E a força despertou. Esse foi o sentimento ao terminar a sessão de Star Wars – O Despertar da Força e ter a certeza que, após o vácuo de criatividade da última trilogia, a série criada por George Lucas voltou a ser digna de inspirar uma nova geração de fãs como a trilogia clássica fez a muito tempo atrás em uma galáxia nem tão distante.

 

Deste o começo, quando a Disney comprou os direitos da franquia, a ideia era retornar o “espírito” Star Wars que ficou perdido depois de O Retorno de Jedi. Por isso a empresa resolveu trabalhar com os melhores profissionais e, entre eles, o diretor J.J. Abrams e, o roteirista de O Império Contra-Ataca (ainda o melhor episódio), Lawrence Kasdan, que teve a disposição o primeiro rascunho do roteiro escrito por Michael Arndt. Assim, a cada vídeo de bastidores e trailers lançados, a desconfiança foi dando lugar ao enorme hype, justificado pela adoção da trilogia clássica como referência principal e renegar o uso exagerado de CGI, um dos maiores problemas dos três últimos episódios. O sonho de 32 anos estava se tornando realidade.

 

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A história em si não carrega o primor da originalidade, tendo semelhanças claras com Uma Nova Esperança. O ciclo do herói, que no clássico foi de Luke Skywalker (Mark Hamill), agora está dedicado à protagonista Rey (Daisy Ridley) que é um dos maiores acertos do novo filme. Se por um lado essa repetição de roteiro possa sugerir preguiça dos roteiristas, na verdade, acaba servindo como uma base estabelecida e de pré-conhecimento dos fãs, e de fácil assimilação para os novatos, para sobrar tempo no desenvolvimento dos novos personagens.  Desta maneira, trocas sem grande impacto de mudança como o Império pela Primeira Ordem e a Aliança dos Rebeldes pela Resistência, faz com que toda a atenção se volte para a relação de Rey com Finn (John Boyega) de uma forma mais rápida.

 

Essa dupla, de uma química invejável, tem suas personalidades bem construídas sendo que Finn funciona ao mesmo tempo como alívio cômico, junto com o adorável BB-8, e também como um personagem dramático. O mesmo pode ser dito de Rey, que se estabelece como a melhor personagem feminina de Star Wars (no cinema), já que a princesa Leia (Carrie Fisher) sempre ficou à sombra de Luke e Han Solo, e Padmé Amidala foi um desperdício do talento de Natalie Portman. Ou seja, Rey é a dona do episódio VII e com todos os méritos.

 

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O Despertar poderia, sem nenhum julgamento, ser interpretado como um reboot, pois até o núcleo dos vilões não muda nada. Tem o antagonista do lado negro da força que ajuda um militar a comandar a galáxia, recebendo ordens de um ser misterioso que parece estar planejando algo maior e por aí vai. Kylo Ren (Adam Driver) é um projeto de Darth Vader, não que isso seja um demérito, pois é um vilão igualmente intimidador e ainda demonstra ter um maior domínio da força, embora seja apenas um aprendiz. Imagina quando esse “projeto” ganhar a versão final. No entanto, o que encanta no personagem é o seu conflito interior, um conflito que terá o ápice em uma das mais icônicas cenas da série. J.J. Abrams deixou sua marca para sempre nas estrelas.

 

Contudo, o que faz O Despertar da Força ser um filme digno de Star Wars é a sua paixão pela mitologia da primeira trilogia. A inserção dos personagens clássicos com um ótimo retorno de Han Solo, o uso mínimo de CGI (até fica estranho quando aparece), o incrível design de produção, a trilha sonora épica de John Willians, a força como filosofia e não ciência, tudo em prol de resgatar e respeitar o que deu certo anteriormente. O carinho com o passado não impediu de Abrams olhar para o futuro e, além de novos personagens fortes e carismáticos, é notável sua mão nas cenas de ação que misturam urgência, tensão e humor em uma receita de sucesso. O ritmo dinâmico do diretor entrega uma fluidez bem vinda à série. A Millennium Falcon faz coisas que até Yoda duvida.

 

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Embora o humor transpire naturalmente em cada sequência, Abrams prova que é o mesmo diretor que sempre me emociona nos primeiros minutos de Star Trek, e entrega sequências dramáticas memoráveis. Uma delas é o clímax. Uma verdadeira obra prima visual projetada por uma dança de cores que representam a dualidade entre o bem e o mal existente na franquia. O fotógrafo Daniel Mindel fez seu dever de casa com excelência.

 

Star Wars – O Despertar da Força se agarra ao passado para construir um futuro promissor. Um futuro que deverá desenvolver melhor os mistérios deixados pelo filme, como uma melhor contextualização política deste novo cenário, e continuar fazendo a alegria da velha e nova geração de fãs. Que a força, agora desperta, esteja com todos vocês.

 

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Trailer: