é fascinante ver como os solitários são retratados como selvagens, isolados na floresta com suas próprias regras, mas sem nenhum interesse amoroso. Ser solteiro é como se fosse algo absurdo, praticamente um crime.

 

Uma obra reflexiva e original que fala sobre o amor e solidão de uma maneira nada convencional.

 

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EspioesO James B. Donovan de Tom Hanks remete ao Atticus Finch de O Sol é Para Todos, um advogado ético que bate de frente com uma sociedade cega, neste caso pela Guerra Fria e o ódio pelo comunismo, em prol da justiça. É com este protagonista cheio de virtudes que Steven Spielberg dirige Ponte dos Espiões que, apesar de cenas patriotas semelhantes ao Lincoln, é mais sobre o homem do que o país.

 

Baseado em fatos reais, o roteiro de Matt Charman e os irmãos Coen dramatiza a participação de Donovan em um dos momentos tensos, entre vários, da Guerra Fria. Os EUA tinham a posse de um espião soviético, enquanto a URSS estavam com dois norte-americanos, um deles sendo um soldado capturado em ação. Com o cenário montado, Donovan foi o escolhido para fazer a transição dos prisioneiros.

 

Antes de tudo, vale destacar a inspirada edição de Michael Kahn que faz transições bem elaboradas como quando em um julgamento é pedido para as pessoas se levantarem e, na cena seguinte, crianças levantam para idolatrar a bandeira e temer os comunistas deste cedo, entregando um ritmo dinâmico que sempre move a história sem aborrecimentos. Sim, Spielberg ainda comete os mesmos erros de sua recente filmografia em tentar glamorizar praticamente todas as cenas, como se cada fala ou ação fosse a coisa mais importante do mundo. No entanto, o diretor está mais controlado e mostra seu habitual domínio atrás das câmeras em sequências de ação como o abatimento do avião ou o tenso clímax na ponte que dá nome ao filme. A parceria Hanks e Spielberg mais uma vez não decepciona.

 

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